Onde hoje os turistas disputam uma mesa para saborear um fondue e percorrem trilhas em meio às araucárias, no passado subiam a serra em lombo de burro pessoas que sofriam de tuberculose, em busca de um ar que fosse capaz de lhes devolver a saúde dos pulmões. Campos do Jordão, situada no alto da Serra da Mantiqueira, ostenta o título de ser o município com a sede administrativa mais elevada de todo o país, e guarda uma história que poucos associam à sua fama de cartão-postal do inverno.
A transformação de uma cidade de sanatórios em um disputado destino de inverno
Desde os últimos anos do século XIX, os médicos já traçavam um paralelo entre a qualidade do ar da Mantiqueira e aquele que se respirava nos famosos sanatórios da Suíça. Naquela época, a tuberculose era a causa de quase 70% de todas as mortes por doenças infecciosas no Brasil, e a chamada climatoterapia despontava como a principal esperança de alcançar a cura. Pacientes que vinham de todas as partes do país subiam a serra com o objetivo de se internar em pensões e em hospitais que funcionavam de maneira improvisada. Para se ter uma ideia do rigor da época, cada hóspede era obrigado a manter seus próprios copos e talheres devidamente identificados com o seu nome, como uma forma de tentar diminuir o risco de contágio.
A pesquisadora Ana Enedi Prince, que está ligada à Universidade do Vale do Paraíba (Univap), documentou de forma detalhada esse período histórico em sua série de livros intitulada Tuberculose e História. De acordo com a historiadora, há registros de que até mesmo pessoas escravizadas foram enviadas à região por seus senhores antes que a abolição acontecesse. Com a chegada dos antibióticos a partir da década de 1940, os sanatórios foram perdendo a sua função original. As antigas pensões se transformaram em hotéis, e aquele ar puro que antes curava os pulmões doentes passou a atrair um número crescente de turistas. Foi no ano de 1957, durante um congresso de climatologia realizado em Paris, que a cidade recebeu oficialmente o título de “Suíça Brasileira”, conforme registra o Governo do Estado de São Paulo.

A ferrovia que desafia a engenharia ao vencer um aclive de 11% sem o uso de cremalheira
A Estrada de Ferro Campos do Jordão (EFCJ), que foi inaugurada no dia 15 de novembro de 1914, nasceu de uma iniciativa que partiu dos médicos sanitaristas Emílio Ribas e Victor Godinho. O principal objetivo da construção era viabilizar o transporte dos pacientes que sofriam de tuberculose desde Pindamonhangaba, localizada no Vale do Paraíba, até os sanatórios que ficavam no alto da serra. Antes da existência dessa ferrovia, a dura subida era feita a pé, no lombo de cavalos ou, então, em liteiras que eram carregadas por pessoas escravizadas.
O que torna a EFCJ um caso singular do ponto de vista da engenharia é o seu sistema de tração. Normalmente, as ferrovias que precisam enfrentar rampas com uma inclinação superior a 4% utilizam um sistema de cremalheira, que consiste em um terceiro trilho dentado cuja função é impedir que o trem patine durante a subida. A linha férrea de Campos do Jordão, no entanto, chega a alcançar uma inclinação impressionante de 11%, operando apenas com a simples aderência entre as rodas e os trilhos, o que configura um caso bastante raro em todo o mundo. No quilômetro 37 de seu trajeto, a ferrovia atinge a altitude de 1.743 metros, que é reconhecida como o ponto culminante ferroviário do Brasil, de acordo com informações da Secretaria dos Transportes Metropolitanos de São Paulo.

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O termômetro que já registrou a marca de -7,3 °C em pleno território paulista
A altitude de 1.628 metros em que está situada a sede do município é a responsável por um clima que é classificado como temperado oceânico (do tipo Cfb na escala de Köppen), apresentando uma temperatura média anual que gira em torno de 14,5 °C. Segundo os dados oficiais do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), a temperatura mínima absoluta já registrada na cidade foi de -7,3 °C, no dia 1º de junho de 1979, o que representa o recorde negativo de temperatura para todo o estado de São Paulo. Existem ainda registros de caráter não oficial que chegam a apontar marcas ainda mais baixas, como os -8,7 °C que teriam sido medidos em julho de 1926.
No extremo oposto da escala, o mês de novembro de 2023 trouxe a máxima histórica de 31 °C. A ocorrência de neve já foi documentada em alguns anos esparsos, como 1928, 1942, 1947 e 1966, embora esse seja um fenômeno considerado raro em função de o inverno na região ser bastante seco. Nos arredores da cidade, a altitude pode facilmente ultrapassar a barreira dos 2.000 metros, e do alto do Pico do Itapeva é possível se ter uma vista panorâmica que alcança mais de 15 municípios diferentes.
Quem tem o sonho de conhecer de perto a “Suíça Brasileira” vai gostar deste vídeo do canal Vamos Fugir Blog, que conta com uma base de mais de 230 mil inscritos. Nele, os apresentadores Lígia e Ulisses mostram um roteiro completo por Campos do Jordão, com direito a visitas ao Capivari e ao Parque Amantikir, além de valiosas dicas sobre os preços praticados na região:
Quando o clima favorece cada tipo de passeio na Mantiqueira?
O inverno, que é uma estação marcada pelo tempo seco, concentra o maior fluxo de visitantes na cidade. Já durante o verão, as chuvas se tornam mais frequentes, embora as manhãs geralmente se iniciem com a presença do sol.
| Estação | Meses | Temperatura | Chuva | O que fazer |
|---|---|---|---|---|
| Verão | Dez-Fev | 14-23 °C | Alta | Trilhas e cachoeiras pela manhã |
| Outono | Mar-Mai | 10-20 °C | Média | Parques e gastronomia |
| Inverno | Jun-Ago | 5-18 °C | Baixa | Festival de Inverno e fondues |
| Primavera | Set-Nov | 12-22 °C | Média | Jardins e cervejarias |
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar conforme a altitude do ponto visitado.
O nome que foi herdado de um brigadeiro que jamais esteve na serra
O embrião do que viria a ser a cidade remonta ao ano de 1771, quando Inácio Caetano Vieira de Carvalho subiu a Mantiqueira e ali estabeleceu a Fazenda Bom Sucesso. Após o seu falecimento, os herdeiros da propriedade acabaram por hipotecar as terras em favor do Brigadeiro Manoel Rodrigues Jordão. Os moradores da região, então, passaram a se referir àquelas terras como “os campos do Jordão”, e o nome acabou se fixando de forma definitiva, a despeito do fato de que o próprio brigadeiro jamais tenha residido no local.
A fundação oficial da cidade, no entanto, é atribuída a Mateus da Costa Pinto, que adquiriu alguns lotes de terra às margens do Rio Imbiri no dia 29 de abril de 1874. A emancipação política do município só viria a acontecer mais tarde, no ano de 1934, quando Campos do Jordão finalmente se separou de São Bento do Sapucaí. Atualmente, conforme informações da Prefeitura de Campos do Jordão, a cidade chega a receber anualmente um número superior a 5,5 milhões de visitantes.
Suba a serra e experimente o ar que um dia curou e que hoje simplesmente encanta
Campos do Jordão consegue reunir, em um só lugar, o título de cidade com a maior altitude do país, uma ferrovia centenária que representa um verdadeiro desafio às convenções da engenharia e um passado como estação de tratamento de saúde que a maioria de seus turistas desconhece. Em meio às araucárias e às geadas, a cidade carrega consigo várias camadas de história que estão por baixo do seu verniz de destino romântico e acolhedor.
Você precisa subir a Mantiqueira ao menos uma vez na vida para conseguir compreender por que, há mais de um século, as mais diferentes pessoas buscam esse mesmo ar.
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