Comerciantes e moradores do Centro de Campinas narram insegurança e cenário de abandono: ‘A gente anda com medo’


‘Abandono’: moradores do Centro de Campinas reclamam de falta de segurança e investimento
Proprietário de uma banca no Centro de Campinas (SP), José Aparecido Felipe relembra, com saudade, os tempos em que a região era movimentada e contava com opções de lazer: “Sou do tempo do bonde nessa Campinas. Dava gosto de andar na Tomás Alves, na 13 de Maio. Tinha cinema, diversão. Quem conheceu essa Campinas nunca vai esquecer.”
Hoje, José afirma que tem a rotina marcada por insegurança. Entre os livros, revistas e doces que vende, ele guarda também os boletins de ocorrência que registram assaltos sofridos em apenas um ano no estabelecimento.
“Abrindo a banca, encostaram o carro aqui, eu achei que ia tomar café no restaurante. Aí já desceram, puseram a arma na minha cabeça, levaram meus documentos, levaram tudo. Tinha que colocar grade, cercar o poço, que não tinha energia. É tristeza”, desabafa.
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José Aparecido Felipe, dono de uma banca guarda boletins de ocorrência que registram os assaltos sofridos em apenas um ano.
Reprodução EPTV
O comerciante Douglas Alexandre, que também trabalha na região central, afirma que, com o cenário de insegurança e abandono, lojas estão fechando as portas e os imóveis são colocados para venda ou aluguel. “Em 2018 e 2019, antes da pandemia, estava tudo muito bem. Muito movimento, tudo organizado. Da pandemia para cá, só decadência”, relata.
“As pessoas não vêm para o Centro mais, têm medo. Ficam com medo de assalto, morador de rua demais. E muito, muito comércio fechado aqui. Imposto vem e não é pouco, é muito caro. O imposto aqui é mais caro que o aluguel”, diz o comerciante.
Sensação de perigo
Centro de Campinas à noite
Reprodução EPTV
Adinoelma dos Santos, consultora óptica, conta que foi assaltada quando saía do trabalho e teve o celular levado. Em outra ocasião, ela quase perdeu a aliança em uma tentativa de roubo.
“Quando eu vou embora, eu já tiro a aliança e muitas das vezes guardo o celular. Tudo que ‘tiver’ à vista deles, eles vão tentar de qualquer forma, tentar pegar, tentar até nos agredir para tentar pegar esses objetos. A gente tem até medo de ser abusada, né?”, diz.
Moradora que vive em frente ao Largo do Pará há 19 anos, Patrícia Ribeiro conta que gostava de frequentar a praça quando a filha nasceu, em 2013. Em 2026, o cenário é outro.
“Hoje, depois da pandemia, infelizmente as coisas mudaram. Agora a gente anda com medo, já não vamos mais tão ao Centro como íamos, preferimos ir ao shopping por uma questão de segurança maior. Ela está com 12 anos, a gente não deixa ela andar sozinha na rua”, comenta.
Segundo Patrícia, a sensação de medo aumenta no período da noite. Para a gerente de loja Beatriz Funari, com a queda no movimento há maior insegurança e isso afeta também a rotina de comerciantes.
“Antigamente nós ficávamos das 8h até às 19h. Depois da pandemia, muita loja fechou, então o movimento caiu. E, consequentemente, tem mais pessoas em situação de rua, caminhando, transitando, o que tornou a segurança um pouquinho precária”, afirma a gerente.
Além da insegurança, a infraestrutura também é um problema para os comerciantes. Beatriz gravou um vídeo para denunciar buracos nas ruas da região central, onde uma idosa chegou a cair. A gerente também conta que foi preciso mudar a fachada da loja para evitar pichações.
“Antes a loja era inteira branca, né? Mudamos o conceito para trazer uma arte que ficasse menos feia, vamos falar assim, para evitar as pichações que acontecem com muita frequência”, diz.
Vulnerabilidade
Pessoas em situação de vulnerabilidade no centro de Campinas
Reprodução EPTV
Equipes da EPTV, afiliada TV Globo, percorreram o Centro em diferentes períodos e registraram ruas com lixo espalhado, calçadas quebradas, prédios pichados e fios embolados. Na região, pessoas em situação de rua também são vistas revirando, principalmente à noite.
Segundo dados da Prefeitura de Campinas, em 2024 havia 1.557 pessoas em situação de rua no Centro da metrópole.
Diante da insegurança, Antônio José de Santana Jr. foi contratado como segurança de lojas próximas ao camelódromo durante a madrugada.
“Aqui na esquina de baixo tem um apoio, na esquina de cima tem outro. Nós temos vários apoios em cada setor, né? Então, se de repente precisar de uma coisa a mais que saia fora do normal, eu chamo no rádio, o pessoal desce”, explica.
Durante a gravação para a reportagem da EPTV, duas mulheres procuraram a equipe da Polícia Militar que estava próxima à Catedral para realizar denúncias.
“A primeira foi no serviço, estava realizando atendimento, trabalha como atendente e pedindo para ele se retirar da loja, ele atingiu com um soco. A segunda foi com uma pedra, ele pegou uma pedra e desferiu no rosto. Elas afirmaram que ele já vem perseguindo há algum tempo, ameaça de morte, pedindo dinheiro e hoje chegou na agressão física em ambas”, diz o Tenente Joab Fernandes de Brito.
O que diz a prefeitura?
Centro de Campinas
Reprodução EPTV
Questionado pela reportagem, o prefeito Dário Saadi disse que houve ampliação do trabalho de limpeza no Centro e é feita uma análise diária da iluminação em alguns pontos. Disse também que, em caso de furto de fios, a reposição é feita imediatamente.
“A Prefeitura tem feito diversas ações. Segundo os dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, os indicadores de violência urbana no centro diminuíram em comparação com os indicadores anteriores. Inclusive, teve várias matérias dizendo que diminuiu no centro e aumentou em outras regiões”, afirmou.
Ainda segundo o prefeito, há presença constante da Guarda Municipal na região e a Polícia Militar tem atuado de forma firme, dentro de uma série de ações voltadas para melhorar as condições da região central.
No primeiro trimestre deste ano, os agentes da Guarda atenderam 2.452 ocorrências e realizaram 53 prisões. O prefeito ressaltou que a responsabilidade pela segurança é compartilhada também com a Polícia Militar.
Sobre a limpeza, Saadi afirmou que ela ocorre diariamente, em três turnos. O trabalho inclui recolhimento do lixo nos containers, varrição de ruas e praças, e lavagem dos espaços públicos seis vezes por semana.
Em nota, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) informou que a atuação na região central é contínua, com policiamento ostensivo, e que já foram realizadas mais de 1.500 abordagens neste ano. Em 2025, 285 pessoas em situação de rua retornaram para suas cidades de origem.
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