Em pleno coração do Deserto de Sonora, a 160 quilômetros de distância de San Diego e a apenas 80 quilômetros da fronteira com o México, existe um acampamento de caráter permanente onde ninguém paga aluguel, ninguém recebe uma conta de água e onde nenhuma prefeitura é responsável por ditar as regras. Slab City está assentada sobre as antigas fundações de concreto de uma base militar que foi abandonada e se autodenomina como “o último lugar livre da América“.
A base de guerra que acabou se transformando em uma terra sem dono
O terreno onde atualmente vivem artistas, aposentados e nômades já serviu no passado como local de treinamento de artilharia para o exército. O Camp Dunlap foi oficialmente inaugurado em outubro de 1942 pelo Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos e, durante todo o período da Segunda Guerra Mundial, recebeu algo em torno de 185 mil soldados que ali realizavam exercícios de fogo real em meio ao deserto. A base militar chegou a contar com 30 edificações, 13 quilômetros de ruas devidamente pavimentadas, um sistema completo de esgoto e até mesmo uma piscina.
Com o fim do conflito mundial, as operações militares foram sendo progressivamente reduzidas. No ano de 1956, a decisão foi tomada de demolir todos os edifícios que existiam no local. Tudo o que restou foram as imensas lajes de concreto que serviam de piso para as antigas construções, e foram justamente essas lajes (chamadas de slabs em inglês) que acabaram dando o nome ao lugar. Em outubro de 1961, o Departamento de Defesa devolveu oficialmente os 260 hectares da área ao estado da Califórnia, sem que houvesse qualquer cláusula que especificasse um uso futuro. Veteranos de guerra e trabalhadores rurais da região começaram a ocupar essas lajes quase que de imediato, e o governo estadual jamais chegou a apresentar qualquer plano formal para a utilização daquele terreno.

Um local que não dispõe de água encanada, de eletricidade ou de coleta de lixo
Slab City opera de forma completamente independente da rede pública de serviços. Não existe qualquer tipo de ligação oficial de água, de energia elétrica, de rede de esgoto ou mesmo de um sistema de recolhimento de resíduos sólidos. Os moradores precisam contar com o uso de painéis solares para gerar energia, de geradores que funcionam a diesel e de sistemas sanitários que são construídos de forma improvisada. Toda a água que é consumida precisa ser transportada de locais distantes ou, então, captada a partir de fontes alternativas. Existe um banho de uso comunitário cuja água é alimentada por uma fonte termal natural que brota do solo a uma distância de menos de cem metros do acampamento.
Apesar de toda essa precariedade, o local conseguiu desenvolver uma estrutura própria muito particular: as ruas receberam nomes, há uma biblioteca que é mantida pela comunidade, dois palcos diferentes para apresentações de música ao vivo, um campo de golfe e até mesmo algumas cafeterias que funcionam com base em um sistema de doações ou de trocas. Alguns bairros que se formaram no interior do acampamento, como é o caso do California Ponderosa, chegam a cobrar uma taxa mensal de cerca de 125 dólares, valor que dá direito a refeições e ao acesso a um chuveiro.
Uma população que chega a 4 mil pessoas no inverno e cai para 150 no verão
A quantidade de habitantes em Slab City varia de uma forma que é realmente extrema. De acordo com uma reportagem que foi publicada pelo jornal The Washington Post no ano de 2020, o acampamento chega a abrigar por volta de 4 mil pessoas durante os meses de clima mais frio, que correspondem ao período entre outubro e março. Esses moradores temporários são os chamados snowbirds, termo que designa os aposentados que fogem do rigoroso inverno do norte dos Estados Unidos e do Canadá, deslocando-se em seus trailers e motorhomes.
Por outro lado, quando os termômetros do deserto ultrapassam com facilidade a marca dos 49°C durante a estação do verão, a população se reduz a algo em torno de 150 residentes que são permanentes. Essas pessoas, que são conhecidas como slabbers, erguem suas moradias utilizando os mais diversos materiais, que vão desde paletes de madeira e chapas de metal até ônibus que foram abandonados. Um relatório mais recente, produzido pela PBS SoCal em 2025, chegou a estimar uma população fixa de 800 moradores e um pico que pode atingir até 5 mil pessoas durante a alta temporada.

Uma montanha coberta de tinta que se tornou um tesouro para o Congresso americano
Logo na entrada de Slab City, uma colina de origem artificial que tem a altura equivalente a um prédio de três andares e que é inteiramente coberta por camadas de tinta colorida funciona ao mesmo tempo como portal e como o grande cartão-postal do local. A Salvation Mountain foi sendo erguida ao longo de quase 30 anos de trabalho dedicado por Leonard Knight, um artista que era originário do estado de Vermont e que foi parar no deserto depois que o seu balão de ar quente sofreu um acidente e caiu exatamente naquele ponto. Knight interpretou o ocorrido como sendo uma espécie de sinal divino e decidiu começar a moldar a montanha utilizando barro de adobe, fardos de palha e uma imensa quantidade de tinta que era doada pelos próprios visitantes que por ali passavam.
Estima-se que a obra consumiu mais de 100 mil galões de tinta. Em 2002, a senadora Barbara Boxer registrou a Salvation Mountain no Congressional Record como tesouro nacional. Knight morreu em 2014, mas voluntários da organização Salvation Mountain Inc. continuam a manutenção da obra.

Um museu a céu aberto que é feito a partir do lixo e que fica no fim do mundo
Do lado oposto do acampamento está localizado o East Jesus, um projeto de arte que tem a sustentabilidade como princípio e que foi criado no ano de 2006. Diferentemente do que ocorre no restante de Slab City, o East Jesus ocupa um terreno de natureza privada que tem 16 hectares de extensão e que é administrado por uma organização sem fins lucrativos. As instalações artísticas que podem ser vistas por lá incluem uma grande parede que foi construída utilizando-se de aparelhos de televisão antigos, uma casa que parece estar literalmente afundando no solo do deserto e um belo arco coletivo que saúda os visitantes logo na entrada.
O espaço funciona como um verdadeiro museu ao ar livre, tendo seus próprios horários definidos para a visitação e um conjunto de regras internas que devem ser respeitadas. Nos anos mais recentes, os responsáveis pelo projeto passaram a buscar ativamente a captação de recursos públicos que possam viabilizar o envio de grandes caçambas de lixo para o acampamento, numa tentativa de tentar reduzir o problema cada vez mais grave do acúmulo de resíduos que ficam espalhados pelo deserto.
Quem se interessa por histórias que envolvem lugares que estão no limite extremo da convivência humana vai gostar deste vídeo do canal Ruhi Cenet Documentaries, que já foi assistido por mais de 3,2 milhões de pessoas. Nele, o documentarista Ruhi Cenet mostra em detalhes como é a vida em Slab City, na Califórnia, considerado por muitos como o último lugar verdadeiramente livre de toda a Terra:
O post Um acampamento permanente no deserto sem água encanada sem energia e sem leis que abriga 4000 pessoas no inverno apareceu primeiro em BM&C NEWS.
