‘Queriam adotar uma criança’: quem era casal de mulheres executado por policial à queima-roupa no ES


Daniele Toneto, 45 anos, e Francisca Chaguiana Dias Viana, de 31, executadas por policial no Espírito Santo
Divulgação
As duas mulheres mortas a tiros por um policial militar em Cariacica, na Grande Vitória, no dia 8 de abril, planejavam adotar uma criança e investiam em um pequeno negócio próprio para melhorar de vida.
Francisca Chaguiana Dias Viana, de 31 anos, e Daniele Toneto, de 45, foram executadas pelo cabo da Polícia Militar Luiz Gustavo Xavier do Vale. Segundo as investigações, o policial foi até o endereço das vítimas após saber de um desentendimento entre elas e a ex-mulher dele, possivelmente por causa de ar-condicionado.
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“Elas estavam felizes, fazendo planos, trabalhando com o que gostavam. Estavam até na fila de adoção, ela me avisou. Eu quero Justiça, eu e a minha família, é o desejo de todos”, disse a vendedora Francisca das Chagas Dias Viana, 37 anos, irmã de Francisca Chaguiana.
Segundo a vendedora, a irmã e a cunhada estavam juntas havia sete anos e, nos últimos meses, trabalhava vendendo molho de pimenta, biscoitos e bolos. As duas produziam os alimentos em casa e faziam as entregas de moto.
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Ela contou ainda que a irmã mais nova gostava de cozinhar e chegou a iniciar um curso de gastronomia para ampliar o negócio. Antes disso, também trabalhou com venda de roupas e em restaurantes.
“O pessoal do bairro até falava: ‘olha lá a menina da pimenta’. Elas vendiam molho, biscoitos e bolinhos. Minha irmã cozinhava muito bem e queria uma vida melhor”, contou a vendedora.
Daniele Toneto, 45 anos, e Francisca Chaguiana Dias Viana, de 31, executadas por policial no Espírito Santo, trabalhavam vendendo biscoitos caseiros
Arquivo pessoal
Relação com os sobrinhos
Francisca Chaguiana se mudou do Maranhão para o Espírito Santo em 2018 para ajudar a irmã, que estava grávida. Antes disso, já havia cuidado de uma das sobrinhas ainda no estado de origem.
“Ela era muito carinhosa com meus filhos. A gente não conseguia se ver sempre, mas conversava por mensagem. Ela perguntava das crianças, especialmente do meu filho de 8 anos, que é autista. Pode ter defeitos, mas nunca maltrataria uma criança. Ela praticamente criou minha filha mais velha no Maranhão”, disse a irmã.
Francisca das Chagas contou que também se dava bem com a companheira da irmã.
“Pra mim, ela era uma pessoa boa também, gostava dos meus filhos, todo mundo gostava dela, chorona, chorava com tudo”, disse.
Daniele Toneto, 45 anos, e Francisca Chaguiana Dias Viana, de 31, pensavam em adotar uma criança
Reprodução
Última ligação foi para a polícia
Menos de 20 minutos antes de ser executada, em Cariacica, na Grande Vitória, no dia 8 de abril, a última ligação feita por Francisca Chaguiana Dias Viana, 31 anos, foi para o 190, telefone de emergência para acionar a Polícia Militar.
No Espírito Santo, o chamado é atendido pelo Centro Integrado de Operações de Defesa Social (Ciodes).
A informação sobre a ligação, feita às 9h46, também foi confirmada pela vendedora Francisca das Chagas, que ficou com o aparelho celular da irmã desde a morte.
Às 10h02, uma primeira viatura chega ao bairro, e Francisca acena para os policiais. Menos de um minuto depois, às 10h03, o cabo Luiz Gustavo aparece com outros quatro policiais, seguindo a pé em direção ao casal, já com a arma na mão.
Francisca das Chagas confirmou que a irmã e a cunhada costumavam se desentender com a ex-mulher do PM e que o casal pensava até em levar para a Justiça o problema em relação à cobrança da energia rateada entre os apartamentos.
Casal Daniele Toneto e Francisca Chaguiana Dias Viana ligou para a polícia minutos antes de ser executado por policial
Reprodução
Procurada e questionada sobre o acionamento e se alguma das três viaturas que apareceram no local do crime foi enviada por causa do chamado feito pela vítima, a Polícia Militar disse apenas que “os detalhes solicitados serão apurados durante o Inquérito Policial Militar”.
Soube das mortes pela televisão
Francisca das Chagas soube da morte da irmã e da cunhada pela televisão porque um conhecido ligou para ela no dia 8 de abril e falou para ela ligar a TV e ver o que estava passando no jornal.
“Ele falou: ‘vê o jornal porque está passando alguma coisa sobre a sua irmã’. Mas não contou o que era. Eu podia imaginar qualquer outra coisa menos isso”, lamentou.
A irmã deseja que o policial que efetuou os disparos responda pelas mortes.
Francisca Chaguiana foi enterrada no Cemitério Jardim da Saudade, em Nova Rosa da Penha. Daniele foi enterrada no dia 9, também em Cariacica.
Relembre o caso
Novo vídeo mostra momento em que policial militar atira em casal de mulheres em Cariacica
O crime aconteceu na noite do dia 8 de abril, no bairro Cruzeiro do Sul, em Cariacica, na Grande Vitória. De acordo com a apuração, a ex-mulher do militar ligou para ele relatando uma discussão com o casal e dizendo que o filho dos dois também estaria envolvido na situação.
Testemunhas contaram que as duas vítimas e a ex-esposa do policial moravam em andares diferentes. Segundo moradores, a ex-companheira do agente foi ameaçada pelo casal horas antes do crime.
Ainda de acordo com testemunhas, a discussão começou por causa de um ar-condicionado. As mulheres trocavam acusações sobre um possível furto de energia, apesar de residirem em andares distintos.
Na manhã de quarta (8), elas voltaram a discutir, e as vítimas teriam mencionado o filho que a ex-esposa do PM tem com ele. A ex-mulher do policial, que não quis se identificar, deu entrevista e apresentou a versão dela sobre o que aconteceu.
“Elas testaram o meu limite, falando do meu filho de 8 anos, autista. Falaram que ele não seria autista, p**** nenhuma, porque ele estava jogando bola até altas horas da noite. Eu desci com uma faca. Nisso, juntaram as duas em cima de mim, me jogaram no muro, me bateram, puxaram o meu cabelo, quebraram a minha unha. A vizinha de baixo conseguiu separar a briga”, disse a ex-esposa do PM.
Segundo a mulher, foi nesse momento que ela decidiu ligar para o cabo do Vale.
“Eu falei que não ia mais agir com as minhas mãos. Liguei para o meu ex-marido e pedi duas viaturas, porque elas estavam me agredindo e agredindo o nosso filho, que estava chorando dentro de casa. Então, ele veio”, contou.
Após a ligação, o cabo Xavier deixou o posto onde atuava em função administrativa e foi até o endereço acompanhado de outros policiais.
Testemunhas relataram que houve uma discussão antes dos disparos. Mas o relato de policiais sobre execução de mulheres diverge do que mostram imagens.
Daniele morreu no local. Francisca chegou a ser socorrida, mas não resistiu aos ferimentos. Após o crime, o policial foi preso.
Seis policiais militares presenciaram o crime cometido pelo cabo Luiz Gustavo Xavier do Vale, em Cariacica, Espírito Santo
Arte/TV Gazeta
Seis policiais militares presenciaram o momento em que o cabo do Vale atirou contra Daniele Toneto e Francisca Chaguiana Dias Viana. Eles não fizeram nada para impedir a ação do policial. São eles:
Edson Luiz da Silva Verona (soldado)
Eduardo Ferro Coradini (soldado)
Filipe Gonçalves Vieira (soldado)
Hilario Antônio Nunes (cabo)
Lucas Nogueira Oliveira (aluno soldado)
Valfril do Carmo Carreiro (3º sargento)
Procurada, a Polícia Militar não esclareceu sobre os acionamentos feitos à polícia. A assessoria disse apenas que “três viaturas estavam no local, sendo que uma delas estava atendendo a ocorrência de vias de fato gerada pelo Ciodes, a outra participou, em apoio, e a terceira viatura envolvida é a que transportou o cabo Vale ao local do crime”.
A nota não detalha, no entanto, se as viaturas foram ao local por acionamento feito pela vítima ou pelo cabo Xavier, que também solicitou apoio ao Ciodes.
Infográfico – onde foi a execução do casal de mulheres no Espírito Santo
Arte/g1
Prisão e processo
Após a morte das duas mulheres em Cariacica, a Justiça decretou a prisão preventiva do cabo do Vale, que segue detido no Quartel do Comando-Geral, em Vitória.
A Polícia Militar também abriu um processo demissionário contra o militar.
“Já determinei a abertura do processo demissionário para o cabo do Vale, porque ele feriu a honra da instituição, o decoro, coisa com a qual nós não coadunamos. Nós saímos diariamente às ruas para proteger e servir as pessoas, então já está instaurado esse procedimento”, afirmou o comandante-geral, coronel Ríodo Lopes Rubim.
Segundo ele, o prazo para conclusão do inquérito militar é de 20 dias, mas não há previsão para o término do processo demissionário.
Cabo Luiz Gustavo Xavier do Vale, 46 anos, está há 18 anos na Polícia Militar e responde por mortes, tiros e denúncias por lesão corporal
Reprodução
Nesta quinta-feira (16), a Justiça do Espírito Santo determinou a suspensão dos seis policiais militares que estavam presentes no momento em que o cabo Luiz Gustavo Xavier do Vale executou um casal de mulheres no bairro Cruzeiro do Sul, em Cariacica, na Grande Vitória.
O g1 não conseguiu contato com a defesa do policial.
Daniele Toneto, 45 anos, e Francisca Chaguiana Dias Viana, de 31, executadas por policial no Espírito Santo
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