Por que os gatos bebem pouca água? Origem da espécie ajuda a explicar hábito que pode trazer riscos à saúde


Jeito de puxar a água e origem dos gatos ajudam a explicar hábito que pode trazer riscos
Manter o corpo hidratado é um dos fatores mais importantes para a saúde, seja no mundo dos humanos ou no mundo dos pets. No entanto, para algumas espécies, é preciso um “empurrãozinho” quando o assunto é tomar água. E quem são eles? Os gatos. Esse consumo de líquido se torna ainda mais importante no outono e inverno, quando o clima costuma ser mais frio e seco.
Os gatos domésticos descendem do Felis lybica, o gato selvagem africano. Na natureza, eles não são apenas predadores, também podem ser presas. Nesse cenário, sair para procurar água em algum lago ou rio podia ser perigoso, pois eles poderiam se deparar com predadores.
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Por causa disso, o organismo dos gatos se adaptou a lidar com uma menor ingestão direta de água, conforme explica ao g1 a médica veterinária especializada em medicina felina Larissa Dourado, de Dracena (SP).
“Só que tem um detalhe importante: na natureza, eles praticamente não precisavam beber água como a gente imagina. Eles se hidratavam pela alimentação. Como caçam pequenas presas várias vezes ao dia e comem o animal inteiro, incluindo vísceras, acabam ingerindo bastante líquido. Cerca de 70% dessas presas são água. Por isso a gente brinca que o gato, na natureza, ‘come’ a água”, conta.
Larissa Dourado, médica-veterinária especializada em felinos, dá orientações para tutores incentivarem a ingestão de água pelos gatos
Larissa Dourado/Arquivo pessoal
Larissa ainda explica que os ancestrais dos gatos viviam em ambientes mais áridos, o que fez com que o organismo deles fosse adaptado para aproveitar ao máximo a água presente na alimentação.
“Por isso, até hoje, o gato doméstico não tem aquele impulso forte de ir até a água, como, por exemplo, um cachorro teria”, diz ao g1.
Mas, no dia a dia do gato doméstico, essa característica herdada da origem da espécie pode se tornar um problema. Afinal, é um mito perigoso dizer que os felinos precisam de menos água do que outros animais.
“O que acontece é que eles aguentam ficar com menos água por mais tempo. Mas aguentar não significa que está tudo bem. Se a gente trouxer para o nosso mundo: é como alguém que passa o dia inteiro sem beber água. O corpo até funciona, mas isso não é saudável. Com o tempo, essa baixa ingestão hídrica pode trazer consequências importantes para a saúde do gato”, explica a veterinária.
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Problemas renais
Em média, os gatos domésticos devem ingerir entre 40 e 60 mililitros de água por quilo de peso por dia. Um ponto importante destacado pela veterinária é que essa água não precisa vir apenas do potinho.
“Se o gato come sachê ou alimentação úmida, ele já está ingerindo uma boa parte dessa água ali”, afirma.
Assim como acontece com os humanos, a ingestão inadequada de água pode favorecer problemas renais.
Sachê ou alimentação úmida, como os purês, ajudam na hidratação diária dos gatos
Stephanie Fonseca/g1
“Quando o gato bebe pouca água, a urina fica mais concentrada. Isso favorece a formação de cristais, que podem evoluir para inflamação da bexiga (cistite) ou até formação de pedras (cálculos)”, alerta.
Nos gatos machos, essa urina mais concentrada, com acúmulo de cristais, pode evoluir para um quadro grave: a obstrução urinária. Isso ocorre quando esses sedimentos se acumulam e “tampam” o fluxo da urina, principalmente ao final do pênis, no qual a uretra possui um diâmetro bastante estreito, e o animal fica impossibilitado de urinar.
“É uma emergência, extremamente dolorosa e que precisa de atendimento rápido”, ressalta.
Além disso, a desidratação crônica pode acelerar a perda da função renal ao longo da vida, o que influencia diretamente na longevidade do pet, segundo Larissa.
Assim como nos humanos, outros fatores também podem influenciar no surgimento de doenças. No caso dos gatos, a veterinária destaca a genética e a qualidade da alimentação.
“Tem gatos que já têm mais tendência a formar cristais, e a ração de baixa qualidade, por possuir quantidades desbalanceadas de minerais, também influencia no risco de formação de pedras, por exemplo”, explica.
Clima
No hemisfério sul, o outono começou às 11h45 de 20 de março e termina às 5h25 de 21 de junho, dando lugar ao inverno. A estação é considerada de transição entre o verão quente e úmido e o inverno frio e seco, que se estende até setembro.
Esse período de estiagem também pode refletir no consumo de água de humanos e animais.
“Em dias frios, quem é que tem vontade de levantar toda hora para ir beber água? A gente tende a ficar mais quietinho, mais debaixo da coberta… E com os gatos é igual. Eles procuram lugares mais quentinhos, ficam mais tempo parados, e isso diminui naturalmente a ida até o potinho”, diz a veterinária ao g1.
Durante essa fase, os tutores podem ajudar os pets a consumirem mais líquidos, oferecendo sachê com maior frequência, petiscos mais úmidos, como patê pastoso, que pode até ser diluído em água, e deixando potinhos mais próximos dos locais onde os gatos costumam descansar.
O jeito com que os gatos puxam a água interfere na quantidade de líquido ingerido
Reprodução/Pexels
Como estimular o consumo de água?
No dia a dia, algumas práticas simples podem incentivar os gatos a beberem mais água. Segundo a veterinária, uma das principais estratégias é o uso do sachê, pois ele imita o que aconteceria na natureza.
Outras estratégias que ajudam muito incluem:
Ter vários potes de água pela casa (ideal: número de gatos + 1);
Posicionar esses potes em locais estratégicos, longe do alimento e da caixa de areia;
Usar fontes de água, já que a água corrente costuma ser mais atrativa para os gatos;
Fazer brincadeiras como “sopinhas” ou até picolés de sachê ou purê.
A localização dos potinhos dentro da casa também faz diferença. Deixá-los em pontos de passagem e nos locais onde o gato costuma permanecer aumenta as chances de ele beber água várias vezes ao dia.
“Gatos gostam das coisas organizadas por função. É bem parecido com a gente: ninguém gosta de comer no banheiro, não é mesmo? Então, água, comida e caixa de areia devem ficar em locais separados, bem setorizados mesmo”, diz.
Outro fator que pode influenciar na hidratação dos gatos são ambientes muito fechados ou com ar-condicionado.
Larissa explica que ambientes com ar-condicionado costumam ser mais secos, o que favorece a desidratação. “Além disso, ambientes muito fechados e com pouco estímulo de atividade podem deixar o gato mais parado, o que também reduz o estímulo para beber água.”
“Tudo isso não só aumenta a ingestão de água, como também enriquece o ambiente, fortalece a relação tutor e gatinho, além de contribuir para a saúde e longevidade”, ressalta.
Deixar potes com água em pontos de passagem e nos locais onde o gato costuma permanecer aumenta as chances de ele se hidratar várias vezes ao dia
Stephanie Fonseca/g1
A veterinária também comenta sobre os tipos de recipientes utilizados para água. Segundo ela, o mais importante não é apenas o material, mas o conjunto material + formato + higiene.
“O inox, vidro e a cerâmica são mais neutros, ou seja, não alteram o sabor da água, não absorvem odores e são mais fáceis de higienizar. Agora, o plástico merece um pouco de atenção”, diz.
Os recipientes de plástico não são proibidos, mas podem ser um problema em alguns casos. A veterinária explica que, com o tempo, o material pode acumular microarranhões, favorecendo o acúmulo de bactérias, alterando levemente o gosto da água e, em alguns gatos, estando associado à acne felina. Nesses casos, a troca do tipo de material é recomendada.
“Mas, na prática, o que faz até mais diferença que o material é o formato do bebedouro. Gatos preferem potes largos, que não encostem nos bigodes. Sabe aqueles potes grandes de barro que geralmente os tutores compram para cachorros? É nesse que geralmente eles amam se hidratar! Às vezes, trocar só o potinho já aumenta a ingestão de água, simples assim”, indica.
Sinais de alerta
Segundo a veterinária, alguns comportamentos podem indicar baixa ingestão de água nos gatos. Entre os sinais de alerta estão:
Gato que come apenas ração seca;
Vai poucas vezes ao bebedouro;
Bebe muita água de uma vez só.
“Às vezes o tutor fala: ‘Ah, ele bebe bastante, fica um tempão no potinho’. Mas isso não quer dizer que ele esteja bem hidratado. Beber poucas vezes e ingerir uma grande quantidade de uma vez não é o ideal. Nem para nós, não é mesmo? O mais saudável é se hidratar em quantidades menores, mas várias vezes ao dia”, orienta.
Gatos costumam gostar de fontes e, consequentemente, ingerem mais água
Júlia Martins/g1
Sem ‘conchinha’
Uma curiosidade que Larissa conta, e que também ajuda a explicar por que cada “linguada” leva menos água ao organismo do gato, é que os felinos não fazem com a língua aquela “conchinha” como os cães.
“O cachorro faz tipo uma ‘conchinha’ com a língua e consegue puxar bastante água. Já o gato faz um movimento muito rápido, encosta a língua e puxa uma pequena coluna de água. Se a gente olha em câmera lenta, dá para ver que muita água nem chega a ser ingerida, ela escorre e retorna ao potinho, diminuindo a eficiência da ingestão”, continua.
Por isso, segundo Larissa, fontes com água em movimento podem ajudar na ingestão de água, pois facilitam esse processo, e a posição em que o gato bebe pode favorecer o consumo.
Outra curiosidade é sobre gatos que só bebem água na torneira quando o tutor abre.
“Parece fofo, mas pode virar um problema. Porque aí ele passa a depender da presença do tutor para se hidratar. E o gato gosta de rotina. Se ele associa que só bebe água naquele momento específico, pode acabar bebendo menos ao longo do dia. Nesses casos, as fontes que imitam o formato de torneira podem ajudar”, pontua.
Sachê faz mal?
Indicado como estratégia de hidratação, o consumo de sachê ainda gera muitas dúvidas entre tutores. Segundo a veterinária, é comum que alguns tenham receio de oferecer o alimento por medo de o gato rejeitar a ração seca.
“Nos cães, isso realmente pode acontecer, eles preferem o mais palatável e podem acabar rejeitando a ração ‘pura’. Mas com os gatos é diferente. Eles costumam amar a ração seca e comer independente de ter a oferta ou não do sachê na rotina. Então, quando o gato aceita sachê, a gente comemora! Porque isso impacta diretamente na hidratação e, consequentemente, na saúde a longo prazo”, continua.
Larissa acrescenta que é mito que o sachê faz mal por conta do sódio. Segundo ela, os produtos disponíveis no mercado, de forma geral, têm bom nível de qualidade e são seguros. “O grande benefício está justamente na umidade.”
“O sachê, inclusive, pode ser utilizado como alimentação única e isso é excelente para a hidratação. Só que, nesse caso, a gente precisa ter um pouco mais de atenção: escolher um produto que seja classificado como alimento completo e ajustar corretamente a quantidade diária pelo peso e nível de atividade. Isso evita tanto o ganho quanto a perda de peso por uma ingestão inadequada”, destaca.
Para essa opção, a veterinária pontua que existem marcas mais renomadas, com controle de qualidade mais rigoroso. No entanto, isso não significa que os sachês mais comuns, encontrados em pet shops e supermercados, sejam ruins.
“De forma geral, eles já são uma opção muito melhor do que uma dieta exclusivamente seca quando o assunto é hidratação.”
“Se um gatinho come uma ração seca de qualidade, ou seja, que seja classificada como super premium, e tem o sachê diariamente como fonte de hidratação, essa rotina é um formato muito bom para a saúde dele!”, diz.
Purês pastosos são uma ótima opção para ajudar na hidratação diária dos gatos
Stephanie Fonseca/g1
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