As baleias passam a vida inteira mergulhando fundo para se alimentar e subindo para defecar na superfície. Por milênios, esse ciclo aparentemente simples sustentou a produtividade de oceanos inteiros, e um novo estudo da Universidade de Washington finalmente explica por quê: as fezes dessas gigantes carregam ferro em concentrações dez milhões de vezes maiores do que a água do oceano ao redor.
O que os pesquisadores mediram pela primeira vez nas fezes desses cetáceos?
A pesquisa foi conduzida pelo doutorando Patrick Monreal e pela pesquisadora Randelle Bundy, do Departamento de Oceanografia da Universidade de Washington. Foi o primeiro estudo a medir diretamente as formas químicas dos metais traço presentes nas fezes de baleias misticetas (nadadeiras), e não apenas suas concentrações totais.
Foram analisadas cinco amostras fecais de duas espécies: duas de baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae) coletadas no Oceano Antártico e três de baleias-azuis (Balaenoptera musculus) obtidas ao largo da costa central da Califórnia. As amostras foram coletadas oportunisticamente por pesquisadores que avistaram animais defecando durante expedições de estudo de cetáceos.

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Ferro dez milhões de vezes mais concentrado do que a água do oceano
Os resultados confirmaram a presença de ferro dissolvido em todas as cinco amostras, em concentrações muito superiores às da água oceânica circundante. Segundo a Universidade de Washington, as fezes de baleias misticetas contêm em média 145,9 mg de ferro por quilograma, aproximadamente dez milhões de vezes a concentração de ferro da água do Mar do Sul.
A novidade do estudo está na identificação das formas químicas desse ferro e do cobre presentes nas amostras. Os resultados das duas espécies analisadas mostram diferenças relevantes:
| Nutriente | O que foi encontrado | Importância |
|---|---|---|
| Ferro | Ligantes orgânicos que mantêm o ferro biodisponível e estável na coluna d’água | Acessível ao fitoplâncton mesmo após diluição no oceano |
| Cobre | 47 tipos diferentes de metalóforos de alta afinidade | Transforma substância potencialmente tóxica em nutriente biodisponível |

Como funciona a “bomba baleia” que fertiliza os oceanos?
O conceito de “whale pump” (bomba baleia), descrito originalmente em um estudo de 2010, descreve o ciclo pelo qual as baleias funcionam como bombas naturais de nutrientes. O processo segue uma sequência clara:
- As baleias mergulham em profundidade para se alimentar de krill e outras presas ricas em ferro e cobre.
- Sobem à superfície para descansar e digerir, defecando na zona fótica, a camada iluminada onde o fitoplâncton vive.
- As fezes liberam ferro biodisponível com ligantes orgânicos que mantêm o nutriente estável e acessível às algas.
- O fitoplâncton se multiplica, absorve CO₂ atmosférico e sustenta toda a cadeia alimentar marinha a partir da base.
- Ao falecer, o fitoplâncton afunda e transporta o carbono absorvido para o fundo oceânico, alimentando a bomba biológica de carbono.
No Oceano Antártico, o ferro é o nutriente mais limitante para o crescimento do fitoplâncton: vastas extensões de água possuem nitrogênio e fosfato em abundância, mas crescimento praticamente nulo de algas por falta de ferro. É exatamente esse gargalo que as fezes das baleias resolviam naturalmente.
O canal BBC Earth, com mais de 14,4 milhões de inscritos, publicou um vídeo que ilustra visualmente como esse mecanismo funciona nos oceanos. O conteúdo, com mais de 177.223 visualizações, mostra o papel das baleias como “jardineiras do oceano”:
O que aconteceu quando a caça comercial eliminou as baleias dos oceanos?
A caça comercial ao longo dos séculos XIX e XX eliminou mais de dois milhões de grandes cetáceos apenas no Oceano Antártico, reduzindo o mecanismo de fertilização em mais de 90%. O paradoxo registrado pelos pesquisadores é revelador: após o colapso das populações de baleias, a biomassa de krill, presa principal das baleias misticetas, caiu mais de 80% nas antigas zonas de caça.
Ao contrário do que seria esperado com menos predadores, o krill diminuiu junto. Segundo o estudo publicado na Nature, a hipótese sustentada é que a perda das fezes das baleias empobreceu o fitoplâncton, colapsando toda a cadeia alimentar a partir da base.
Qual é o impacto das baleias no ciclo do carbono e no clima?
O fitoplâncton fertilizado pelo ferro das fezes das baleias absorve CO₂ atmosférico e, ao perecer, afunda, transportando carbono para o fundo oceânico em um processo denominado “bomba biológica de carbono”. Um estudo publicado no Proceedings of the Royal Society B estimou que as baleias-cachalote do Oceano Antártico, sozinhas, estimulam a exportação de 400.000 toneladas de carbono por ano para as profundezas oceânicas.
A recuperação das populações de grandes baleias não é apenas uma questão de conservação, pode ser uma ferramenta de sequestro de carbono com escala climática relevante. O estudo de 2025 fornece pela primeira vez a evidência química direta de que o mecanismo de biodisponibilidade do ferro é real e eficaz.

O fertilizante natural que os oceanos perderam e precisam recuperar
O que o estudo da Universidade de Washington revela vai além da biologia: mostra que os oceanos tinham um sistema de fertilização natural altamente sofisticado, sustentado por baleias que funcionavam como bombas de nutrientes vivas. Segundo o Sci.News, esse mecanismo foi silenciosamente desativado pela caça comercial antes mesmo de ser completamente compreendido.
Proteger e recuperar as populações de baleias é, portanto, uma das intervenções mais simples e naturais disponíveis para restaurar a produtividade dos oceanos e ampliar sua capacidade de absorver carbono. A maior ferramenta de geoengenharia do planeta sempre existiu. Ela só precisava ser deixada em paz.
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