O custo invisível de levar combustível a todos os postos do Brasil

Posto de gasolina. Foto: AgГѓВЄncia Brasil, Rovena Rosa

Levar combustível a todos os cantos do Brasil envolve uma operação logística que vai muito além do trajeto entre a base de distribuição e o posto. Em um país de dimensões continentais, com diferenças profundas de infraestrutura entre as regiões, o abastecimento depende de escala, planejamento, investimentos e mecanismos de equilíbrio de custos.

A distribuição representa cerca de 5% do valor pago no diesel pelo consumidor final. Apesar de parecer uma parcela pequena dentro da formação do preço, esse percentual sustenta uma etapa essencial para que esse combustível  chegue de forma regular a regiões urbanas, áreas rurais, cidades isoladas e localidades com acesso mais complexo.

Por que a logística pesa tanto em algumas regiões?

A complexidade do abastecimento varia conforme a localização. Em regiões com malha rodoviária mais estruturada, maior densidade populacional e maior volume de consumo, a distribuição tende a operar com mais escala. Já em áreas de difícil acesso, como partes do Norte e do Nordeste, os custos logísticos podem ser proporcionalmente maiores.

Estados como Amazonas e Maranhão ilustram esse desafio. Em determinadas localidades, o transporte depende de infraestrutura fluvial, deslocamentos mais longos, menor frequência de rotas e estruturas de apoio mais caras. Isso faz com que o custo de abastecer essas regiões seja diferente daquele observado em grandes centros urbanos ou corredores logísticos consolidados.

Para Bruno Pascon, cofundador e diretor da CBIE Advisory, a escala nacional das distribuidoras é o que permite diluir parte desses custos. “A diluição do custo fixo pela atuação nas diferentes regiões do país é o que permite o atendimento de regiões deficitárias”, pondera.

Na prática, isso significa que a operação em áreas com maior eficiência logística ajuda a equilibrar o atendimento em locais onde a entrega é mais cara. Esse modelo funciona como uma forma de amortecimento de custos, reduzindo o risco de que regiões remotas fiquem sujeitas a preços muito mais altos ou a maior instabilidade no fornecimento.

O que aconteceria sem esse equilíbrio?

Sem esse modelo de compensação, as distribuidoras poderiam concentrar suas operações apenas nas regiões de menor custo e maior margem. “Caso as distribuidoras optassem somente pelo atendimento de regiões de menores custos logísticos e, portanto, maiores margens operacionais, o objetivo de se garantir o abastecimento em todo o território nacional seria comprometido”, afirma o cofundador da CBIE Advisory.

O executivo destaca que o equilíbrio entre regiões menos e mais complexas depende de uma combinação de fatores. Entre eles estão a diluição de custos fixos, a manutenção de uma base de clientes em diferentes localidades, o mix de produtos, investimentos em bases secundárias de armazenamento e estratégias para reduzir distâncias.

Distribuição também é integração nacional

O debate sobre combustíveis costuma se concentrar em impostos, preço internacional do petróleo, margem de refino e variações nas bombas. No entanto, a etapa da distribuição ajuda a explicar uma parte menos visível da cadeia: o esforço para integrar regiões com realidades logísticas muito distintas.

Essa operação tem impacto econômico direto. O combustível abastece caminhões, embarcações, transporte público, máquinas agrícolas, serviços essenciais, cadeias industriais e comércio local. Quando a distribuição funciona, ela sustenta a circulação de pessoas, mercadorias e serviços em diferentes pontos do país.

Pascon também chama atenção para distorções competitivas no setor. Segundo ele, o alto nível de tributação nos combustíveis abriu espaço para agentes que competem de forma irregular, com impacto sobre margens e participação de mercado das empresas formais. O executivo cita a atuação de devedores contumazes, sonegação de impostos e adulteração de combustíveis como fatores que prejudicaram o ambiente concorrencial.

Transição energética pode mudar essa equação?

A discussão logística também se conecta à transição energética. Com o avanço de biocombustíveis, biometano, combustível sustentável de aviação, conhecido como SAF, e outras soluções de baixo carbono, o desafio não será apenas produzir novos combustíveis, mas também integrá-los à infraestrutura de abastecimento.

Para Pascon, os biocombustíveis podem ajudar a reduzir parte do custo logístico, em vez de ampliar o problema: “Quando analisamos o potencial nacional de produção de biogás e biometano, 95% do potencial é oriundo de resíduos agrossilvopastoris que estão espalhados em todo o território nacional, em particular nas regiões que concentram a produção agropecuária brasileira. Logo é exatamente essa capilaridade e distribuição em todo o território do potencial de biogás e biometano que levou ao setor a cunhar o termo Pré-Sal caipira, ou no âmbito de segurança energética uma fonte de geração distribuída renovável, mas não intermitente”. 

Por que isso importa para o consumidor e para a economia?

A integração logística do combustível é um tema central para o consumidor porque afeta preço, abastecimento e previsibilidade. Para empresas e investidores, o assunto também importa porque envolve infraestrutura, competitividade, segurança energética e planejamento de longo prazo.

Em um país continental, levar combustível aos rincões mais distantes não é apenas uma operação comercial. É uma engrenagem econômica que conecta regiões, sustenta cadeias produtivas e reduz o risco de desabastecimento em áreas onde o custo logístico é desproporcionalmente maior.

 

Essa reportagem é parta da campanha Combustível Brasil – Segurança energética move a economia.

 

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