O menino que expôs ao mundo o desastre nuclear de Hiroshima

Um menino carrega o irmão nas costas diante de um crematório em 1945, logo após o ataque nuclear em Nagasaki.Autor: Joe O’Donnell – Japão 1945, acervo do fotógrafo

Uma das imagens mais marcantes do desastre humano causado pelos bombardeios atômicos em Bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki retrata um menino que aparentava não ter 10 anos, em posição firme, carregando nas costas o corpo sem vida de seu irmão mais novo. Ele aguarda, em silêncio, na fila para a cremação.

A fotografia foi capturada por Joe O’Donnell, enviado pelo exército dos Estados Unidos para documentar a devastação e as consequências dos únicos ataques nucleares já realizados na história, ocorridos no Japão em 1945, já ao fim da Segunda Guerra Mundial.

Esse registro faz parte de uma extensa coleção de imagens produzidas pelo fotógrafo, mas este negativo em particular se destacou como um símbolo profundo do pós-guerra, sendo nomeado pelo fotógrafo como “o menino diante do crematório”

O que mais choca é sua postura impassível: não há choro, nem desespero visível, diante de uma realidade que nenhuma criança deveria enfrentar. Ali, ele, assim como outras famílias, participa de um ritual imposto pela tragédia. Não era um caso isolado. Centenas de corpos se acumulavam nas ruas, e famílias inteiras haviam sido destruídas, desintegradas.

Os sobreviventes, sem alternativa, carregavam os restos de seus entes queridos com as próprias mãos até as cremações. Não havia quem pudesse fazê-lo por eles, eram mortos demais, dor demais, devastação demais.

O’Donnell escreveria anos depois que observou o menino morder o lábio inferior até sangrar enquanto assistia à cremação do irmão. Não chorou. Não gritou. Não se moveu. Quando tudo terminou, virou-se e foi embora, em silêncio.

Historiadores japoneses olham para essa descrição com cautela, afinal, a memória também é construção. Mas concordam em algo essencial: Esta postura tinha um significado naquela época, refletia um traço profundo da sociedade japonesa do pré guerra a disciplina imposta desde tenra idade.

No Japão do período anterior à Segunda Guerra Mundial, a infância era fortemente moldada por uma cultura de disciplina rígida, autocontrole e contenção emocional. Desde cedo, crianças eram ensinadas a não externalizar sofrimento em público, a cumprir deveres familiares e sociais com obediência, e a priorizar o coletivo mesmo em situações de perda pessoal. Ou seja, sua postura não era natural era reflexo.

Sobre a identidade do menino, bem, ninguém sabe quem ele era e o que aconteceu com ele depois desta foto..

Décadas de pesquisa no Japão não conseguiram dar nome ao garoto. Ele permanece anônimo. Um entre milhares. Talvez tenha sobrevivido. Talvez tenha morrido dias depois, vítima da radiação invisível que continuava a matar muito depois da explosão. Há até análises sugerindo sinais físicos disso na própria imagem.

No fim, essa fotografia passou a funcionar como um aviso: a guerra não termina quando a bomba cai.

Ela continua nos corpos das crianças, no silêncio dos sobreviventes e naquilo que não consegue ser plenamente traduzido em palavras ou imagens. 

A imagem sugere um país inteiro ferido, traumatizado, e em ruínas. Mas ainda assim de pé. 

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