
Não sou a única a acompanhar com assombro a deterioração da cobertura (pseudo) jornalística de Israel. Em certos momentos, ela lembra o comportamento de jogadores compulsivos: os veículos, convencidos de que estão diante de uma grande oportunidade, seguem elevando as apostas, tornando-se progressivamente insensíveis ao risco — e às consequências.
É neste ponto que o New York Times chegou. Depois de dois anos de cobertura desequilibrada da guerra no Oriente Médio — misturando crítica e distorção —, o veículo agora coloca sua reputação em jogo para alimentar seu público com a narrativa que lhe interessa. O interesse, nesse caso, é do veículo, não do leitor.
Cães estupradores
Na semana passada, o jornal finalmente chegou a um ponto de ruptura ao publicar um artigo que, por meio de fontes anônimas, afirma que Israel estaria treinando cães para estuprar prisioneiros palestinos em prisões israelenses.
Em outras palavras, o NYT derrubou o muro que sempre separou a grande imprensa de veículos ativistas que, irrelevantes, mas com grande engajamento, entregam ao seu público uma coletânea de deturpações, absurdos, fantasias e muita desinformação. Um momento triste do jornalismo e da história, que merece ser lamentado — e que, se não for penalizado, se consolidará como um precedente bastante nocivo.
Nicholas Kristof, o autor do artigo, tem um currículo premiado. É precisamente por isso que sua aposta é a mais reveladora. Um jogador experiente, que conhece as regras do bom jornalismo — a exigência de fontes identificáveis, a checagem de informações, o direito de resposta às partes envolvidas — e que, ainda assim, escolheu ignorá-las. Kristof trocou o rigor pela narrativa.
A reação negativa ao artigo repercutiu mundialmente, mas é difícil concluir se isso é um fato positivo. Afinal, se por um lado o público mais atento compreendeu a gravidade do ocorrido, por outro, esse libelo moderno viralizou. O governo israelense, vale registrar, já declarou a intenção de processar o jornal. Certamente, assim como aconteceu com outras acusações jamais comprovadas, como a de genocídio em Gaza, esse factóide será incluído na narrativa anti-Israel.
Thiago Ávila, o vendedor de factoides
Kristof não está sozinho nessa mesa de apostas. Em paralelo, Israel também está na mira do pescador Thiago Ávila, o brasileiro que, segundo suas advogadas, foi “sequestrado” por Israel durante uma “viagem de pesca” pela Grécia. Após sua deportação para o Brasil, ele tem usado suas muitas aparições em vídeos e entrevistas para contar histórias que não ficam atrás das de Kristof sobre os cachorros estupradores. Ambos apostam alto, ambos ignoram evidências e ambos encontraram uma audiência disposta a acreditar em qualquer coisa que vá contra Israel.
Ávila atira em todas as direções. Diz ter sido mantido em completo isolamento, mas afirma ter ouvido “companheiros e companheiras” palestinos sendo torturados nas celas ao redor. Afirma ter sido submetido a “torturas com métodos não convencionais” sem, no entanto, apresentar evidências ou explicar a que isso se refere. Cita o povo palestino, que segundo ele sofre genocídio e limpeza étnica há oito décadas, enquanto Gaza apresenta crescimento populacional médio de 2% ao ano.
Um dos canais brasileiros pró-Palestina que lhe dedicou meia hora de entrevista definiu a prisão em Israel como “masmorra”. Segundo Ávila, ativistas que o acompanhavam na flotilha teriam sido hospitalizadas após as torturas, muito embora todos os participantes da iniciativa, com exceção dele e de Saif Keshek, tenham sido levados à Grécia, não a Israel.
Kristof e Ávila são apostadores de natureza e nível distintos — mas jogam com as mesmas fichas, na mesma mesa, pelo mesmo objetivo. Ao que tudo indica, não têm intenção de parar. Cães estupradores e torturas já foram lançados à mesa — resta saber o que virá a seguir.
