
Após a privatização da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), em 2024, o número de reclamações contra a empresa mais que dobrou, segundo dados do Procon-SP.
Em 2025, primeiro ano completo após a privatização da companhia, foram registradas mais de 25,2 mil reclamações contra a Sabesp, mais que o dobro do total de 2024, quando houve 11,2 mil ocorrências. Em 2023, o número era ainda menor: 8,9 mil registros. Nos três primeiros meses de 2026, o Procon já contabilizou cerca de 8,8 mil reclamações contra a companhia. No mesmo período do ano anterior, haviam sido 4,3 mil registros, o que representa um aumento de 102,5%.
Entre as principais reclamações registradas pelo Procon estão cobrança indevida, cobrança de tarifas e cobrança por serviço não fornecido.
A Sabesp ocupou o primeiro lugar do ranking de reclamações do Procon em 2025. Segundo o órgão, apenas 31% das demandas registradas contra a companhia foram atendidas. A Enel ocupa a segunda posição da lista.
Além dos dados do Procon, plataformas como o Reclame Aqui e a Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp) também registraram aumento nas reclamações contra a empresa.
De acordo com o Reclame Aqui, foram registradas mais de 33 mil reclamações contra a Sabesp em 2025, um aumento de 72,8% em relação a 2024, quando a plataforma contabilizou 19,1 mil registros. Em ambos os anos, a reputação da empresa aparece como “não recomendada”.
A Arsesp também registrou crescimento no número de reclamações após a privatização da companhia. Em 2025, foram contabilizadas mais de 12,4 mil reclamações, mais que o dobro do registrado em 2024, que teve cerca de 5,7 mil ocorrências. Em 2023, o número era ainda menor, com aproximadamente 5 mil registros.
Até o momento, em 2026, a Arsesp já contabiliza 5,3 mil reclamações contra a Sabesp, número que se aproxima do total registrado em 2024 e já supera os registros de 2023. Entre as principais queixas recebidas pela agência estão problemas relacionados a faturamento, cobrança e descontinuidade no abastecimento.
Reclamações dos moradores
Eliane Verardo, moradora da Vila Medeiros, na Zona Norte de São Paulo, relatou ao iG que recebeu, na última semana, uma conta de água no valor de R$ 41 mil da Sabesp.

Segundo ela, os problemas começaram no início deste ano, quando a companhia teria alterado os nomes dos registros da casa dela com o de outro imóvel localizado no mesmo terreno.
Com a mudança, a residência da frente, onde vivem quatro pessoas, passou a receber a conta de Eliane, que mora sozinha. Já ela passou a receber as cobranças da outra casa. As contas de água, que costumavam ser de cerca de R$ 80, passaram a ultrapassar R$ 200.
Após inúmeras tentativas de resolver o problema por telefone, atendimento que Eliane descreveu como “falar com robôs”, ela decidiu ir pessoalmente até uma unidade da Sabesp, em março. Na ocasião, a empresa informou que o problema seria solucionado até 10 de abril.
No entanto, segundo ela, apenas na última semana, já em maio, dois funcionários da companhia compareceram ao imóvel. Um deles trocou o registro da residência.
Dias depois, Eliane recebeu uma nova cobrança que ultrapassava R$ 40 mil.
Mais uma vez, ela precisou ir pessoalmente até a Sabesp, onde afirma ter aguardado mais de três horas para ser atendida. Segundo Eliane, a companhia voltou a informar que o problema será solucionado em um prazo de 10 a 15 dias.
Eliane afirma que perdeu a confiança na empresa após meses tentando resolver o problema.
“Eu não confio em ninguém com o uniforme da Sabesp. Vou processar, porque eu não vou perder dia de trabalho porque a bonita da Sabesp não tem atendimento telefônico, ou email, ou chat. Isso é um problema deles, não meu”, disse.
Do outro lado da cidade, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, Amanda Ramos, de 45 anos, relata conviver há cerca de um ano com interrupções diárias no abastecimento de água.
Segundo ela, a água deixa de funcionar por cerca de 14 horas todos os dias, entre 18h30 e 8h30.
Amanda afirma ainda que, aos finais de semana, a pressão da água diminui significativamente, dificultando tarefas domésticas.
“Todos os dias chego atrasada no trabalho, pois preciso deixar baldes cheios de água. No meu almoço estou indo colocar roupa na máquina. Minha mãe mora em frente, é acamada, não conseguimos lavar os lençóis e roupas”, relatou.
Ela conta que, desde o início das interrupções, a conta de água passou a chegar em torno de R$ 500, apesar de morar apenas com o marido. Segundo Amanda, o aumento ocorreria por conta do ar que passa pelas torneiras durante os períodos de retorno da água.
A moradora afirma que os valores só diminuíram depois que instalou, por conta própria, um dispositivo para reduzir a entrada de ar, já que, com a falta de água, o encanamento fica cheio de ar e o relógio acaba disparando.
Amanda disse ainda possuir um ofício da prefeitura relacionado ao problema e afirmou já ter procurado a Sabesp diversas vezes. Segundo ela, a resposta da companhia é sempre a mesma: o envio de um técnico, que de acordo com a moradora, nunca apareceu no local.
A moradora de Jandira, na Região Metropolitana de São Paulo, Cinthia Oliveira, relatou que, após a instalação de um hidrômetro digital na casa de sua avó, a conta de água, que costumava vir em torno de R$ 100, passou para R$ 926.
Após o aumento inesperado, a mãe e a avó de Cinthia procuraram a Central de Atendimento da Sabesp para entender a cobrança. Cerca de oito dias depois, um técnico da companhia foi até a residência e constatou que não havia vazamentos no imóvel.
Mesmo assim, a conta continuava em aberto. Ao retornarem à Sabesp, elas levaram fotos do hidrômetro, que, segundo Cinthia, apresentava oscilações nos números.
“A gente percebeu que o relógio oscilava muito. Uma hora dava um número, outra hora dava outro. Fotografamos e mostramos para eles. O rapaz veio, viu que não tinha vazamento, então perguntamos se não poderia ser o relógio que estava causando o problema”, contou.

Segundo Cinthia, a Sabesp informou que enviaria um novo técnico à residência. Mais de 20 dias depois, ninguém havia comparecido ao local. Ao retornarem novamente à companhia, elas foram informadas de que havia apenas um técnico trabalhando na região.
Diante da falta de solução, Cinthia registrou reclamações no Reclame Aqui e na Arsesp. Segundo ela, a orientação partiu de um funcionário da própria Sabesp.
A segunda conta veio com um valor menor, de R$ 226, mas ainda acima do consumo considerado normal pela família. Como discordam das cobranças e afirmam não terem conseguido solução junto à companhia, elas decidiram não pagar os boletos e agora temem o corte no abastecimento de água.
Acidentes com mortes
Desde a privatização, a Sabesp também esteve envolvida em ao menos quatro acidentes que resultaram em seis mortes.
Jaguaré

O caso mais recente ocorreu em 11 de maio deste ano, na Comunidade Nossa Senhora das Virtudes II, no Jaguaré, Zona Oeste de São Paulo.
Segundo o Corpo de Bombeiros, uma obra realizada pela Sabesp atingiu uma tubulação de gás, provocando uma explosão na comunidade.
Alex Sandro Fernandes Nunes, de 49 anos, morreu no local. Três dias depois, foi confirmada a morte da segunda vítima, Francisco Altino, de 62 anos, que sofreu traumatismo craniano.
Mairiporã

Em março deste ano, o rompimento de um reservatório de água da Sabesp matou Francisco Antônio da Silva Vieira, de 44 anos, funcionário da companhia, em Mairiporã, na Grande São Paulo.
De acordo com a empresa, Francisco trabalhava na construção da estrutura quando ela rompeu durante a fase de testes. A enxurrada provocada pelo rompimento também destruiu casas na região.
Mauá

Em setembro de 2025, Cleia dos Santos Pimentel, de 79 anos, morreu após ser atingida por uma tubulação da Sabesp enquanto estava dentro de casa, em Mauá, no ABC Paulista.
Segundo a companhia, a tubulação se soltou durante o içamento por conta do excesso de peso. O equipamento seria instalado para abastecer um reservatório da região.
Cleia morreu no local antes da chegada do socorro.
Ubatuba

Dois funcionários de uma empresa terceirizada da Sabesp morreram soterrados durante uma obra em Ubatuba, no litoral norte paulista, em março de 2025.
Segundo o Corpo de Bombeiros, as vítimas, de 24 e 40 anos, trabalhavam na implantação do sistema de esgotamento sanitário quando parte da estrutura cedeu. Ambos morreram no local.
Privatização
Em julho de 2024, a Sabesp, considerada a maior companhia de saneamento do país e responsável pelo abastecimento de cerca de 30,2 milhões de pessoas, foi privatizada pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
Com a operação, a participação do Estado de São Paulo no capital social total da companhia passou a ser de 18%. A venda gerou R$ 14,8 bilhões aos cofres do governo paulista.
O que diz a Arsesp
Procurada pelo iG, a Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp) informou, em nota:
“A Arsesp já aplicou penalidades à Sabesp tanto por descumprimento de metas e indicadores regulatórios quanto em decorrência de falhas na prestação dos serviços. Em 2024, considerando os períodos de administração pública e concessionada, foram realizadas 37 autuações à companhia, somando R$ 250,78 milhões. Desse total, 12 autuações ocorreram após a concessão, totalizando R$ 33,14 milhões, sendo parte delas relacionada a fatos originados ainda na gestão pública da empresa. Em 2025, já sob o novo contrato de concessão, foram aplicadas 15 autuações, no valor total de R$ 232 milhões. Em 2026, até o momento, a Arsesp realizou 132 fiscalizações, das quais resultaram 20 autuações, que somam aproximadamente R$ 26 milhões”.
Desde o dia 28 de maio, o iG solicita um posicionamento da Sabesp sobre os temas abordados nesta reportagem. Até o momento, a companhia não respondeu aos questionamentos enviados. O espaço permanece aberto para eventual manifestação da empresa.
