
Palestinos passam por pilhas de lixo e resíduos perto de tendas de deslocados em meio à proliferação de roedores em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza, em 27 de abril de 2026.
REUTERS/Haseeb Alwazeer
Ratos e parasitas estão se espalhando pelos acampamentos de tendas na Faixa de Gaza onde vivem palestinos deslocados pela guerra. Esses roedores estão mordendo as mãos e pés de crianças enquanto dormem, disseminando doenças e roendo os poucos pertences que restam a essas famílias.
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O surto ocorre enquanto a maioria dos mais de 2 milhões de habitantes de Gaza foi deslocada pela guerra entre Israel e o grupo terrorista Hamas. Muitos estão vivendo em casas destruídas por bombardeios e em tendas improvisadas montadas em terrenos abertos, à beira de estradas ou sobre as ruínas de edifícios destruídos.
Nesse ambiente, palestinos relatam um ambiente colapsado, com ratos mordendo pés e mãos de crianças durante a noite e cerca de 17 mil infecções relacionadas a roedores registradas em 2026, segundo a OMS. Leia mais abaixo.
Poucos dias antes de seu casamento, Amani Abu Selmi, deslocada com sua família em Khan Younis, no sul, descobriu que ratos haviam roído as roupas e bolsas de seu enxoval dentro da tenda desgastada onde estavam abrigados.
Ela e sua mãe mostraram à Reuters os buracos feitos pelos roedores em seu vestido — um traje tradicional bordô bordado, típico de casamentos palestinos.
“Todo o meu sentimento de felicidade acabou, virou tristeza, virou dor — porque minhas coisas desapareceram, meu enxoval desapareceu”, disse Abu Selmi, de 20 anos.
Noiva palestina Amani Abu Selmi segura roupas de lã roídas por ratos dentro de uma tenda em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza, em 26 de abril de 2026.
REUTERS/Haseeb Alwazeer
Ratos atacam enquanto as pessoas dormem
Um rato mordeu a mão e os dedos do pé do filho de 3 anos de Khalil Al-Mashharawi há algumas semanas, disse ele. Na última sexta-feira, ele próprio foi mordido.
Ele afirmou que ele e a esposa agora dormem em turnos para proteger os filhos e um ao outro de uma infestação que a família não consegue controlar nem combater, já que armadilhas para ratos são em grande parte ineficazes nas casas destruídas e nos acampamentos de tendas em Gaza.
“Eles atacam enquanto dormimos. (…) Eles podem desaparecer por um ou dois dias antes de atacar novamente, abrindo caminho por baixo dos pisos da casa”, disse Al-Mashharawi, de 26 anos, que vive com a família nas ruínas de sua casa no bairro de Tuffah, no norte de Gaza.
Mohamed Abu Selmia, diretor do maior hospital de Gaza, Al-Shifa, disse que espera que o problema piore com a aproximação do verão e diante da proibição israelense à entrada de materiais de controle de pragas, como veneno para ratos.
A ONU estima que cerca 80% dos prédios em Gaza foram destruídos ou danificados
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Israel geralmente restringe a entrada em Gaza de itens que afirma poderem ter uso militar ou civil.
Como parte do que descreveu como um esforço com “todos os atores e parceiros internacionais” para enfrentar o problema de saneamento, o Cogat —órgão militar israelense que controla o acesso a Gaza— disse que, nas últimas semanas, facilitou a entrada de cerca de 90 toneladas de materiais de controle de pragas e mais de mil armadilhas para ratos no território.
“Todos os dias, hospitais registram casos de pacientes internados devido a incidentes relacionados a roedores, especialmente entre crianças, idosos e doentes”, disse Abu Selmia.
Também há grande preocupação com a disseminação de doenças perigosas, incluindo febre por mordida de rato, leptospirose e até peste, acrescentou.
‘Um ambiente de vida colapsado’
Um cessar-fogo em outubro entre Israel e Hamas pouco fez para aliviar o sofrimento dos palestinos em Gaza, onde os sistemas de esgoto e saneamento foram em grande parte destruídos por Israel e a ajuda humanitária está sujeita a restrições israelenses.
Israel cita preocupações de segurança para impor restrições a Gaza, onde continua realizando ataques letais, afirmando agir diante de ameaças do Hamas. Mais de 800 palestinos foram mortos desde outubro, enquanto quatro soldados israelenses morreram no mesmo período.
Com a coleta de lixo praticamente interrompida, água contaminada e resíduos se acumularam perto das cidades de tendas onde famílias dormem, cozinham e se lavam. Isso criou um ambiente propício para a proliferação de roedores e parasitas, segundo organizações humanitárias.
Reinhilde Van de Weerdt, representante local da Organização Mundial da Saúde (OMS), disse que cerca de 17 mil casos de infecções relacionadas a roedores e ectoparasitas foram registrados em Gaza até agora neste ano.
“Essa é apenas a consequência infeliz, mas previsível, de quando as pessoas vivem em um ambiente de vida colapsado”, afirmou.
