
Periquito-cara-suja volta a se reproduzir na Serra da Ibiapaba após mais de 100 anos
Após mais de um século sem registros do periquito-cara-suja (Pyrrhura griseipectus) na Serra da Ibiapaba, na divisa entre Ceará e Piauí, a espécie voltou a se reproduzir na região.
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O projeto de reintrodução realizado pela Aquasis em parceria com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) já contabiliza 43 filhotes nascidos em liberdade no Parque Nacional de Ubajara.
Esse é um marco para a conservação da espécie e para a recuperação ecológica da Serra da Ibiapaba, considerada uma área de exceção no semiárido nordestino. O local reúne características da Caatinga, da Amazônia e da Mata Atlântica.
Periquito-cara-suja volta a nascer na região da Serra da Ibiapaba após mais de 100 anos
Anderson da Silva/Café com Graxa
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Segundo o biólogo Fábio Nunes, o desaparecimento do periquito-cara-suja e de outras espécies da região foi provocado principalmente pela caça, captura ilegal e desmatamento ao longo da história.
“Essa região possuía uma fauna muito mais rica no passado, com presença de onças-pintadas, queixadas, tamanduás-bandeiras, araras, papagaios e até arapongas-do-nordeste. Muitas dessas espécies desapareceram localmente, causando um empobrecimento das interações ecológicas”, explica.
Moradores, professores, artesãos, estudantes, guias turísticos e empresários da região passaram a atuar como aliados do projeto
ICMBio
Espécies raras e ambientes únicos
As áreas mais altas da Serra da Ibiapaba possuem clima úmido e vegetação diferenciada, permitindo a ocorrência de espécies raras e relictuais.
Entre elas estão aves como a maria-do-nordeste (Hemitriccus mirandae), o vira-folha-cearense (Sclerurus cearensis) e o arapaçu-rajado-do-nordeste (Xiphorhynchus atlanticus), além do guariba-da-caatinga (Alouatta ululata) e espécies pouco conhecidas de serpentes e lagartos.
Número de filhotes segue crescendo desde o início do monitoramento realizado neste ano
Fábio Nunes
Apesar da riqueza biológica, grande parte da floresta original foi devastada pela ocupação humana. Os remanescentes mais preservados estão concentrados principalmente nas encostas e no Parque Nacional de Ubajara, criado em 1959.
Foi justamente nesse cenário que surgiu o projeto de reintrodução dos periquitos-cara-suja. A iniciativa utiliza a chamada “soltura branda”, técnica em que as aves passam primeiro por um período de adaptação em viveiros instalados na própria área de soltura.
Os indivíduos são trazidos principalmente da Serra de Baturité, no Ceará, considerada a principal população fonte da espécie
Fábio Nunes
Os indivíduos são trazidos principalmente da Serra de Baturité, no Ceará, considerada a principal população fonte da espécie. Antes da soltura, passam por avaliações sanitárias, genéticas e comportamentais.
“Os viveiros são abertos de forma gradual, permitindo que os periquitos saiam espontaneamente, mas continuem retornando para alimentação suplementar e abrigo nos primeiros meses”, detalha Fábio Nunes.
Antes da soltura, os periquitos passam por avaliações sanitárias, genéticas e comportamentais
Fábio Nunes
Reprodução indica sucesso e desperta atenção
Além do nascimento dos filhotes, os pesquisadores já observam comportamentos considerados fundamentais para o sucesso da reintrodução, como independência alimentar, ocupação de territórios e reprodução em vida livre.
Mesmo assim, especialistas destacam que ainda é cedo para afirmar que a população seja totalmente autossustentável.
O periquito-cara-suja mede 23 cm de comprimento e pesa cerca de 63 gramas
Jonas Cruz/Aquasis/Reprodução
“O monitoramento genético é essencial para garantir a viabilidade da população no longo prazo e evitar problemas como o efeito fundador”, afirma o biólogo.
O número de filhotes segue crescendo desde o início do monitoramento realizado neste ano. Em março, o projeto havia registrado quase 50 ovos e 28 filhotes nascidos. Agora, o balanço consolidado aponta 43 jovens que já deixaram os ninhos.
Além disso, uma surpresa animou ainda mais os pesquisadores: um dos casais iniciou uma segunda ninhada estimulada pela longa quadra chuvosa deste ano. O casal colocou mais oito ovos, dos quais cinco filhotes já nasceram e seguem sendo acompanhados pela equipe.
Apoio da comunidade
Se no passado a captura ilegal contribuiu para o desaparecimento da espécie, hoje a relação da população local com os periquitos parece ser bem diferente.
Cara-suja é considerado o psitacídeo mais ameaçado de extinção no Brasil
Fábio Nunes/Aquasis
Moradores, professores, artesãos, estudantes, guias turísticos e empresários da região passaram a atuar como aliados do projeto. Segundo Fábio Nunes, é comum a equipe receber vídeos dos periquitos voando sobre a cidade e mensagens de moradores ajudando no monitoramento.
Entre os parceiros estão o Neblina Park Hotel, a Pousada Gruta, a Cooperativa de Condutores de Turismo de Ubajara (COOPTUR) e a prefeitura do município.
Espécie pode ajudar na recuperação ambiental
Além do simbolismo do retorno, o periquito-cara-suja desempenha funções importantes para o equilíbrio ecológico da Serra da Ibiapaba.
O periquito-cara-suja é uma ave exclusiva do Nordeste brasileiro que vive em pequenos bandos de 4 a 15 indivíduos
Fábio Nunes/Aquasis
Como outros psitacídeos, a espécie atua na dispersão de sementes e contribui para a regeneração das matas nativas. O retorno do periquito também fortalece o turismo de observação de aves e pode abrir caminho para novos projetos de reintrodução de espécies ameaçadas no Nordeste.
“Ele acaba funcionando como uma espécie bandeira para a conservação da região e como um abre-alas para futuros projetos de restauração ecológica”, conclui Fábio Nunes.
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