Hiato do produto: o indicador que mostra se a economia está aquecida ou fraca

Quando economistas falam em “economia aquecida” ou “economia fraca”, eles não estão apenas usando metáforas. Existe um conceito técnico por trás disso, chamado hiato do produto, ou output gap, e ele é mais importante do que parece.

De forma simples, o hiato do produto é a diferença entre o que um país está efetivamente produzindo e o que ele poderia produzir se estivesse usando todos os seus recursos de maneira eficiente. Esses recursos incluem trabalhadores, máquinas, tecnologia, fábricas e infraestrutura. Ou seja, é como comparar o “desempenho atual” da economia com seu “potencial máximo sustentável”.

Imagine a economia como uma pequena sorveteria. Você fabrica e vende uma certa quantidade de sorvetes diariamente, porém sua máquina e seu colaborador estão sendo subutilizados. Mas, por motivos meramente didáticos, a demanda por sorvete aumenta na sua região e você, sem precisar investir em outra máquina ou contratar mais um funcionário, consegue absorver esse aumento nas vendas. Esse espaço, ou essa situação, é o hiato do produto.

Quando o país está produzindo menos do que poderia, temos um hiato negativo. Isso normalmente acontece em momentos de crise, desemprego alto e baixa confiança. Empresas produzem menos porque vendem menos. Máquinas ficam paradas. Gente capacitada fica sem trabalho. É como se a economia estivesse andando com o freio puxado.

Por outro lado, quando a economia está produzindo acima do que seria sustentável no longo prazo, temos um hiato positivo. A princípio, parece ótimo: crescimento forte, consumo aquecido e empregos surgindo. Mas há um risco: pressão inflacionária. Com muita demanda e pouca capacidade extra para produzir, os preços tendem a subir. É aquele clássico “muita gente querendo comprar, pouca oferta disponível”.

O hiato do produto é um dos principais indicadores observados por bancos centrais na hora de decidir juros. Se o hiato está muito negativo, pode ser sinal de que há espaço para estimular a economia, reduzindo juros ou aumentando investimentos públicos. Se está muito positivo, pode indicar que é hora de apertar o cinto para evitar inflação fora de controle.

E aqui entra um ponto interessante: medir o hiato do produto não é tarefa simples. Diferentemente do PIB, que é um número concreto divulgado oficialmente, o “produto potencial” é uma estimativa. Ele depende de modelos econômicos, projeções de produtividade e análise da capacidade instalada do país. Ou seja, há margem para debate, sim, e bastante debate.

Diante disso, entende-se que o hiato do produto conversa diretamente com o mercado de trabalho. Quando o desemprego está alto, geralmente o hiato é negativo. Quando há escassez de mão de obra e os salários sobem rapidamente, pode ser sinal de que a economia está operando acima do seu potencial. Usei as expressões “geralmente” e “pode ser sinal” porque esses indicadores podem ser influenciados por fatores específicos, como divergências nas políticas assistenciais e alterações na leitura da NAIRU.

Em tempos de inflação persistente ou crescimento fraco, entender o hiato do produto ajuda a enxergar o que está acontecendo nos bastidores da economia. Ele mostra se o problema é falta de demanda, excesso de estímulo ou limitação estrutural da capacidade produtiva.

No fim das contas, em condições normais, o hiato do produto funciona como um “raio-x” da atividade econômica. Ele revela se o país está desperdiçando potencial ou forçando demais a máquina. E, em um cenário global cheio de incertezas, saber exatamente onde estamos entre o “abaixo do ideal” e o “acima do limite” faz toda a diferença nas decisões que moldam emprego, renda e inflação.

*Coluna escrita por Rui das Neves, administrador de empresas, investidor e possui vasta experiência no como incorporador imobiliário.

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