
Poucos filmes de terror nos últimos anos têm um começo tão promissor quanto “Backrooms: Um não-lugar”, que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (28). Até por isso, quase nenhum outro decepciona tanto no final – graças a uma conclusão que se perde ao tentar ser espertinha e indiferente, mas que soa um tanto arrogante.
Dá para justificar um pouco disso pela juventude do diretor. Aos 20 anos, o youtuber Kane Parsons (também conhecido como Kane Pixels) constrói uma adaptação tensa e instigante da série que criou na plataforma de vídeos em 2022.
Na maior parte do tempo, o estreante em Hollywood mostra um potencial tremendo. Sem se intimidar pelos dois atores indicados ao Oscar que encabeçam seu elenco, ele transforma a lenda urbana de fóruns da internet que inspira a história em uma trama absurda, claustrofóbica e até um tanto charmosa.
Assista ao trailer de ‘Backrooms: Um não-lugar’
Infelizmente, nos minutos finais, deixa escapar a maturidade que demonstrava até então e cede a instintos que cheiram a excesso de confiança.
Nem todo filme precisa de um desfecho lógico ou de uma explicação megaelaborada para questões sobrenaturais desde que respeite as próprias regras.
“Backrooms” podia terminar como quisesse, mas, ao introduzir elementos novos apenas para ignorá-los logo em seguida, gera uma frustração das mais compreensíveis – que quase bota tudo a perder.
Chiwetel Ejiofor em cena de ‘Backrooms: Um não-lugar’
Divulgação
Da internet para Hollywood
O filme é baseado na lenda urbana iniciada na internet em 2019. A partir da foto de uma sala corporativa com papeis de parede amarelos e carpete pelo chão, criou-se a ideia de espaço extradimensional infinito no mesmo estilo, acessado por quem sair meio sem querer da realidade.
“Backrooms” parte dessa premissa ao retratar o encontro do dono frustrado de uma loja de móveis (Chiwetel Ejiofor, indicado por “12 anos de escravidão”) com o lugar – e a busca de sua terapeuta (Renate Reinsve, indicada por “Valor sentimental”) após seu desaparecimento.
O elenco de respeito, mas enxuto, ajuda a manter a conexão do público com os personagens enquanto o absurdo do enredo evolui junto da estranheza dos ambientes.
Ejiofor, sempre ótimo, equilibra uma fraqueza muito humana com uma agressividade sutil, indispensável para o desconforto desejado pelo roteiro de Will Soodik (“Ash. vs. Evil Dead”) – e monta a fundação para o desespero mais honesto de Reinsve.
Renate Reinsve em cena de ‘Backrooms: Um não-lugar’
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O mistério contra a resposta
Mas o protagonista de “Backrooms” é mesmo o não lugar do título – e o clima de familiaridade sinistra presente em cada sala criada por Parsons. O jovem controla como um veterano do gênero a tensão do desconhecido atrás de cada quina ou debaixo de cada andar torto num ângulo levemente incomum.
Juntos, atuações e direção geram alguns dos momentos mais interessantes dos últimos anos no terror. O fascínio diminui exatamente quando o fenômeno começa a ser explicado. As respostas não deixam de ter algum valor, mas o mistério é muito mais atraente.
Ao final, o cineasta estreante mostra um paralelo quase irônico com seus personagens e se perde pelos corredores infinitos da própria ambição.
Tramas paralelas desnecessárias, que parecem jogadas apenas como referência à série, criam expectativas que nunca se cumprem e que deixam um retrogosto amargo em um enredo que ia tão bem abraçado com o ridículo.
Cartela resenha crítica g1
Arte/g1
Renate Reinsve em cena de ‘Backrooms: Um não-lugar’
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