
A tal janela partidária reserva surpresas inimagináveis. Talvez sejam explicáveis dentro de uma concepção de espaços. Até aí, está tudo nos conformes. O MDB perdeu duas das mais expressivas lideranças que estavam no partido por 50 anos e um pouco mais. Centenário em soma dos anos dos dois no MDB. O bastão que Marcelo Barbieri e Hermes Parcianello empunhavam adormeceu. Foram buscar em outras siglas o discurso que sempre os acompanhou. Na verdade, oxigênio do espaço político.
Marcelo Barbieri é uma das maiores e mais importantes vozes da redemocratização do Brasil. Seu livro de memórias é um Aurélio sobre o que viveu nesse tempo todo. Líder na UNE, voz das ruas empunhando a bandeira do partido ao lado de Ulysses Guimarães, Orestes Quércia, Franco Montoro e Michel Temer. Seus discursos ecoavam pelo Congresso Nacional nos seus quatro mandatos de deputado federal por SP. Foi presidente nacional do MDB. Ocupou importantes cargos no Palácio do Planalto e em SP. Jamais esmoreceu. No comício das Diretas Já, na Praça da Sé, ofuscou muitos com sua liderança.
Sua saída do partido faz a luz da sala piscar. São 50 anos pela democracia, suor e lágrimas. É um estandarte da vida democrática nacional. Buscou no PDT um refúgio para sua voz democrática. Araraquara é seu nascedouro. Foi prefeito brilhante por duas vezes. Onde há uma janela para gritar em defesa da democracia, Marcelo Barbieri lá está.
O mesmo acontece com Hermes Parcianello, no seu Paraná. Político destemido, aguerrido e municipalista raiz, fez da sua trajetória no MDB, em seus sete mandatos como deputado federal, uma luz no caminho rumo à vida democrática. Guerreiro com ares de humildade e simplicidade, ergueu o MDB com muita honradez. Foi companheiro de Ulysses Guimarães nas mais virulentas batalhas políticas vividas pelo partido no Congresso Nacional e nas ruas pelo Brasil.
Sua voz foi ecoada pelo Paraná e ouvida por muito longe. Um bravo na luta democrática. O espaço político não lhe fez sobra no partido. Espinhosa e dura decisão de deixar seu MDB de convivência por mais de 50 anos.
O partido recebeu importantes adesões nesses últimos dias. São nomes emblemáticos para a disputa eleitoral deste ano. Agora, a luz piscou na sala. A ideologia carregada no coração e na alma por décadas não terá mais importância?
Michel Temer e José Sarney estão no cotidiano da vida nacional pela construção de suas biografias. Possuem passos próprios. Vez ou outra, é bom ouvir o que ambos têm a aconselhar. O partido precisa estar no jogo. Uma candidatura demonstraria grandeza e compromisso com sua história. Pensar no futuro dá musculatura para qualquer partido político.
Ulysses, Quércia, Montoro, Temer, Sarney e tantos outros líderes vestiam a camisa do MDB, velha de guerra, tal qual Barbieri e Parcianello, sentados na sala. A luz não piscava enquanto estiveram lá.
