Há 500 anos atrás, uma metrópole ergueu arranha-céus de barro de 30 metros no deserto como muralha contra invasões e eles ainda estão de pé

No vale do Wadi Hadhramaut, na porção leste do Iêmen, um agrupamento de torres feitas de terra crua secada ao sol se ergue do meio do deserto como se fosse uma ilusão de cidade contemporânea. Shibam concentra por volta de 500 construções que vão de 5 a 11 pavimentos, todas erguidas com blocos de barro não cozido, e é tida como a urbe mais antiga do planeta a empregar o conceito de ocupação vertical do espaço.

Uma muralha erguida na vertical contra invasões no meio da aridez

Shibam não se desenvolveu para o alto por mero acaso. O povoado surgiu em torno do século III e virou sede do Reino de Hadhramaut no ano 300 da era cristã, logo após o aniquilamento da capital anterior, Shabwa. Por estar situada num corredor valioso de especiarias e incenso, a prosperidade de seus habitantes chamava a atenção de tribos nômades que promoviam ataques constantes. A resposta encontrada foi levantar torres geminadas dentro de um cinturão de defesa retangular medindo 330 metros por 240 metros, suprimindo assim os ângulos frágeis.

Os pisos ao rés do chão são desprovidos de aberturas. Eram usados para recolher os animais e armazenar mantimentos nos períodos de cerco. Passagens suspensas interligam os prédios contíguos, possibilitando o deslocamento veloz entre as torres sem a necessidade de pisar nas vielas. De acordo com a UNESCO, essa espécie de concorrência entre clãs rivais por status e segurança foi o que esculpiu o traçado urbano compacto que se observa ainda nos dias atuais.

Shibam oferece a engenharia milenar de tijolos de terra crua em uma das metrópoles mais antigas do mundo // Créditos: Wikipedia / Wikimedia Commons

Blocos de terra, fibra vegetal e luz solar que dão sustento a 11 andares

As edificações de Shibam são levantadas com uma massa que combina solo, palha e água, modelada no feitio de tijolos e deixada para endurecer ao relento por vários dias. Os muros da fundação podem atingir 1,2 metro de largura e vão se estreitando à medida que ganham elevação, gerando um perfil em forma de trapézio que reparte melhor a carga. Traves de madeira dão reforço ao esqueleto interno. Algumas das construções mais elevadas passam dos 30 metros, característica que fez da cidade uma precursora no tipo de edificação que atualmente rotulamos como arranha-céu.

O modo de edificar está atrelado ao cultivo do vale. Depois da safra, o solo rico das margens do curso d’água temporário é juntado para produzir novos blocos ou para repor camadas de argamassa nas partes externas das torres. Essa conservação rotineira é o segredo que mantém as torres de pé ao longo das eras. Sem esse cuidado, o sopro do vento, a água da chuva e o calor intenso decompõem as fachadas em reduzido espaço de tempo.

Quem se fascina por arquitetura antiga, vai curtir esse vídeo do canal Unique World, que conta com mais de 132 mil visualizações, onde é mostrada a cidade de Shibam, no Iêmen, com seus arranha-céus de lama:

O povoado do século XVI que mais se assemelhava a uma paisagem de Manhattan

Ainda que Shibam tenha uma existência de aproximadamente 1.700 anos, a fatia mais expressiva das estruturas que se enxerga hoje é do ano de 1533, momento em que uma inundação de grandes proporções arruinou a cidade precedente e forçou uma reedificação praticamente integral. Ainda assim, restam pedaços de tempos mais remotos: uma mesquita datada de 904 e uma fortaleza de 1220. Na década de 1930, a viajante inglesa Freya Stark esteve na área e batizou Shibam de “a Manhattan do deserto”, analogia que desde então ficou grudada à imagem da cidade.

No ano de 1982, a UNESCO declarou a Cidade Murada de Shibam como Patrimônio Mundial com base em três justificativas: testemunho singular da rivalidade entre famílias oponentes, exemplar extraordinário de traçado urbano vertical e indício de um agrupamento humano habituado a uma existência frágil num cenário de cheias recorrentes.

Shibam integra a arquitetura de barro à funcionalidade urbana, preservando um horizonte moderno em pleno vale histórico // Créditos: Wikipedia / Wikimedia Commons

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Inundações, conflitos armados e o esforço para não se tornar escombro

A mesma água que nutre os campos cultivados do vale carrega consigo o risco de fazer ruir Shibam. Em outubro de 2008, uma tormenta de origem tropical desencadeou alagamentos que abalaram os alicerces e vieram abaixo prédios de valor histórico. Conforme registros da UNESCO, o volume das águas alcançou a base das torres e apressou o desgaste dos blocos de terra crua. Um plano de recuperação bancado pela União Europeia foi colocado em prática, valendo-se do trabalho de jovens da região na reedificação com métodos artesanais.

Em 2015, o conflito armado no Iêmen fez com que a UNESCO inserisse Shibam na relação de Patrimônio em Perigo. Apesar de a cidade não ter sido alvo direto de ataques aéreos, a guerra estancou as ações de salvaguarda, afastou a mão de obra especializada e expôs ainda mais as construções aos danos. O órgão GOPHCY, incumbido de zelar pelos núcleos históricos do Iêmen, havia conseguido catalogar 98% das residências de estilo vernáculo e recuperar acima de 60% delas antes que os combates paralisassem a maior parte das intervenções.

Trinta metros de terra batida que até hoje dão lições à arquitetura atual

O que causa espanto em Shibam não se resume à sua idade, mas à sua racionalidade. Torres sem aberturas no piso de baixo atuam como barreira térmica espontânea, assegurando uma oscilação de até 15°C na comparação entre a temperatura externa e a interna. A silhueta trapezoidal alivia a sobrecarga nos andares inferiores. O desenho urbano apertado projeta sombras recíprocas entre as construções, atenuando o contato direto com a luz do sol nas paredes externas. Bureaus de arquitetura da atualidade, a exemplo daqueles que conceberam a urbe de Masdar em Abu Dhabi, admitem Shibam como um modelo de configuração espacial para o urbanismo praticado no Oriente Médio.

Algo em torno de 7 mil pessoas ainda residem no interior do perímetro murado. Elas repõem a argamassa de terra nos paramentos, vencem lances de escada sem auxílio de máquinas e enfrentam a mesma penúria de água do deserto. O conjunto da cidade se comporta como um ente vivo cuja sobrevivência está atrelada à colheita agrícola e aos reparos ininterruptos para não ruir.

Shibam destaca-se como a “Manhattan do Deserto”, uma miragem de torres de barro seco ao sol no leste do Iêmen // Créditos: Wikipedia / Wikimedia Commons

A Manhattan que a aridez ainda resguarda

Shibam constitui a demonstração de que o crescimento para cima, o traçado pensado da urbe e o cálculo das estruturas não tiveram início com o uso do aço. Bem antes de Chicago ou Nova York amontoarem pavimentos, famílias iemenitas já subiam lances de até 11 andares de terra socada para repousar a salvo de salteadores. A cidade persiste há praticamente dois mil anos diante de torrentes, abalos políticos e da própria passagem dos séculos.

Se um dia for factível percorrer o Wadi Hadhramaut em condições de segurança, compensa testemunhar de perto a urbe de terra que deu origem ao conceito de arranha-céu.

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