
Abandono Afetivo: uma lei recente permite que filhos peçam indenização a pais omissos.
A maioria dos casos de abandono afetivo no Brasil envolve a ausência do pai. Segundo especialistas ouvidos em uma reportagem do Fantástico deste domingo (5), cerca de 90% das ações judiciais tratam da omissão paterna — um dado que revela como a falta de convivência e cuidado ainda tem gênero.
Histórias como a da corretora de imóveis Vitória Schroder, de 24 anos, ajudam a ilustrar esse cenário: ela cresceu sem qualquer contato com o pai e decidiu recorrer à Justiça para buscar reparação.
“Eu não tenho memórias dele porque eu nunca o vi”, conta. Segundo Vitória, o pai a registrou quando ela ainda era bebê e, desde então, desapareceu. “Não adiantou só me registrar como filha. Faltou participar da minha vida”, diz.
A ausência se tornou mais evidente em momentos simbólicos da infância. Em festas, apresentações escolares e datas comemorativas, o espaço que deveria ser ocupado pelo pai permanecia vazio. “Eu via as outras crianças com os pais e não entendia por que o meu não estava ali também”, lembra.
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Vitória Schroder, corretora de imóveis, 24 anos, que processou o pai por abandono afetivo.
Reprodução/TV Globo/Fantástico
Após perder a mãe ainda pequena, Vitória foi criada pelos avós maternos. Já adulta, tentou retomar o contato com o pai, mas não teve retorno.
“Tentei falar com ele várias vezes e ele simplesmente me bloqueou”, afirma. Aos 18 anos, entrou com uma ação por abandono afetivo e conseguiu na Justiça uma indenização de R$ 150 mil. O pai recorreu da decisão.
Apesar do reconhecimento judicial, ela diz que o dinheiro não preenche a ausência. “Ajuda, mas não é tudo. Eu queria ter o meu pai.”
Especialistas apontam que o alto número de casos envolvendo pais está relacionado a fatores culturais.
“O homem se separa do filho, porque ele não era atrelado ao filho, ele era atrelado à mulher e ao casamento”, explica a psicóloga clínica e forense Glícia Brasil.
As consequências do abandono afetivo podem ser duradouras. Entre elas, medo de rejeição, ansiedade e dificuldades em estabelecer vínculos. “Existe uma dificuldade de acreditar que pode ser amado”, afirma.
Homem com displasia fibrosa diz que foi abandonado pela mãe depois do diagnóstico.
Reprodução/TV Globo/Fantástico
Ausência materna também deixa marcas
Embora menos frequente, o abandono materno também acontece e pode ter impactos igualmente profundos. Um homem de Belo Horizonte, que preferiu não se identificar, conta que enfrentou não apenas a ausência da mãe, mas também uma doença grave na infância sem o apoio dela.
“Foi a partir dos 9 anos que apareceu a deformação nos ossos. Eu tive displasia fibrosa”, relata. Ao longo do tratamento, ele passou por 14 cirurgias e ficou internado por cerca de um ano e meio.
Durante esse período, a mãe fazia visitas pontuais, mas não oferecia o suporte necessário. “O que mais fez falta foi o carinho de mãe, de preocupação com a pessoa especial”, diz.
Segundo ele, a sensação era de rejeição. “Para mim, passou isso: que eu não tinha mais valor.”
Em casa, a situação não era diferente. O apoio vinha do pai, já separado da mãe, que permaneceu presente até o fim da vida. Ainda assim, as marcas do abandono permaneceram.
O homem chegou a entrar na Justiça contra a mãe, mas o processo não foi aceito por ter sido apresentado fora do prazo legal.
Hoje, ele afirma ter reconstruído a própria história. Pai de três filhas, diz que buscou oferecer a elas o que não teve. “Tenho um grande orgulho delas”, afirma.
Mesmo após tudo o que viveu, diz que não guardaria ressentimento. Se encontrasse a mãe novamente, a reação seria de acolhimento. “Eu abraçaria e diria: eu venci.”
Ainda que os números apontem predominância da ausência paterna, o foco está no impacto da omissão — independentemente de quem a pratique.
A legislação brasileira passou a permitir, desde 2025, que filhos busquem indenização por esse tipo de abandono. Mais do que compensação financeira, o objetivo é reconhecer que o cuidado não é opcional — é um dever.
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