
De benefício financeiro aos servidores públicos do Distrito Federal a armadilha para o bolso: uma cobrança oculta e embutida com taxas que chegam até 2.612% ao ano, foi o gatilho para o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) deflagrar a Operação Juros Zero na manhã desta sexta-feira (19). As investigações apuram esquema fraudulento em folhas de pagamento do Governo do Distrito Federal (GDF) que gerou desvio de mais de R$ 81 milhões do funcionalismo público nos anos de 2024 a 2025.
O Banco Regional de Brasília (BRB) e a carteira digital PicPay são peças centrais das investigações. A fintech era a operadora de uma ponta do esquema, a subsidiária do banco, a BRB Serviços, aparecia no meio do caminho funcionando como uma espécie de “pedágio”. Só o banco brasiliense faturou R$ 8,9 milhões para apenas processar e aprovar nos contracheques do GDF os descontos.
Protagonizam entre as investigações o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa; Eduardo Chedid Simões diretor do PicPay e o ex-secretário de Economia do DF, Ney Ferraz. Os três são investigados por suposta lavagem de dinheiro, organização criminosa e corrupção ativa, e passiva.

Operação deflagrada
Segundo o MPDFT, as equipes do Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) cumprem 50 mandados de busca e apreensão expedidos pelo Conselho Especial do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT), em Curitiba (PR), São Paulo (SP) e também em Brasília (DF). Não houve prisões.
Cerca de R$ 90 milhões das contas de dois dos principais envolvidos no esquema foram bloqueados por medida cautelar judicial: a empresa de pagamentos PicPay e a Associação dos Servidores Públicos do Distrito Federal (ASDF). Segundo o MPDFT, esse dinheiro será garantia do ressarcimento dos servidores lesados pela organização criminosa.
O sistema camuflado dos juros disfarçados
O PicPay era credenciada como plataforma digital que operava no programa de antecipação salarial do funcionalismo público. Já a ASDF é uma entidade de classe apontada por ter recebido repasses suspeitos no período de vigência do programa de benefício aos servidores públicos. Nos registros constam que a associação recebeu de repasses em 2025, R$ 1,49 milhão, sendo que em 2023 registrou recebimento de R$ 3 mil.
Um decreto do DF que foi publicado em agosto de 2024 foi base para a modelagem financeira do esquema. O documento instituiu um programa financeiro de benefício ao servidor público que antecipava o salário sob a garantia explícita de “juro zero”. A cobrança de juros tradicionais era vetada nas regras do programa.
Porém, operadores financeiros do sistema criaram um caminho alternativo: o valor antecipado era liberado através de uma plataforma digital sob a justificativa de ter uma taxa administrativa ou “tarifa de antecipação”.
Essas cobranças aos servidores iam de 2,99% a 7,55% para prazos menores que um mês. Só que segundo o MPDFT, quando fez o cálculo dos juros compostos no período de um ano, a tarifa cobrada mensalmente estourava, chegando a 2.612% por ano, o que configura, segundo os investigadores, em dano coletivo ao consumidor e ainda, crime contra a economia.
Corte nos prejuízos
A Operação Juros Zero de hoje estanca o estrago finanaceiro nas folhas de pagamento do funcionalismo público e desmantela a suposta organização fraudulenta. A busca e apreensão que ocorre na capital paulista é direcionada à sede do PicPay. Os investigadores apontam que “as cabeças” da engenharia financeira e administrativa do esquema está no DF na figura do BRB e BRB Serviços S.A., sua subsidiária. Elas aparecem noutra ponta do esquema.

A PicPay, BRB e ASDF se conectam pela folha de pagamentos dos servidores do GDF. Nenhum banco privado desconta se quer um real do contracheque de um funcionário sem passar pela autorização do Banco de Brasília.
As investigações mostram que o BRB cobrava uma “comissão” de serviço para autenticar e processar na folha, os descontos encaminhados pelo PicPay. De acordo com levantamento das autoridades, entre 2024 e 2025, o montante dessas comissões pelas transações eletrônicas aprovadas, rendeu ilegalmente ao BRB R$ 8,9 milhões.

O outro lado
Em posicionamento oficial enviado ao iG, o PicPay diz não reconhecer as operações mencionadas:
Até o fechamento dessa matéria a Secretaria de Economia do DF e BRB não responderam à redação do iG. O espaço segue aberto para manifestações.
