Os robôs tratores de dezenas de toneladas que escavam o fundo do oceano em busca das pedras que movem os carros elétricos

No fundo do Pacífico, a mais de 4.000 metros de profundidade, existem trilhões de pedras pretas do tamanho de uma laranja que contêm os minerais que movem os carros elétricos. E uma empresa canadense já desenvolveu robôs do tamanho de um caminhão para buscá-las, rastejando pelo leito do oceano como aspiradores de pó gigantes.

O que são os nódulos polimetálicos e onde estão os maiores depósitos do mundo?

A Zona Clarion-Clipperton (ZCC) é uma região do Pacífico central com cerca de 6 milhões de km², maior que o território brasileiro, delimitada entre o México e o Havaí. Estima-se que o leito oceânico da ZCC contenha mais de 21 bilhões de toneladas de nódulos polimetálicos, com concentrações médias de manganês (28–30%), níquel (1,3–1,4%), cobre (1,1–1,2%) e cobalto (0,2–0,25%).

Enquanto uma mina terrestre exige remoção de rocha, perfuração e processamento pesado, os nódulos simplesmente repousam sobre o sedimento, acessíveis à superfície do leito oceânico. Isso torna a ZCC o maior depósito mineral de metais críticos para baterias de carros elétricos já identificado no planeta.

No fundo do Pacífico, a mais de 4.000 metros de profundidade, existem trilhões de pedras pretas do tamanho de uma laranja que contêm os minerais que movem os carros elétricos

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Como funcionam os robôs que coletam pedras a 4.000 metros de profundidade?

O veículo coletor é um robô rastreado que se locomove sobre o sedimento abissal usando esteiras largas, similares às de um trator agrícola, projetadas para distribuir o peso sobre uma lama extremamente mole. O gerente ambiental da The Metals Company (TMC), Michael Clarke, descreveu o sistema diretamente: é como um aspirador de pó gigante que rasteja lentamente pelo leito oceânico.

O veículo usa jatos de água de baixa pressão para desprender os nódulos do sedimento e sugá-los por diferencial de pressão. Após a coleta, os nódulos sobem por um riser vertical de 4.300 metros até o navio de superfície, onde são desidratados e armazenados no porão, enquanto a água residual é devolvida ao oceano.

Após a coleta, os nódulos sobem por um riser vertical de 4.300 metros até o navio de superfície, onde são desidratados e armazenados no porão, enquanto a água residual é devolvida ao oceano

O que é o Hidden Gem, o único navio de mineração profunda operacional do mundo?

O Hidden Gem, da empresa holandesa Allseas, é um ex-navio de perfuração de petróleo convertido especificamente para a mineração de nódulos. Segundo as especificações publicadas pela Allseas, o navio tem 228 metros de comprimento, potência instalada de 43.740 kW, acomodações para 140 pessoas e seis propulsores de 4.500 kW cada para posicionamento dinâmico preciso durante as operações.

Para visualizar os robôs em operação no leito oceânico, o canal da The Metals Company, com 2,56 mil inscritos e 4.306 visualizações, registrou o momento em que o veículo coletor foi implantado pelo Hidden Gem e dirigiu pelo fundo do oceano pela primeira vez:

O que o teste de 2022 provou sobre a coleta industrial de nódulos?

Em outubro de 2022, a TMC e a Allseas conduziram o primeiro teste integrado em escala industrial na ZCC, a 4.280 metros de profundidade. Os resultados, publicados na Nature em 2025, foram expressivos: o robô percorreu 80 km de leito oceânico e coletou mais de 3.000 toneladas de nódulos, atingindo taxa de 86 toneladas por hora em operação sustentada.

O coletor perturbou apenas os 3 cm superficiais do sedimento, contra os 80 cm registrados nos testes experimentais dos anos 1970. A TMC se comprometeu a deixar pelo menos 30% das suas áreas de contrato intocadas para facilitar a recolonização por organismos dependentes dos nódulos.

Quais outros países têm robôs operando no fundo do oceano?

O campo está longe de ser monopólio da TMC. A Global Sea Mineral Resources (GSR), do grupo belga DEME, testou seu veículo Patania II na ZCC, gerando estudos sobre impacto em comunidades de meiofauna abissal. Em outubro de 2024, a China Minmetals submeteu à ISA um estudo de impacto ambiental para testes de seu próprio veículo coletor programados para 2025.

A Coreia do Sul, por meio do KIOST, desenvolve seu sistema nacional com foco em integração entre veículo, riser e navio. Em março de 2026, a NOAA declarou conformidade substancial da aplicação da TMC para licença de mineração comercial, ampliando a área coberta de 25.000 km² para 65.000 km², com recurso estimado de 619 milhões de toneladas de nódulos úmidos.

Por que extrair minerais do fundo do oceano é uma contradição ambiental?

Os nódulos contêm exatamente os metais necessários para fabricar baterias de carros elétricos, que existem para reduzir emissões de carbono. Mas extraí-los destrói ecossistemas que levaram milhões de anos para se desenvolver. Os estudos publicados até 2026 apontam para impactos que não se dissipam facilmente:

  • As cicatrizes dos testes dos anos 1970 ainda são visíveis no leito oceânico cinco décadas depois
  • A fauna séssil, como esponjas, desaparece completamente das áreas onde os nódulos são removidos
  • Os nódulos crescem a milímetros por milhão de anos, tornando-os efetivamente não renováveis em qualquer escala de tempo humana
Os nódulos contêm exatamente os metais necessários para fabricar baterias de carros elétricos, que existem para reduzir emissões de carbono

Os robôs já funcionam, mas as regras ainda não existem

A Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA) é o organismo da ONU que regula a mineração em águas internacionais. A sessão de julho de 2025 terminou sem consenso sobre o Código de Mineração, o conjunto de regras que definiria como e em que condições a exploração comercial seria permitida.

Os robôs já provaram que a extração em escala industrial é tecnicamente possível. O que ainda falta não é engenharia, é governança: um acordo global sobre como explorar o fundo do oceano sem destruir o que ainda não conhecemos completamente.

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