
Esta fotografia familiar onde vemos um idoso com o que parece ser suas netas esconde uma história que mudou o futuro dos Estados Unidos. Este homem não identificado que usa uma estrela no peito e um uniforme da guerra civil americana, foi um dos mais de 180 mil soldados afro-americanos que lutaram e sobreviveram a esse conflito que dividiu os Estados Unidos.
No começo dessa guerra, os homens negros sequer tinham o direito de se alistar formalmente em larga escala pelo governo federal, mesmo nos estados do norte, onde a abolição da escravatura já havia ocorrido.
Isso mudou quando ocorreu a Proclamação da Emancipação, assinada por Abraham Lincoln, que abriu caminho para o recrutamento de cerca de 180 mil soldados afro-americanos, formando as chamadas United States Colored Troops.
Em um exército da união que contava com cerca de 2 milhões de homens. Eles passaram a compor de 8 a 9% do total das tropas na guerra, um acréscimo que fez toda diferença dentro da realidade do conflito naquele momento.
Essa atitude reforçou o caráter da guerra como luta contra a escravidão, aumentando as fugas de negros do sul para o norte, ajudando a enfraquecer economicamente o Sul que dependia de mão de obra escravizada em sua economia.
Parte desses homens alistados era formada por homens escravizados que haviam escapado dos Estados do Sul ainda escravagistas, outra parte, homens negros livres, especialmente dos estados do norte. Para esses combatentes , a adesão ao conflito não era apenas política ou estratégica, mas essencialmente pessoal: significava lutar pela própria liberdade e pela destruição definitiva de um sistema que os havia mantido escravizados por séculos.
Porém, essa liberdade não era completa, eles não tinham acesso aos mesmos direitos de todo cidadão branco dos EUA.
As tropas eram segregadas, e quase que exclusivamente comandadas por oficiais brancos, não porque os negros não eram capazes, e sim por puro racismo. Além disso, recebiam soldo menor, eram frequentemente designados para papéis secundários e pesados como na construção de infraestrutura de guerra ou na cozinha, além disso, em batalhas eram vistos como bucha de canhão e colocados nas posições e missões mais perigosas.
Um exemplo notável foi a batalha de Fort Wagner, onde o 54º regimento de Massachusetts foi responsável por atacar uma fortaleza confederada fortemente armada. O 54º perdeu a batalha e sofreu pesadas baixas, quase a metade do batalhão foi morta ou ferida gravemente, entre eles o próprio coronel Robert Gould Shaw, um homem branco responsável pelo batalhão, que morreu logo no começo da batalha apoiando as tropas.
No entanto, esse evento demonstrou uma bravura e sem igual desses homens, que lutaram com grande disciplina e comprometimento mesmo diante de uma batalha duríssima, e com a cadeia de comando comprometida, eles não recuaram. Após esse acontecido, a percepção política e militar sobre a capacidade de emprego desses soldados na guerra mudou completamente.
Para quem quiser conferir com mais detalhes, essa história foi eternizada no cinema pelo filme “Tempo de Glória” (Glory 1990), estrelado por Morgan Freeman, além de Denzel Washington, Matthew Broderick e dirigido por Edward Zwick.
Não podemos esquecer de citar que havia ainda um outro risco para esses soldados, eles não eram tratados como prisioneiros de guerra, muitos eram executados ou devolvidos diretamente a escravidão quando capturados..
E mesmo assim eles não fugiram da luta.
Dos cerca de 180 mil que lutaram no conflito, aproximadamente 36 mil homens morreram, muitos fora de combate, vítimas de doenças e situações adversas, já que essas tropas eram muito mais suscetíveis a negligência por parte do alto comando da guerra. Esses sobreviventes, muitos deles feridos ou inválidos, carregaram diretamente no corpo o preço de sua liberdade parcial por todo o resto de sua vida.
Mas porque uma liberdade parcial?
Mesmo depois de toda sua contribuição, a guerra terminou nos campos de batalha, mas permaneceu na luta por direitos civis básicos, sobretudo nos estados do Sul dos Estados Unidos.
Após um pequeno período de avanços, os estados que compõem os confederados do sul progressivamente institucionalizaram o que ficou conhecido como leis de “Jim Crow”. Essas leis criaram a base para uma sociedade extremamente segregada onde negros e brancos eram separados, e na prática também privados de direitos.
Até o direito de voto foi cerceado, por diversos mecanismos e leis, como testes de alfabetização e intimidação,
Esses homens que vestiram o uniforme da União eram perseguidos pela Ku Klux Klan, justamente porque eles representavam uma ameaça simbólica, eles pegaram em armas contra outros homens brancos, além disso tinham disciplina militar e consciência de seus direitos.
Uma ironia brutal da história.
Esses veteranos que ajudaram a destruir a escravidão viveram para ver surgir um novo sistema que, embora diferente na forma, mantinha muitos dos mesmos mecanismos de exclusão. Eles lutaram por uma nação que, décadas depois, ainda lhes negava igualdade básica.
E é isso que torna aquela imagem do velho soldado ainda mais poderosa. Porque ela não representa apenas vitória. Representa um homem que sobreviveu à guerra, sobreviveu ao racismo institucional e ainda assim construiu uma família, um legado e uma linha de continuidade.
Seus netos nasceram livres, mas não plenamente iguais, mas tinham como exemplo uma geração que deu o sangue como exemplo.
E talvez o maior feito desses homens não tenha sido apenas vencer uma guerra, mas garantir que a próxima geração tivesse, ao menos, a chance de continuar lutando.
