A Barbárie da Retórica: O Erro de Ameaçar uma Civilização

Governos são passageiros, mas civilizações são eternas: por que a ameaça de destruição ao Irã é um atentado contra a memória da humanidade.
A história da humanidade é feita de ciclos, mas algumas raízes são tão profundas que nenhuma força militar, por mais potente que seja, deveria se sentir no direito de ameaçar extirpá-las. Recentemente, o mundo assistiu com perplexidade à fala do presidente dos Estados Unidos sugerindo a destruição de uma “civilização inteira” ao se referir ao Irã. Tal afirmação não é apenas um erro estratégico; é uma declaração de falência moral e um flerte com o crime de guerra.

O Berço da Tolerância e da Ciência

Falar do Irã sem reconhecer sua origem persa é ignorar um dos pilares das civilizações ocidental e oriental. Foi sob o comando de Ciro, o Grande, que nasceu o primeiro império a codificar a tolerância religiosa e a liberdade de culto. Enquanto potências modernas debatem direitos humanos, o “Cilindro de Ciro”, de 539 a.C., já registrava o direito dos povos de viverem conforme suas tradições.
Não se apaga uma nação que deu ao mundo a álgebra de Al-Khwarizmi, a medicina de Avicena e a poesia de Rumi. Tentar destruir o que o presidente chama de “regime” através da aniquilação de sua base civilizatória seria, na prática, um atentado contra a memória da própria espécie humana.

A Ilegalidade da Ameaça

Do ponto de vista do Direito Internacional, a ameaça de destruição de locais culturais e de uma população civil é um crime de guerra. As Forças Armadas de qualquer nação democrática, inclusive as americanas, têm o dever ético e legal de desobedecer a ordens que visem o extermínio de um povo ou de seu patrimônio histórico. Um soldado jura defender a Constituição e as leis, não cumprir caprichos de aniquilação que violam abertamente as Convenções de Genebra.

Conclusão

Afirmar que o “regime acabou” e que a destruição total é uma opção viável é uma postura indigna para o líder da maior potência do planeta. Regimes políticos são transitórios e sujeitos a críticas, mas a identidade de um povo é sagrada. Quando um líder ameaça uma civilização, ele não demonstra força; demonstra uma ignorância histórica perigosa que coloca em risco a paz global. A barbárie não pode ser a resposta para os conflitos do século XXI.

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