Advogado do Master, Daniel Monteiro é apontado como peça-chave de esquema bilionário e criador de ‘compliance paralelo’


Ex-presidente do BRB é preso em operação da PF
O advogado do banco Master, Daniel Monteiro, preso em São Paulo na quinta-feira (16) durante a nova fase da Operação Compliance Zero, é apontado pela Polícia Federal como peça-chave de um esquema bilionário de lavagem dinheiro envolvendo Daniel Vorcaro.
Segundo a investigação, ele atuava como operador jurídico-financeiro e teria criado um “compliance paralelo” para dar aparência de legalidade às operações.
O esquema funcionava a partir da criação de carteiras de crédito com indícios de inconsistência ou sem lastro real, que eram formalizadas com documentação para aparentar legalidade e, depois, vendidas ao Banco de Brasília (BRB).
Com isso, o banco público desembolsava recursos com base em ativos supostamente fraudulentos. Parte desses valores teria sido desviada para o pagamento de vantagens indevidas, inclusive por meio da aquisição de imóveis de alto padrão, registrados em nome de empresas de fachada e terceiros para ocultar os verdadeiros beneficiários.
O ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, também foi preso nesta quinta-feira. Ele é suspeito de não seguir práticas de governança e permitir negócios com o banco Master sem lastro.
Procurada, a defesa de Daniel Monteiro disse que ele foi surpreendido com a decretação da prisão. Em nota, ele informou que “sua atuação sempre se deu de forma estritamente técnica, na condição de advogado do Banco Master e de diversos outros clientes, sem qualquer participação em atividades alheias ao exercício profissional”.
O advogado Daniel Monteiro recebeu o Título de Cidadão Baiano em dezembro de 2024.
Reprodução/Redes sociais
Advogado é peça-chave
Daniel Monteiro é descrito pela Polícia Federal como “operador jurídico-financeiro”. Isto é, ele não atuava apenas como advogado, mas exercia um papel estrutural e indispensável ao funcionamento do esquema ilícito.
De acordo com a investigação, ele seria responsável por uma espécie de “blindagem jurídica” das operações, com atuação direta na elaboração, na revisão e no ajuste de contratos, declarações e notificações ligadas às carteiras de crédito investigadas — inclusive documentos posteriormente apontados pelo Banco Central como incompatíveis com operações reais.
O escritório de Daniel, o Monteiro Rusu, também funcionava como uma espécie de “compliance paralelo”, fora dos mecanismos formais de controle, conferindo aparência de legalidade a operações consideradas fraudulentas. Essa estrutura permitia dar respaldo jurídico às transações e viabilizar a circulação dos ativos no sistema financeiro.
O advogado ainda é apontado como responsável pela arquitetura de ocultação patrimonial do esquema. Ele teria estruturado empresas de fachada usadas exclusivamente para a compra de imóveis de luxo, definido diretores “de fachada” — entre eles um parente — e operacionalizado a transferência de recursos por meio de fundos de investimento ligados à operação.
A investigação também indica que, diante do avanço das apurações, Monteiro teria participado da estratégia para interromper formalizações e evitar rastreamento, mantendo escrituras de imóveis fora dos registros oficiais.
Mensagens interceptadas mostram que ele era acionado diretamente por Vorcaro para dar andamento às estruturas e que tratava essas operações como parte de um conjunto maior de mecanismos já existentes. Para o STF, há indícios de que o advogado não se limitava à defesa técnica, mas integrava o núcleo da organização criminosa, desempenhando funções indispensáveis para a manutenção e o funcionamento do esquema.
Presidente do BRB, Paulo Henrique Costa
Lúcio Bernardo Jr/Agência Brasília
BRB e Master
O BRB é um banco público controlado pelo governo do Distrito Federal. Ele aparece no caso Master por ter sido o principal interessado na compra da banco de Daniel Vorcaro e por ter realizado operações financeiras que estão sob investigação.
A negociação previa a aquisição de participação relevante no Master e foi apresentada como uma alternativa para evitar a quebra da instituição. No entanto, o Banco Central vetou a operação ao concluir que não havia viabilidade econômico-financeira e que o negócio poderia transferir riscos excessivos ao banco público.
Além da tentativa de compra, a Polícia Federal apura se o BRB adquiriu carteiras de crédito problemáticas do Master. O foco é entender se houve falhas nos processos internos de análise, aprovação e governança das operações.
Paulo Henrique Costa presidiu o BRB durante o período em que ocorreram as negociações com o Master. Ele é investigado por sua atuação nas tratativas e na aprovação das operações financeiras sob suspeita.
Segundo os autos, Costa defendeu a compra do Master como uma solução para a crise da instituição privada. Após o avanço das investigações, ele foi afastado do comando do banco público.
Em depoimento ao Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou que parte dos valores pagos ao Master não teria sido recuperada após a liquidação. A PF ainda apura se esse montante corresponde ao prejuízo efetivo e se houve responsabilidade criminal ou administrativa.
Adicionar aos favoritos o Link permanente.