O debate no Painel BM&C News desta semana girou em torno de um ponto central para a economia brasileira: o esgotamento de um modelo de crescimento apoiado no consumo via crédito em um ambiente de juros elevados, inadimplência crescente e baixa capacidade de investimento. Na avaliação dos convidados, o país tenta manter a atividade em movimento com estímulos de curto prazo, mas sem enfrentar os entraves estruturais que encarecem o dinheiro e comprimem a renda de famílias e empresas.
Nesse contexto, o consumo deixa de ser um sinal de fortalecimento da economia e passa a refletir uma dinâmica mais frágil, sustentada por endividamento. Quando a expansão depende de crédito caro, a questão deixa de ser apenas quanto a economia cresce e passa a ser quem absorve essa conta no futuro.
“Por exemplo, olhando o último dado do Banco Central, você tem um comprometimento da renda de 29%. A cada R$ 100, R$ 30 vão para pagar o custo do endividamento, que é a amortização e juros”, afirma Roberto Dumas.
Crédito caro e o peso do endividamento sobre famílias e empresas
Ao comentar as medidas anunciadas pelo governo, como a liberação de recursos do FGTS para aliviar o orçamento das famílias, Carlos Honorato afirmou que a estratégia não resolve a raiz do problema. Segundo ele, a política pública continua concentrada em recortes específicos, sem atacar a deterioração estrutural do crédito nem a perda de capacidade financeira de uma parcela ampla da população.
Honorato observou ainda que a pressão não se restringe às famílias. Com juros bancários elevados e maior dificuldade de acesso a financiamento em condições previsíveis, empresas também operam com menos margem para investir, consumir e contratar, o que retroalimenta o baixo crescimento.
“Você tem hoje um endividamento gigantesco das famílias, né? Você tem taxas de juros bancários que estão fora da realidade há muito tempo”, avalia Carlos Honorato.
Estímulos do governo encontram uma economia mais pressionada
Miguel Daoud avaliou que as novas medidas de estímulo têm alcance político e econômico cada vez menor porque o ambiente atual já não permite repetir a dinâmica de outros ciclos de expansão do crédito. Na leitura dele, um mecanismo que em outros momentos ajudou a impulsionar o consumo hoje encontra uma economia mais endividada, com juros mais altos e menor capacidade de resposta da renda.
Na prática, isso significa que iniciativas como renegociação de dívidas e novas linhas de crédito tendem a empurrar o problema para frente, sem melhorar de forma duradoura a percepção das famílias nem a popularidade do governo. Para os participantes do programa, o modelo passou a depender de remendos sucessivos, sem criar base para uma recuperação consistente.
“Então, essa percepção do governo de querer dar crédito para poder ter essa popularidade que ele deseja não vai resolver nada”, argumenta Miguel Daoud.
Spread bancário e ambiente institucional mantêm o crédito elevado
Roberto Dumas chamou atenção para um ponto que, segundo ele, costuma ficar em segundo plano no debate público: o problema brasileiro não está apenas na Selic, mas no spread bancário e em todo o ambiente institucional que encarece o crédito. Ele lembrou que o aumento da inadimplência exige mais capital econômico dos bancos, elevando o custo final cobrado de famílias e empresas.
Os convidados também destacaram que a baixa competição no sistema financeiro, a lentidão dos processos de recuperação judicial e a insegurança jurídica reduzem a eficiência da intermediação financeira no país. O resultado é um crédito estruturalmente caro, mesmo quando há algum alívio pontual nos juros básicos, o que limita a transmissão da política monetária e trava o investimento.
“O spread do ICC, indicador de custo de crédito, é 36% para a pessoa física no Brasil e quase 10% para a pessoa jurídica. A média da América Latina é 7,5%”, pontua Roberto Dumas.
Falta de projeto de Estado amplia incerteza e trava decisões
Ao longo do debate, os três entrevistados convergiram na avaliação de que o Brasil opera há anos sem um projeto de Estado capaz de orientar reformas e reduzir incertezas. Na ausência dessa direção, governos passam a administrar urgências de curto prazo, enquanto investidores, empresários e consumidores convivem com dúvidas permanentes sobre a trajetória fiscal, política e institucional do país.
Dumas destacou que o investimento não depende apenas da taxa de juros, mas também de previsibilidade. Sem clareza sobre regras, prioridades e condução macroeconômica, empresas adiam decisões e passam a operar em modo defensivo. A consequência é uma economia que cresce pouco, depende mais de estímulos e perde capacidade de sustentar uma agenda mais robusta de produtividade.
“Eu não sei quem vai ser o presidente daqui a 4, 8 anos. E isso faz com que, olha, vamos esperar para pensar o que que vai acontecer com a economia e com a política para decidir se nós vamos investir ou não”, ressalta Roberto Dumas.
Pequenas empresas sentem primeiro o peso da deterioração
Na parte final do programa, Carlos Honorato levou a discussão para a realidade do pequeno e médio empresário, que muitas vezes não consegue esperar pela solução estrutural defendida no campo macroeconômico. Para esse agente econômico, o problema é imediato: preservar fluxo de caixa, pagar salários, renegociar dívidas e sobreviver em um ambiente em que discussões sobre curva de juros ou reforma política parecem distantes da rotina operacional.
Nesse ponto, o painel mostrou que a fragilidade da economia brasileira se expressa justamente na base produtiva. Sem crédito acessível, sem previsibilidade regulatória e com demanda pressionada pelo endividamento das famílias, muitos negócios operam apenas para ganhar tempo. A sobrevivência de curto prazo passa a dominar decisões que deveriam estar voltadas à expansão, ao investimento e à contratação.
“Eu preciso, meu irmão, me livrar disso aqui porque eu não consigo sobreviver mais”, observa Carlos Honorato.
Credibilidade fiscal segue no centro da discussão para 2026
Na avaliação dos convidados, qualquer tentativa de reorganizar a economia exigirá mais do que medidas emergenciais voltadas ao consumo. O debate indicou que a recuperação da credibilidade passa por um compromisso claro com ajuste fiscal, previsibilidade institucional e reformas que reduzam o custo estrutural do crédito.
A síntese do painel é que o Brasil se aproxima de 2026 ainda preso a uma lógica em que a política busca preservar poder enquanto o setor privado tenta preservar caixa. Sem um projeto que reconecte responsabilidade fiscal, investimento e produtividade, a conta tende a seguir adiante — mais pesada para famílias, empresas e para o próximo ciclo de governo.
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