“Inflação desancorada limita BC e aumenta risco de recessão em 2027”, alerta economista

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A desancoragem da inflação no Brasil deixou de ser um indicador de alerta para se tornar uma restrição concreta à condução da política monetária. Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, argumenta em entrevista à BM&C News que o Banco Central enfrenta agora um dilema sem saídas confortáveis: manter juros suficientemente restritivos para ancorar expectativas ou evitar uma recessão que pode chegar em 2027 se a dose for excessiva.

O Boletim Focus acumula 15 semanas consecutivas de revisão para cima nas projeções de inflação para 2026, situando-se bem acima do teto da meta. Para Agostini, essa persistência não é apenas reflexo de choques externos, como o conflito no Oriente Médio, mas resultado de uma combinação entre política fiscal expansionista e crescimento do PIB impulsionado por estímulos públicos que retroalimentam a inflação.

O crescimento fiscal não é neutro, ele pressiona preços quando vem pela demanda

Na análise de Agostini, o Brasil vive um quadro de expansão econômica que não deriva de ganhos de produtividade ou reformas estruturais, mas de injeção de recursos públicos que aquecem a demanda das famílias. O mercado de trabalho aquecido e o consumo elevado criam uma dinâmica inflacionária que a política monetária, sozinha, tem dificuldade de neutralizar sem efeitos colaterais severos.

A comparação com o Federal Reserve americano reforça a especificidade do caso brasileiro. Enquanto nos Estados Unidos a desancoragem reflete choques de oferta e ajustes pós-pandemia, no Brasil ela tem raiz fiscal.

O especialista da Austin Rating observa que a comunicação do Banco Central tem sido interpretada como hawkish por parte do mercado, mas a decisão de cortar juros mesmo nesse contexto revela a complexidade do balanço entre riscos.

A taxa real ainda é restritiva, mas o tempo para manter essa dose é limitado

Segundo Agostini, a taxa de juros real brasileira permanece em patamares elevados, suficientes para frear a atividade econômica se mantidos por tempo prolongado. O problema, na visão do analista, é que trazer a inflação para a meta de 3% sem provocar uma contração severa tornou-se um exercício de precisão que depende não apenas de modelos econômicos, mas de fatores subjetivos como expectativas eleitorais e a percepção do mercado sobre a disciplina fiscal futura.

A comunicação do BC, portanto, não pode ser lida apenas como técnica. Ela carrega uma aposta implícita: a de que o mercado absorverá sinais de pragmatismo sem interpretar como abandono da meta.

“O risco é calibrar mal essa mensagem e amplificar a desancoragem em vez de contê-la”, alerta Agostini.

O erro não está em cortar ou manter, está em não saber até onde ir

O dilema do Banco Central, na leitura de Agostini, é que ambas as escolhas carregam riscos assimétricos. Manter juros altos demais pode levar a economia à recessão em 2027, com impactos sobre emprego e crédito. Cortar rápido demais pode consolidar a desancoragem e exigir um aperto ainda mais severo no futuro. A política monetária, argumenta, tornou-se uma negociação entre o curto e o longo prazo, onde a janela de manobra se estreita a cada semana de revisão do Focus.

O cenário eleitoral adiciona camadas de incerteza. As expectativas de inflação para 2026 incorporam não apenas a trajetória fiscal atual, mas a percepção de continuidade ou ruptura nas políticas econômicas após as eleições. Isso torna a ancoragem das expectativas um desafio que transcende a taxa Selic e adentra o terreno da confiança institucional.

A desancoragem da inflação, nesse contexto, é sintoma de algo maior: a dificuldade de construir previsibilidade em um ambiente de alta incerteza política e fiscal.

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