Câmera corporal de PM mostra minuto a minuto como foi a abordagem que terminou na morte de mulher em SP


Exclusivo: imagens das câmeras corporais de PM mostram ação que acabou com morte de mulher
A câmera corporal de um policial militar registrou minuto a minuto como foi a abordagem que terminou com a morte de Thawanna da Silva Salmázio, na última sexta-feira (3), na Cidade Tiradentes, na Zona Leste de São Paulo.
A mulher foi baleada no peito por uma policial após uma discussão e demorou 30 minutos para ser socorrida por uma ambulância. Ela não resistiu e morreu no hospital. A TV Globo teve acesso às imagens que mostram o início da ocorrência às 2h58 e o fim dela às 3h43. (Veja os detalhes abaixo.)
A gravação mostra o momento em que o retrovisor da viatura da PM bate em Luciano Gonçalves dos Santos, marido de Thawanna que caminhava ao lado dela pela Rua Edimundo Audran.
Como a calçada é estreita, com menos de um metro de largura, é comum os moradores usarem a via para se deslocar. Os agentes tinham ido ao local porque acompanhavam uma moto com suspeitos, que acabaram perdendo de vista.
Vídeo de câmera corporal mostra que mulher morta por PM na Zona Leste de SP não encostou em retrovisor e nem iniciou briga
Reprodução
O soldado Weden Silva, que dirigia o carro da PM e filmou toda a ação com a bodycam, freia e dá marcha a ré. Depois, ele grita e ofende o casal: “A rua é lugar pra você tá andando, caralho?”. Thawanna rebate: “Com todo respeito, vocês que bateram em nós”, diz a mulher.
A soldado Yasmin Cursino Ferreira, que estava no banco do carona da viatura, sai do veículo e parte na direção de Thawanna, que diz: “Você não aponta o dedo em mim não”. Em seguida, é possível ouvir o barulho de um tiro nas imagens da câmera corporal.
A bodycam de Weden não mostra Thawanna nem Yasmin quando ocorre o disparo na frente da viatura. Nesse momento, o soldado estava atrás do carro da PM discutindo com Luciano.
Quando corre até Yasmin, Weden pergunta: “Cê atirou nela?”. Yasmin responde, querendo justificar o disparo que fez na pedestre: “Ela deu um tapa na minha cara”.
As imagens da câmera corporal do soldado ainda mostram a demora na chegada do socorro a Thawanna. Yasmin não estava com a câmera corporal porque era novata e ainda não havia recebido senha para operar o equipamento.
A equipe de reportagem não conseguiu localizar as defesas dos dois PMs, que foram afastados, para comentar o assunto.
Cronologia do caso pela body cam de PM
Veja abaixo os principais pontos da sequência a partir do ponto de vista da câmera corporal do soldado:
2h58 – Viatura da PM com o soldado Weden Silva Soares, que dirige o veículo e usa câmera corporal, e Yasmin Cursino Ferreira, no banco do passageiro, entra na Rua Edmundo Aldran, na Cidade Tiradentes. O retrovisor do carro atinge o braço de Luciano Gonçalves dos Santos, que caminhava ao lado de Thawanna. Weden para, dá ré e xinga: “A rua é lugar pra você tá andando, caralho?”. Em seguida, há uma discussão. “Com todo respeito, vocês que bateram em nós”, diz a mulher. Yasmin desce da viatura. Durante a discussão, Thawanna afirma: “Você não aponta o dedo em mim, não”.
Luciano discute com soldado Weden atrás da viatura da PM
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2h59 – Weden também desce e vai para a parte de trás da viatura discutir com Luciano. Seis segundos depois, é possível ouvir o disparo na parte da frente do veículo. Ao se aproximar, o policial pergunta: “Atirou? Cê atirou nela?”. Yasmin responde: “Ela deu um tapa na minha cara”. Luciano retruca: “Bateu, não!”. Weden manda o homem se afastar e pega o celular para pedir uma ambulância.
PM Yasmin alega ter atirado em mulher porque ela bateu na sua cara
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3h – Outra viatura da PM chega. Weden informa: “A menina tá baleada. Fox atirou”. Fox é uma gíria usada por policiais para se referir a uma agente feminina.

3h03 – Sem a chegada do resgate, Weden inicia os primeiros socorros: “Peraí, já tá vindo o resgate, tá?”.

3h05 – Thawanna reclama: “Ai, tá doendo”. Weden responde: “Não faz força. Fica de boa. Já vai, já vai chegar o resgate”. Em seguida, ao ser questionado por Yasmin sobre o atendimento, ele diz: “Tá vindo já”.
PMs chegam para dar apoio e entender o que soldados fizeram
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3h07 – Outros policiais chegam e perguntam o que aconteceu. Weden relata: “A gente tava passando aqui e o retrovisor acabou pegando no cara lá, e eles vieram pra cima da viatura. Aí a Fox desembarcou. Quando desembarcou foi pra cima dela, deu um tapa na cara dela, e tava continuando indo pra cima dela, e ela atirou nela.”

3h11 – Yasmin fala algo inaudível, e o colega responde: “Relaxa, agora já foi já”.

3h16 – Weden cobra a chegada do resgate ao perceber piora no estado da vítima: “Tá ficando branco já… cadê o resgate? Copom, reitera o resgate para Edimundo Audran”.

3h24 – Weden volta a explicar pela sexta vez a ocorrência para outros policiais: “Eu tava tentando afastar o cara, ela desceu, a mulher já foi pra o lado dela, começou o embate lá, ela deu o tapa nela… Aí quando eu vi, eu ouvi o disparo… achei até que tinha atirado no chão, mas se ela tava indo pra cima dela… tá certa.”

3h26 – “Seria interessante achar uma câmera que mostra ela te dando tapa na cara”, diz Weden a Yasmin.

3h27 – Em nova fala, o soldado diz à colega: “Não era pra ter atirado não, mas… ter atirado porque ela vim pra cima de você, te bater, pegar sua arma. Porque se ela vai pra cima de você, começa a te bater, o cara ia me segurar.”
Ambulância chega para socorrer Thawanna mais de 30 minutos após ela ser baleada pela PM
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3h30 – A ambulância do Corpo de Bombeiros chega ao local. Thawanna estava havia mais de 30 minutos aguardando socorro.

3h35 – A vítima é colocada na maca dentro da ambulância. As imagens não mostram, mas depois ela foi levada a um hospital, onde não resistiu e morreu.

3h37 – Um policial que se apresenta como PPJ chega e recolhe a arma de Yasmin. PPJ é a sigla que a PM usa para se referir a um policial militar de plantão que atua para a Justiça Militar. “A sua arma, pode deixar na minha viatura”, diz o agente. “Porque quando o delegado perguntar, o PPJ, o oficial PPJ já recolheu… já apreendeu, tá?”

3h43 – Os dois policiais envolvidos na ocorrência que terminou na morte da mulher deixam o local em outra viatura da PM.
Yasmin entrega a outro PM arma que usou para atirar em mulher
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PMs afastados
Os soldados Weden e Yasmin foram afastados preventivamente pela Polícia Militar, que apura a conduta dos dois. A arma da soldado foi apreendida. O caso também é investigado pelo Departamento Estadual de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), da Polícia Civil.
A Corregedoria da PM e o DHPP ouvirão os depoimentos dos agentes, das testemunhas e analisarão as imagens da bodycam, que também passarão por perícia.
A Secretaria da Segurança Pública (SSP) ainda não informou qual é a natureza da ocorrência que está sendo investigada no caso.
O boletim de ocorrência foi registrado inicialmente pelos PMs como resistência e comunicação de óbito no 49 DP São Mateus
Thawanna tinha 31 anos e deixa uma filha de 5 anos. Após a morte dela, moradores protestaram no bairro pedindo justiça e punição aos PMs envolvidos.
Yasmin atirou no peito de Thawanna após discussão por causa de batida em retrovisor de viatura da PM
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