Aline Paes e Pedro Franco brincam a sério no ritmo dos afrosambas em show que festeja os 60 anos do disco de 1966


♫ CRÍTICA DE SHOW
Título: 60 anos de Afro samba
Artistas: Aline Paes e Pedro Franco
Data e local: 24 de abril de 2026 no Acaso Cultural (Rio de Janeiro, RJ)
Cotação: ★ ★ ★ ★ 1/2
Aline Paes e Pedro Franco abordam o repertório do álbum ‘Os afro sambas de Baden e Vinicius’ em show no Acaso Cultural, teatro do Rio de Janeiro (RJ)
Mauro Ferreira / g1
♬ Houve significativo momento solo de Aline Paes no show que a cantora apresentou em duo com o violonista Pedro Franco na noite de ontem, 24 de abril, para celebrar os 60 anos do álbum “Os afro-sambas de Baden e Vinicius” (1966), uma das pedras fundamentais da discografia brasileira.
Foi quando Aline acionou um pedal, criou base rítmica e, sobre a batida sintética, soltou a voz elástica no canto de “Lamento de Exu”, uma das oito músicas autorais do álbum gravado por Baden Powell (1937 – 2000) com Vinicius de Moraes (1913 – 1980), com arranjos e regências do maestro César Guerra-Peixe (1914 – 1993).
Ali, naquele momento solo, transpareceu no palco do teatro do Acaso Cultural – casa carioca que vem seduzindo artistas pela acústica exemplar – a afinação, a habilidade rítmica e a segurança absolutas dessa cantora carioca que, desde que entrou em cena em 2009, vem atuando nas brechas de um mercado refratário a artistas independentes que evocam tradições da MPB na contramão do pastelão pop-funk-sertanejo-pagodeiro-forrozeiro dominante no mainstream.
Paralelamente à carreira solo, Aline Paes faz desde 2019 duo com Pedro Franco, excepcional músico nascido em Porto Alegre (RS) e residente no Rio de Janeiro (RJ), cidade natal da cantora. Pedro se iniciou no cavaquinho aos sete anos. Aos 13 anos, passou para o bandolim. Aos 16, começou a tocar violão, instrumento no qual se firmou, já tendo dividido palcos e estúdios com cantoras como Maria Bethânia, Soraya Ravenle (com quem fez o show “Caminho” em 2022) e Zélia Duncan (com quem gravou assinou o álbum “Minha voz fica” em 2021 com músicas do cancioneiro de Alzira E).
O violão exuberante de Pedro Franco tem toque percussivo evidenciado ao longo da segunda apresentação do show “60 anos de afro samba” com Aline Paes (a estreia do show aconteceu em 20 de janeiro, na casa Blue Note Rio).
Exceto por ligeira falta de organicidade nas falas dos artistas, o show transcorreu com alto poder de sedução desde o primeiro número, “Canto de Iemanjá”, com Aline evocando nos vocalizes o canto da orixá rainha das águas, tal como a cantora Dulce Nunes (1929 – 2020) fez no álbum de 1966. Após o “Canto de Iemanjá”, cantora e violonista mergulharam nas águas de “Bocochê” sem a preocupação de reproduzir com fidelidade as gravações do disco.
Com seriedade e respeito por esse repertório embebido em negritude afro-brasileira, até por ter sido composto com inspiração em batuques e harmonias dos temas das religiões de matriz africana, Aline Paes e Pedro Franco brincaram sobre os ritmos de músicas como “Tempo de amor”, “Canto do caboclo Pedra Preta” – número incrementado com a percussão vocal da cantora – e “Canto de Ossanha”, composição sobre a qual sempre paira a sombra de gravações antológicas como a de Elis Regina (1945 – 1982).
Indo além do repertório do álbum, mas sem sair do universo do afrosamba, cantora e violonista deram a devida intensidade à inevitável “Consolação” (Baden Powell e Vinicius de Moraes, 1963), reacenderam a chama de “Labareda” (Baden Powell e Vinicius de Moraes, 1962) e celebraram o centenário maestro e compositor pernambucano Moacir Santos (1926 – 2006) – cuja obra, puro ouro negro, apontou caminhos para Baden Powell – com a lembrança de “Oduduá” (Moacir Santos com letra posterior de Nei Lopes, 2001).
Se Moacir inspirou o violonista fluminense, Baden norteou o caminho de Pedro Franco, que foi às lágrimas ao mencionar o antecessor, homenageado por Franco no samba “Black Powell” no momento solo do violonista. Cantora de apuradíssimo senso rítmico, Aline Paes mostrou, ao dar forma de afro-samba-canção a “Tristeza e solidão”, em número belíssimo, que pode (e deve) explorar os caminhos mais melódicos.
Encerrado com “Berimbau” (Baden Powell e Vinicius de Moraes, 1963), standard guardado para o bis pela força dessa composição ausente do álbum de 1966, o show de Aline Paes e Pedro Franco honrou o antológico disco, também celebrado em 2026 pelo cantor Marcos Sacramento e o violinista Zé Paulo Becker em show (estreado em março) e em ainda inédito álbum gravado com convidados como Ney Matogrosso e Roberta Sá.
É tempo de amor redobrado por esses afrosambas que, após 60 anos, ainda movem moinhos na música brasileira, seduzindo intérpretes do porte majestoso de Aline Paes e violonistas do naipe excepcional de Pedro Franco.
O canto de Aline Paes mostra total sintonia com o toque do violão de Pedro Franco no show ’60 anos de Afro samba’
Mauro Ferreira / g1
Adicionar aos favoritos o Link permanente.