
No curso “Retórica do ódio”, disponível na plataforma do Instituto Conhecimento Liberta, o professor de Literatura Comparada da UERJ João Cézar Castro Rocha explica que nunca houve um único genocídio na história que não tenha sido precedido pelo que ele chama de mecanismo da linguagem desumanizadora. Do Holocausto nazista ao genocídio de Ruanda, em 1994, a retórica do ódio consiste em tornar o outro um inimigo a ser eliminado.
A eugenia nazista, por exemplo, criou uma linguagem “científica” para justificar o extermínio. Em Ruanda, a propaganda de ódio via rádio preparou o terreno para o massacre de tutsis, chamados de “baratas” pelos extremistas hutus.
“Higiene” ou “limpeza” são palavras comuns no discurso de líderes autoritários. Essa linguagem demoniza e desumaniza as vítimas, transformadas em “sujeira” que precisa ser removida.
A consequência é a normalização da violência, que passa a ser compreendida como necessária e até benéfica.
Na psicologia das massas, é o que prepara psicologicamente a população para aceitar o inaceitável.
Foi exatamente isso o que fez Donald Trump ao anunciar um ultimato ao Irã, que se negou a aceitar um cessar-fogo de 45 dias, intermediado pelo Paquistão. A nação persa diz que só aceita o fim imediato da guerra – ou seja, a rendição dos agressores.
O chefe da Casa Branca dobrou a aposta, não sem antes escalar a retórica. Assim como faziam os nazistas ao retratar judeus como ratos, ele ameaçou mandar o Irã para a Idade da Pedra, idade à qual pertencem os iranianos, nas palavras de Trump.
O republicano disse ainda que não haveria problemas em destruir a infraestrutura civil dos inimigos, como ameaça fazer, e deixá-los sem acesso a direitos básicos como energia elétrica e transporte. “São animais”, justificou.
Castro Rocha, em sua página nas redes sociais, lembrou que, ao menos do ponto de vista da retórica, nem os nazistas foram tão longe quanto Trump. Animalizar o outro, afinal, é torná-lo um nada. E tudo o que se faça contra o nada, nada será. Logo, ninguém precisa ser responsabilizado por não ter feito “nada”.
Sem meias palavras, Trump ameaça aniquilar uma “civilização inteira”. Os líderes atuais dessa civilização afirma que pode promover uma destruição global se os Estados Unidos derem esse passo.
Quem pensa que não tem nada com a briga acompanha a troca de ameaças em justa apreensão. Não é todo dia que se vai dormir sem saber se existirá Planeta na manhã seguinte.
*Este texto não reflete necessariamente a opinião do Portal iG
