Rodovia na floresta: como a BR-319 foi da promessa de integração ao abandono no meio da Amazônia


Rodovia na Floresta: ecos da BR-319; da promessa de integração ao abandono
A BR-319 nasceu como promessa de integração, desenvolvimento e progresso. Cortou a floresta para ligar Manaus a Porto Velho, mudou cidades, transformou vidas e também abriu um debate que atravessa gerações.
📺 Na série “Rodovia na Floresta: Ecos da BR-319”, a Rede Amazônica percorreu a estrada para ouvir personagens que participaram da construção da via, moradores que viveram os tempos de movimento intenso e testemunhas do abandono que transformou a BR em uma estrada fantasma.
No primeiro episódio, você vai ver como surgiu o projeto da rodovia, os desafios da construção em plena floresta e as marcas deixadas por uma estrada que, décadas depois, ainda divide opiniões. Assista acima.
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O início do sonho
Lembranças de um projeto ousado: a abertura de uma rodovia federal na Amazônia. O engenheiro Orlando Holanda trabalhou na construção da estrada e conta que na década de 60 surgiu a necessidade de integrar a Amazônia Ocidental por via terrestre. Foram mais de 800 quilômetros mata adentro para interligar Manaus a Porto Velho, em Rondônia.
“Não era prioridade do governo federal porque sabiam das condições do projeto, de deixar obras prioritárias para o Sul e Sudeste, e investir numa estrada que você não tinha uma projeção de tráfego. Qual era o tráfego que ia existir em uma ligação entre Porto Velho e Manaus naquela época?”, conta.
Foram quase 10 anos de trabalho, até que, em 1976, foi inaugurada a BR-319. O historiador Célio Leandro revela que a estrada surge em dois contextos bem peculiares.
“Primeiro, a gente tem uma necessidade devido à criação da Zona Franca de Manaus. A Zona Franca é criada em 1957, mas é no início dos anos 60 que ela é organizada, estruturada, e há uma grande necessidade de escoamento dessa produção. Nesse contexto, surge a BR-319.”
“Os governos militares viam essa Amazônia muito solta e criaram alguns programas de integração nacional: integrar para não entregar”, completa o historiador.
Obras durante a construção da BR-319
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Com a rodovia, vieram mudanças e grandes expectativas. O comerciante Antônio Graças mora no município de Careiro, onde a rodovia tem início. Ele relembra que a perspectiva era de que, junto com a ligação terrestre, o progresso viesse para o estado.
“É lógico, evidente, que com a BR-319 construída, asfaltada, ia trazer progresso para a capital do estado e para todos nós, porque, com isso, os componentes que vêm da Ásia para o Polo Industrial de Manaus chegavam com mais rapidez e também saíam muito mais baratos através do serviço de transporte rodoviário, e não do serviço de cabotagem da região, que se torna muito difícil.”
A sede do município do Careiro nem sempre foi onde é atualmente. Ela ficava às margens do Rio Solimões, em uma área de várzea. O local era sempre impactado pelos períodos de cheia.
Ficou então decidido que a parte administrativa e alguns moradores seriam transferidos para uma área mais segura. Em 1977, a mudança foi feita para a margem da recém-construída BR-319.
A euforia durou pouco. A rodovia não recebia manutenção e, assim, a estrutura começou a apresentar problemas.
“O problema não está em abrir, o problema está em fazer manutenção, porque chove durante seis meses. A estrada está em uma zona de chuva que praticamente não tem tempo seco. Aqui em Manaus, que nós estamos em outra formação geomorfológica, já é difícil. Todo o pessoal reclama que a rua não tem asfalto, imagina em 600 quilômetros de estrada”, diz o engenheiro Orlando Holanda.
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Do sonho a destruição
A localização da BR também não era bem vista. Célio Leandro afirma que, no início dos anos 80, houve uma forte pressão internacional para a desativação da estrada.
“Ela já estava em desuso desde o final de 79, 78, mas, no início dos anos 80 há uma pressão não só sobre a BR-319, mas também um olhar internacional muito grande sobre a Amazônia, sobre o que se vivenciava aqui. Então, há uma série de pressões internacionais que vão minar interesses governamentais em manter essa rodovia. Sem dúvida nenhuma, você tem a ECO-92, que dá a facada final”, explica.
Na região do Igapó-Açu, conta-se que a rodovia virou um alvo fácil para ações criminosas. A empreendedora Nilda Castro dos Santos, que vive há décadas no entorno da BR-319, afirma que presenciou a ação de pessoas contratadas para destruir a estrutura da estrada.
“Eu não tive medo de perguntar ao motorista. Acenei com a mão, ele parou, desceu da máquina e falou: ‘o que você está precisando?’ Eu disse que ele estava destruindo uma pista de pouso muito boa, por sinal, uma pista de emergência. Aí ele respondeu: ‘eu estou sendo pago para fazer um trabalho, o resto não me importa’. Isso ficou gravado na minha mente até hoje.”
A destruição, segundo a moradora, continuou até a degradação total. “Eles colocaram dinamite e destruíram a cabeceira da ponte. Onde era asfalto, eles metiam a máquina e arrancavam.”
O presidente da Associação dos Amigos da BR-319, André Marsílio, diz acreditar que a rodovia sofreu com sucessivas sabotagens.
“Como é que some aquele pedaço de asfalto? Do nada desapareceu. Uma sabotagem que aconteceu no final da década de 80, 90, por interesses políticos na época para ter apenas o modal fluvial funcionando, e deixaram a 319 simplesmente desamparada.”
O que se sabe ao certo é que a BR foi se perdendo, ao ponto de se tornar intransitável no fim dos anos 80. A estrada passou a ser chamada de rodovia fantasma. Para Nilda, resta a lembrança de um tempo que ficou no passado.
“Minha família morava toda aqui, meus irmãos moravam todos aqui. A BR era muito boa, e eu posso dizer isso porque presenciei esse lado. Lá para frente tinha posto de gasolina, restaurante, e tudo foi se acabando.”
Rodovia BR-319 sofre com a falta de manutenção em trechos importantes.
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