O movimento católico ultraconservador que desafia o papa e cresce no Brasil com missa em latim e padre de costas


Igreja da Fraternidade Sacerdotal São Pio X em São Paulo: congregação tradicionalista reza missas em latim
Reprodução/BBC
A cena é muito diferente das que se costumam repetir nas manhãs de domingo nas milhares de igrejas católicas espalhadas pelo Brasil.
Depois de um silêncio solene, o som de sinos e um cheiro forte de incenso anunciaram o início da missa das 9h na pequena capela da Fraternidade Sacerdotal São Pio X no bairro da Vila Mariana, em São Paulo, no último domingo de Pentecostes, no fim de maio.
O padre entrou com seus diáconos pelo corredor principal carregando um turíbulo, um objeto de metal com correntes que ele balançava para frente e para trás, como uma espécie de metrônomo no ritmo das preces que recitava de forma melodiosa em latim.
Parou de frente para o altar e lá ficou por cerca de uma hora, os olhos voltados para o Jesus crucificado, as flores e os castiçais sobre o altar enquanto celebrava a cerimônia.
Atrás dele, casa cheia: com os bancos todos ocupados, os fiéis se amontoavam de pé nas laterais da igreja e nas escadas que davam para o mezanino do segundo andar. A maioria não precisava da ajuda dos livrinhos de traduções disponíveis no caixote na entrada para acompanhar as rezas em latim.
Tirando o vermelho com dourado das vestes do padre, predominavam as cores sóbrias. As mulheres e meninas vestiam saias e vestidos longos e usavam lenços de renda para cobrir os cabelos.
A Fraternidade Sacerdotal São Pio X é uma das congregações que se recusam a aceitar as reformas modernizantes que o Vaticano fez nos anos 1960. Continua celebrando missas como no período medieval, em latim, com o padre de costas para os fiéis na maior parte do tempo.
Nasceu em 1970 na Suíça, e desde então desafia a Santa Sé. Em 1988, seu fundador, o arcebispo francês Marcel Lefebvre, chegou a receber o castigo mais severo da Igreja Católica: foi excomungado depois de nomear quatro novos bispos sem autorização do papa João Paulo 2º.
Consagração dos novos bispos em 1988 por Marcel Lefebvre, fundador da FSSPX
Reuters
Mesmo com a punição, que proíbe a participação na comunhão e em outros ritos e sacramentos católicos, a congregação cresceu. Se internacionalizou, entrou na América do Sul pela Argentina e nos últimos 20 anos vem ganhando força no Brasil, embalada pelo avanço de correntes conservadoras entre católicos brasileiros.
Diante da expansão, o grupo quer novamente nomear bispos. Mais uma vez, o Vaticano não autoriza.
A celebração está marcada para o próximo dia 1º de julho na cidade suíça de Écône. Na missa da Vila Mariana, no breve momento em que falou português, o padre convidou os fiéis que quisessem se juntar à comitiva brasileira a irem ao evento na Europa. E pediu a todos orações pelos novos bispos.
A Santa Sé já avisou que as sagrações sem consentimento papal vão ser interpretadas como uma ruptura formal com a Igreja — e que serão novamente punidas com excomunhão.
“A excomunhão é algo raríssimo de acontecer”, diz o historiador Vinícius Couzzi Mérida, mestre e doutor em Ciências da Religião. “Uma coisa que acontece uma ou duas vezes por século.”
Por que agora então?
Livretos reunidos em um caixote na entrada da igreja traduzem parte dos rituais para o português
Reprodução/BBC
Choque entre tradição e modernidade
A explicação passa pela maior reforma da história moderna da Igreja Católica, o Concílio do Vaticano 2º, uma assembleia de bispos que aconteceu entre 1962 e 1965 e mudou profundamente a maneira como se celebra a missa católica.
Até aquela data, o padre só rezava em latim, mesmo que os fiéis não entendessem o que ele falava, e a leitura e interpretação da Bíblia estava concentrada nos membros da hierarquia da Igreja, como sacerdotes e bispos.
Com o concílio, a língua oficial passou a ser o idioma local de cada paróquia. A Igreja começou a incentivar a aproximação dos fiéis da Bíblia, a formação de grupos leigos de leitura dos textos religiosos, e se abriu “ao diálogo com as religiões não cristãs e à liberdade de consciência [a ideia de que a religião é uma escolha individual e não deve ser imposta, por exemplo, pelo Estado]”, como explica Mérida.
Foi um movimento progressista, que desagradou a ala católica mais conservadora.
Uma dessas figuras foi o arcebispo francês Marcel Lefebvre, que em 1970 fundou na cidade suíça de Friburgo o Seminário Internacional São Pio X como uma reação a essas mudanças.
A ideia era que o local se tornasse um centro para formação de padres que desejassem conservar o modelo de Igreja “tradicional”, que existia antes do concílio.
Foi um entre diversos movimentos que nasceram em um período em que o moderno e o antigo entraram em choque no catolicismo. Segundo Mérida, mais de 40 mil padres deixaram o sacerdócio nessa época.
“Muitos padres e seminaristas entenderam que a Igreja estava num processo de ruptura para o nascimento de uma outra igreja, mais progressista, alinhada ao mundo moderno. Isso, de fato, causou muita confusão”, ressalta.
Da Suíça, a FSSPX se expandiu para a França, Alemanha, Estados Unidos, Argentina e até para a Oceania.
Fiéis reunidos após missa de domingo: capela em São Paulo começou com um imóvel doado no início dos anos 2000
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A chegada no Brasil
A entrada e crescimento da FSSPX no Brasil tem relação com outro grupo de católicos tradicionais, a Diocese de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro.
Assim como a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, a Diocese de Campos também rejeitava o Concílio do Vaticano 2º e celebrava a missa tridentina, em latim.
As duas congregações eram bastante próximas, aliás. Um dos bispos da diocese, Dom Antônio de Castro Mayer, chegou a participar da ordenação dos bispos da Fraternidade e foi excomungado junto com Lefebvre em 1988.
Depois de anos de ruptura, contudo, em 2002 a diocese fez as pazes com o Vaticano. Aceitou a proposta de reconciliação do papa João Paulo 2º, que permitiu que seus párocos continuassem celebrando a missa tridentina, desde que finalmente aceitasse o Concílio Vaticano 2º.
“Os ‘padres de Campos’ pediram perdão e voltaram à plena comunhão com a Santa Sé — e por isso foram chamados de traidores pelos antigos aliados da Fraternidade Sacerdotal São Pio X”, afirma Mérida.
Um grupo de fiéis que também desaprovou o aceno da diocese ao Vaticano e não queria mais assistir às missas celebradas por seus padres pediu então que a Fraternidade passasse a atuar no Brasil.
Via de regra, são os bispos das dioceses que determinam quando e onde uma nova igreja é aberta, mas como a FSSPX está em situação canônica irregular, ou seja, não está de acordo com as normas do Vaticano, essa decisão geralmente é tomada por iniciativa da própria Fraternidade quando há pedidos de devotos.
“Eles começaram então a atuar no norte fluminense, em São Paulo e na região Sul do Brasil”, diz o historiador, que há mais de 20 anos pesquisa sobre o catolicismo tradicional no país.
Hoje estão em 14 capelas em quatro das cinco regiões. A congregação só não está presente no Norte, conforme os endereços listados nos boletins distribuídos a fiéis: São Paulo, Indaiatuba (SP), Ribeirão Preto (SP), Sorocaba (SP), Itapetininga (SP), São José do Rio Preto (SP), Passos (MG), Curitiba (PR), Cuiabá (MT), Campo Grande (MS), Fortaleza (CE), Parnaíba (PI), Teresina (PI), São Luís (MA).
Papa Leão 14 alertou a congregação de que as nomeações sem autorização seriam punidas com excomunhão
Reuters
“Trata-se de um movimento crescente”, afirma Mérida, apontando que o grupo reúne hoje cerca de um milhão de fiéis pelo mundo e conta com cerca de 700 padres.
“Além do crescimento da Fraternidade, existem os grupos dissidentes, que também não param de se dividir e multiplicar.”
O número é relativamente pequeno se comparado ao universo de 1,4 bilhão de católicos, mas representativo do avanço do chamado catolicismo tradicional. Não é o caso da Fraternidade, mas alguns desses grupos, ainda que pequenos, são bastante ativos nas redes sociais e influenciam o debate público em torno de pautas conservadoras.
O pesquisador explica que tanto a Fraternidade quanto os grupos tradicionalistas que não aceitam o concílio continuam sendo considerados católicos mesmo estando em situação canônica irregular porque o Vaticano, segundo ele, segue tentando promover uma reconciliação com eles.
Essa postura vai ser agora pela primeira vez testada no papado de Leão 14.
“Ao que tudo indica, a Santa Sé permanecerá irredutível, exigindo que a Fraternidade aceite o Concílio Vaticano 2º para que, assim, possa receber a anuência do papa”, opina Mérida.
Como a congregação também não dá sinais de que vá recuar, provavelmente “os bispos, sacerdotes e os futuros bispos que serão sagrados serão excomungados”.
Além da capital paulista, Fraternidade está em outras 13 cidades no país.
Reprodução/BBC
Os folhetos com as preces pelos novos bispos recomendadas pelo padre na capela da Vila Mariana estavam disponíveis na pequena livraria na entrada da igreja, mas esgotaram rápido no início da manhã daquele domingo.
Restaram os livros à venda nas prateleiras, entre eles 1492: O fim da Barbárie, Começo da Civilização na América, do argentino Cristian Iturralde, que defende a colonização espanhola como um evento positivo para o continente americano.
Do mesmo autor, A Inquisição, Um Tribunal de Misericórdia, se propõe como uma resposta aos críticos dos tribunais religiosos criados pela Igreja Católica no período medieval com o objetivo de investigar, julgar e punir pessoas acusadas de heresias.
Na saída da missa, a reportagem tentou conversar com um dos padres que circulava entre os fiéis na calçada. Ele respondeu a algumas perguntas sobre a igreja — uma casa doada há quase 20 anos que passou por sucessivas reformas para ser ampliada —, mas afirmou que as questões relacionadas aos novos bispos deveriam ser tratadas com o Padre Juan María de Montagut Puertollano, superior da congregação no Brasil.
A BBC News Brasil tentou contato com ele por telefone e por e-mail, sem sucesso. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) também não retornou os pedidos de entrevista.
O próximo capítulo dessa história deve começar a ser escrito na próxima semana, com a nomeação dos novos bispos da congregação em Écône, com ecos que podem repercutir no pontificado do novo papa e no jogo de forças entre as diferentes correntes ideológicas que disputam espaço e poder no catolicismo.
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