Santa Casa de JF recebe primeiro robô cirúrgico autônomo da América Latina


A Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora acaba de dar mais um passo que reforça um padrão repetido ao longo de 172 anos: trazer primeiro o que outros ainda não têm. Desta vez, é um robô cirúrgico chamado CUVIS-Joint, desenvolvido pela sul-coreana CUREXO, capaz de executar sozinho os cortes ósseos na cirurgia de prótese de joelho. É o primeiro sistema com esse nível de autonomia a operar em toda a América Latina.
“Este é um marco importante na história da Santa Casa e reforça o nosso compromisso com a inovação e com a qualidade da assistência prestada à população. Estamos trazendo para a região uma tecnologia de ponta, alinhada ao que há de mais avançado na medicina mundial”, afirma José Sebastião Pedrosa, presidente do Conselho de Administração da instituição.
O equipamento chegou no dia 13 de abril. A primeira cirurgia está prevista para o dia 17. Entre uma data e outra, a equipe médica passa por treinamento com os engenheiros do fabricante. Para a Santa Casa, não é um salto no escuro: é a continuação de uma trajetória que inclui o primeiro serviço de hemodinâmica do interior de Minas Gerais, em 1978, o primeiro transplante renal da região, em 1983, e o primeiro transplante de fígado de toda a macrorregião Zona da Mata e Vertentes, em 2017.
Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora
divulgação CUREXO
O problema que a tecnologia resolve
A cirurgia de prótese de joelho é uma das mais realizadas no mundo. Mais de 595 milhões de pessoas convivem com osteoartrite, segundo o Global Burden of Disease Study (2021), e a substituição da articulação por uma prótese é, em muitos casos, o caminho para recuperar mobilidade e eliminar a dor crônica.
O procedimento funciona bem. Mas por décadas, seu resultado dependeu de uma variável difícil de controlar por completo: a mão humana. Mesmo cirurgiões experientes trabalham com serras oscilantes, guias mecânicos e estimativa visual. A margem de erro frequentemente ultrapassa 2 milímetros e 3 graus. Pode parecer pouco, mas na articulação do joelho, essa diferença define quanto tempo a prótese dura, quanta dor o paciente sente no pós-operatório e o quanto ele recupera de movimento.
Três gerações de cirurgia
A evolução da artroplastia de joelho pode ser resumida em três patamares, e entender essa escala ajuda a dimensionar o que o CUVIS-Joint representa.
No primeiro, a cirurgia convencional: o cirurgião realiza todos os cortes manualmente, com instrumentos mecânicos. É o padrão há décadas e depende inteiramente da habilidade e da experiência do profissional.
No segundo, os robôs semiautônomos, como o MAKO e o ROSA, já presentes em alguns hospitais brasileiros. Nesses sistemas, o cirurgião controla o robô. A tecnologia oferece navegação e limites de segurança, mas o instrumento de corte continua sendo conduzido pela mão do médico.
No terceiro, o CUVIS-Joint. Aqui, o cirurgião planeja a cirurgia inteira no computador, define cada parâmetro e supervisiona todo o procedimento. Mas quem executa o corte ósseo é o braço robótico, de forma autônoma, seguindo rigorosamente o plano digital. Em vez de serra, uma fresa de alta velocidade esculpe o osso em formas complexas, preparando um encaixe sob medida para o implante.
É o único sistema com esse nível de autonomia entre os principais concorrentes globais para cirurgia de joelho.
O que o cirurgião faz (e por que ele continua essencial)
Um ponto que a equipe médica faz questão de deixar claro: o robô não substitui o cirurgião. Ele executa o plano que o cirurgião definiu, sob supervisão contínua.
“Com o uso da robótica, conseguimos planejar cada etapa da cirurgia de forma personalizada e executar o procedimento com um nível de precisão muito elevado”, explica o ortopedista Samuel Lopes.
O processo começa antes da sala de operação. Uma tomografia computadorizada do paciente é convertida em modelo 3D do joelho. A partir dele, o cirurgião realiza uma espécie de ensaio virtual: define os eixos mecânicos da perna, escolhe o modelo de implante mais adequado e simula o resultado final. Quando chega ao centro cirúrgico, o plano já está completo. O robô é sincronizado com a anatomia real do paciente e reproduz exatamente o que foi planejado.
“O robô não substitui o cirurgião, mas potencializa sua atuação, aumentando a previsibilidade e a segurança do procedimento”, completa o ortopedista Igor Reis.
Se o paciente se mover durante a operação, sensores ópticos que monitoram a posição 1.000 vezes por segundo detectam o desvio e interrompem o corte instantaneamente. O cirurgião está presente o tempo todo, acompanhando cada etapa.
Dr. Igor Reis e Dr. Samuel Lopes
divulgação Luciana Pires
Precisão na casa do milímetro
Os números que sustentam o discurso vêm de estudos clínicos publicados em periódicos internacionais de ortopedia, com 500 pacientes operados.
A margem de erro no corte ósseo é inferior a 1 milímetro em 98% dos casos. Para ter uma referência prática: 1 milímetro é menos que a espessura de um cartão de crédito. O erro angular fica consistentemente abaixo de 1 grau. Na predição do tamanho do implante, o sistema acerta 100% na tíbia e 98,9% no fêmur, antes mesmo da cirurgia começar.
Em relação à segurança, o dado mais relevante: zero complicações graves, nenhum dano a nervos ou vasos sanguíneos, em 500 cirurgias analisadas.
O que muda para quem opera
A precisão do robô se traduz em efeitos concretos na vida do paciente. Como a fresa preserva mais os tecidos ao redor do osso do que a serra manual, o corpo inflama menos. Na prática, isso significa menos dor nos primeiros dias após a cirurgia e menor necessidade de analgésicos.
A menor agressão cirúrgica também favorece uma recuperação mais rápida: menor tempo de internação e retorno mais cedo às atividades do dia a dia.
E tem um efeito de longo prazo. Quando o corte é feito sob medida para o implante de cada paciente, o encaixe entre o osso e a prótese é otimizado. Quanto mais preciso o encaixe, menor o desgaste ao longo dos anos, o que contribui para que a prótese dure mais.
Existe um conceito na ortopedia chamado “joelho esquecido”: o melhor resultado possível de uma prótese é o paciente simplesmente não pensar nela. Subir escada, caminhar, agachar, retomar a rotina sem consciência do implante. É o objetivo que a tecnologia autônoma busca alcançar com mais previsibilidade.
Liberdade de escolha
Um diferencial que importa tanto para o cirurgião quanto para o hospital: o CUVIS-Joint é uma plataforma aberta. Isso significa que ele trabalha com implantes de diversos fabricantes, sem restringir o médico a uma única marca.
É uma exceção no mercado. Os principais sistemas robóticos concorrentes operam em modelo fechado: quem adquire o MAKO só pode usar implantes da Stryker, quem adquire o ROSA fica restrito à Zimmer Biomet, e assim por diante. No CUVIS-Joint, o cirurgião mantém a liberdade de escolher o implante mais adequado à anatomia de cada paciente, caso a caso.
Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora
divulgação CUREXO
172 anos chegando primeiro
A decisão de trazer o CUVIS-Joint não acontece no vazio. A Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora foi fundada em 1854, é o maior hospital da Zona da Mata mineira e opera com cerca de 520 leitos, 2.600 colaboradores e mais de 850 médicos. Realiza aproximadamente 29 mil cirurgias por ano, com 70% do atendimento pelo SUS. Mantém acreditação ONA Excelência (nível máximo) desde 2018 e figura no ranking Newsweek/Statista de melhores hospitais do mundo há cinco anos consecutivos.
Mas o que torna essa história singular não são os números de hoje. É o padrão que se repete ao longo das décadas.
Em 1978, quando a hemodinâmica ainda era privilégio de grandes capitais, foi a Santa Casa de Juiz de Fora que trouxe o primeiro serviço do interior de Minas Gerais. Em 1983, quando o transplante renal ainda era procedimento restrito a poucos centros no país, foi a Santa Casa que realizou o primeiro da região. Em 2017, o primeiro transplante de fígado de toda a macrorregião. Em 2024, o primeiro transplante renal pareado triplo do Brasil, com três duplas de famílias trocando órgãos simultaneamente, um procedimento inédito no país.
Agora, em 2026, o primeiro robô cirúrgico autônomo a operar na América Latina.
A tecnologia muda. O padrão, não.
Sobre a Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora
Fundada em 6 de agosto de 1854, a Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora é uma das instituições de saúde mais tradicionais de Minas Gerais. Com 172 anos de história, é referência em alta complexidade, formação médica e transplantes. É o maior centro transplantador renal de Minas Gerais, com mais de 2.000 procedimentos realizados, e figura entre os cinco maiores do Brasil. Certificada como Hospital de Ensino, mantém programas de residência médica que são referência no interior do país. Em 2026, reafirma seu histórico de pioneirismo ao trazer para a América Latina o primeiro sistema robótico autônomo para cirurgias de joelho.
Responsável Técnico: Dr. Mauro Toledo Sirimarco – CRM: 27814-MG
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