Levantamento feito elo jornal “O Globo” mostra um fenômeno curioso: dos cinco governadores considerados bolsonaristas, apenas um (Jorginho Mello, de Santa Catarina) está plenamente engajado na campanha do senador Flávio Bolsonaro. Os demais (Tarcísio de Freitas, Celina Leão, Otaviano Pivetta e Eduardo Riedel) adotam nas redes sociais uma postura neutra e raramente mencionam o nome do candidato do PL.
No caso de Celina, do Distrito Federal, a explicação está no fato de a governadora ser muito ligada à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Celina acredita que Michelle seria uma opção melhor à corrida presidencial e, por isso, fica em cima do muro. Já Tarcísio esperava ser ele o escolhido por Jair Bolsonaro para disputar o Planalto. No entanto, o ex-presidente preferiu o seu filho. O governador paulista se conformou com a escolha, mas somente ontem saiu da toca: em evento voltado para o setor agropecuário, esteve ao lado de Flávio, elogiou-o e até tocou um berrante com o senador. Por fim, os outros dois da lista (Pivetta e Riedel) também declararam apoio, mas não demonstraram isso em suas redes.
Essa aparente neutralidade ocorre justamente depois de o vereador Carlos Bolsonaro ter cobrado de correligionários do Legislativo e de prefeitos um maior engajamento à campanha do irmão. Mas, por enquanto, não citou os governadores aliados.
O senador carioca se firmou como o principal nome da oposição, mesmo com todo o barulho criado pelo ex-governador Romeu Zema em sua briga com o Supremo Tribunal Federal. A última pesquisa Nexus mostra que Zema ultrapassou as intenções de voto do também ex-governador Ronaldo Caiado, chegando a 5%. Mas ainda está muito longe dos líderes.
Depois da derrota de 2022, a direita tem uma chance concreta de voltar ao poder e vencerr os petistas. Mas está perdendo tempo em disputas desnecessárias que alimentam a uma perigosa fogueira das vaidades. O pragmatismo, neste caso, parece ter sumido de cena.
O chanceler alemão Konrad Adenauer teve a missão de reconstruir seu país após a Segunda Guerra Mundial. Soube como poucos lidar com intempéries econômicas e políticas, costurando nós cegos e reerguendo um país das ruínas, com a moral corroída pela culpa e pela derrota. Ele dizia o seguinte: “O que importa não é ter razão, mas alcançar resultados”.
Trata-se de uma lição que precisa ser aprendida pela direita. Apesar de as pesquisas mostrarem que Flávio Bolsonaro está em pé de igualdade com Lula (que enfrenta grande rejeição), ainda há dúvidas no campo conservador sobre as chances do senador. Essa fase de avaliação, no entanto, já deveria ter ficado no passado. Como se dizia na campanha de 2018, esses direitistas resistentes talvez precisem aceitar a situação, pois vai doer menos.
A direita brasileira vive um momento em que a hesitação cobra seu preço e a disputa interna por protagonismo ameaça comprometer a chance de reconstruir um projeto competitivo. A advertência de Adenauer sobre a primazia dos resultados ecoa como lembrete de que política não se move pela sensibilidade dos egos e sim pela capacidade de organizar forças em torno de um objetivo comum. Enquanto parte dos aliados insiste em alimentar resistências pessoais, o tempo avança e a coesão necessária para enfrentar o governo atual permanece fragmentada. Aceitar o cenário posto, como já se dizia em 2018, talvez seja menos doloroso do que prolongar indefinições que só ampliam a fogueira das vaidades que hoje consome o campo conservador.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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