Poucos negócios no mercado de cruzeiros foram tão improváveis quanto este. O Disney Adventure, hoje o maior navio já operado pela Disney Cruise Line, ficou parado por meses em um estaleiro alemão, abandonado após uma falência bilionária, antes de ser adquirido por uma fração do seu custo real e transformado em uma das experiências náuticas mais sofisticadas do mundo.
Como o navio foi parar abandonado em um estaleiro alemão?
A história começa em 2018, quando a Dream Cruises, subsidiária do grupo asiático Genting Hong Kong, encomendou o que seria um dos maiores cruzeiros já construídos. O projeto foi batizado de Global Dream e construído pelo estaleiro MV Werften, em Wismar, na Alemanha. Com 208 mil toneladas brutas e capacidade original para até 9 mil passageiros, o navio era ambicioso por qualquer métrica.
A pandemia de Covid-19 destruiu os planos. A MV Werften entrou em falência em janeiro de 2022, seguida pela própria Genting Hong Kong, que pediu proteção a credores dias depois. O navio, com custo estimado de 1,5 bilhão de euros e ainda precisando de cerca de 600 milhões de euros para ser concluído, ficou parado no hangar à espera de um comprador.

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Por quanto a Disney adquiriu o casco inacabado?
Em novembro de 2022, a Disney Cruise Line confirmou a aquisição do casco inacabado por cerca de 40 milhões de euros, um valor considerado irrisório diante do que já havia sido investido na construção.
O acordo incluía a exigência de concluir o navio no próprio estaleiro de Wismar, mantendo os trabalhadores empregados, sob supervisão do estaleiro Meyer Werft, o mesmo responsável pelo Disney Dream, o Disney Fantasy, o Disney Wish e o Disney Treasure.

Quanto custou a transformação do Global Dream em Disney Adventure?
A renovação foi comandada pela Walt Disney Imagineering e custou, ao final, US$ 1,8 bilhão, valor que quase dobrou a estimativa inicial de US$ 1 bilhão, segundo o The Wall Street Journal. A capacidade foi reduzida de 9 mil originais para 6 mil passageiros, acompanhados de 2.300 tripulantes.
Para entender a escala da transformação, o canal oficial da Walt Disney Imagineering, com mais de 616 mil inscritos, publicou um vídeo com mais de 383 mil visualizações mostrando os bastidores do projeto, incluindo os desafios de engenharia e as inovações tecnológicas implementadas no navio:
Um dos desafios mais reveladores mostrados no vídeo foi a construção do Disney Imagination Garden, o coração do navio, projetado como um castelo em formato de livro de histórias que exigiu a remoção de 70 toneladas de aço para manter o orçamento de peso da embarcação.
O que o Disney Adventure tem de diferente dos outros navios da frota?
O Disney Adventure foi o primeiro navio da Disney Cruise Line projetado especificamente para o mercado asiático, com atrações temáticas envolvendo personagens da Disney, Pixar, Star Wars e Marvel. Entre as inovações tecnológicas, destaca-se um palco com tela LED transparente de 5,5 milhões de pixels, que permite ocultar arranjos de alto-falantes diretamente atrás da imagem para um som mais imersivo.
Outras novidades incluem:
- Sistema de acrobacias aéreas em 3D, implementado pela primeira vez pela Disney, que integra a plateia nas varandas dos camarotes.
- Restaurante Animator’s Palate com 1,96 bilhão de pixels, que transforma desenhos dos hóspedes em personagens animados nas telas ao redor do ambiente.
- Espetáculo Lion King: Celebration in the Sky, o maior show de fogos já realizado pela Disney no mar, com cerca de 650 peças pirotécnicas.
- Propulsão movida a metanol verde, tornando-o um dos primeiros cruzeiros de grande porte a usar esse combustível de baixa emissão.
O Disney Adventure estreou em 10 de março de 2026 e opera exclusivamente a partir de Singapura. Com 208 mil toneladas brutas, tornou-se o maior navio já operado pela Disney e um dos onze maiores cruzeiros do mundo, superando em tamanho o anterior recordista da frota, o Disney Wish, que tem 144 mil toneladas brutas.

O que a trajetória desse navio revela sobre o mercado de cruzeiros?
A história do Disney Adventure é um retrato da volatilidade do setor náutico após a pandemia. Um projeto que começou com ambições bilionárias, foi à falência, ficou parado por meses e quase foi desmontado para venda de peças acabou se tornando o maior e mais tecnologicamente avançado navio de uma das marcas de entretenimento mais valiosas do mundo.
O que torna essa trajetória ainda mais notável é o contraste entre o preço de compra e o investimento final: 40 milhões de euros pelo casco e US$ 1,8 bilhão na transformação. A Disney não comprou um navio. Comprou uma oportunidade e construiu, a partir de uma estrutura abandonada, uma experiência que não existia antes.
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