
É domingo, dia útil em Israel. Saio de casa cedo e vejo cenas incríveis: crianças com mochilas nas costas indo para a escola, adultos passeando seus cães despreocupadamente, a rua lotada de caminhões de entrega. O trânsito está intenso e, como sempre, os motoristas estão agitados.
Minha impressão é de que despertei de um sonho ruim. Preciso de alguns minutos para assimilar essas cenas de normalidade. Algum lugar dentro de mim ainda espera que soe um alarme antiaéreo em um momento inapropriado — como nos últimos 40 e poucos dias, em que ele me pegou duas vezes no banho, uma em um passeio com o cachorro, três em aulas por Zoom (a mesma aula!), duas em uma sinagoga, uma durante um café da manhã em Tel Aviv, três durante aulas de yoga, e algumas dezenas enquanto eu dormia, assistia ao noticiário ou trabalhava no computador.
Há três dias reina uma audível falta de sirenes. Sabe quando você está acostumado a dormir com alguém ao lado e essa pessoa sai de viagem? A mão apalpando o lado vazio da cama — algo assim. Mais uma mudança brusca e repentina, como boa parte do que acontece por aqui.
A guerra dentro da guerra
Lá se foram mais de 900 dias de guerra — ou de um conjunto de guerras, ou de uma guerra dentro de outra guerra. Foram sete frentes. Ou melhor: estão sendo sete frentes. Nas últimas semanas, Israel lutava em duas delas (Líbano e Irã). A partir da semana que vem, Gaza volta à cena com hora marcada, enquanto as outras frentes estarão — ou não — ainda em suspenso. Como se estivessem nos espreitando.
Nós, israelenses comuns, acompanhamos a tudo estupefatos. A velocidade dos eventos exige uma musculatura cerebral que nem todos têm. Alguns já desistiram de acompanhar. Outros assimilaram essa loucura e navegam por ela. Há quem veja a luz no fim do túnel. Há quem não a veja. Eu vejo — mas acredito que tenha perdido a noção do tempo. A luz sempre me parece próxima: talvez não seja a do fim do túnel, mas a do meu otimismo piscando.
Por incrível que pareça, estou ficando cada vez mais otimista ao longo desses anos de guerra. Ou maluca — o que é também uma opção. Mas ser maluca em meio à loucura é uma vantagem, não?
Dia da Lembrança do Holocausto
Amanhã à noite, segunda-feira, começa o Yom Hashoá (como chamamos por aqui), data em que Israel lembra o Holocausto. O Museu do Holocausto de Jerusalém, um dos mais importantes do país, promove um grande evento em memória dos mortos. Para um público pequeno e seleto e, portanto, nós mortais assistimos pela TV. Há discursos dos líderes do Estado; são exibidos vídeos com histórias inacreditáveis de sobreviventes; alguns deles são convidados a contar brevemente sua história e acender uma tocha. Cada vez há menos deles. Por fim, recita-se uma prece especial em memória dos mortos, e ao final todos cantam, de pé, o hino de Israel — Hatikvá —, que quer dizer “esperança”.

Difícil não chorar. Nas rádios e na TV, até o nascer das estrelas do dia seguinte (terça-feira), só se ouvirão músicas tristes. Mas antes disso, às dez horas da manhã, um alarme soará — não para avisar sobre a chegada de mais um míssil (assim espero), mas para nos lembrar dos tantos e tantos e tantos judeus assassinados no Holocausto. Confesso que essa sirene provoca, em mim, um certo medinho de que o mundo, ao dizer “nunca mais”, esteja mentindo.
Dessa vez, no entanto, há o Estado de Israel.
