Nos últimos dias, tivemos três grandes demonstrações de caradurismo no Brasil, um sinal inequívoco de que a desfaçatez é um traço de determinadas lideranças políticas, econômicas e até religiosas. Esses exemplos, que misturam descaramento e de cinismo, afrontam os brasileiros e precisam ser combatidos por todos nós.
O primeiro: recentemente, o senador Jaques Wagner foi flagrado pela Polícia federal com uma montanha de dólares e euros em seus endereços. Mandou ao público uma explicação para lá de bisonha – a de essa dinheirama seria fruto de sobras dos adiantamentos de diárias para viagens oficiais. Só que a quantia apreendida era maior que o total da verba à qual o senador teve direito de 2019 para cá. E ainda por cima ele recebeu esses adiantamentos através de ordens bancárias (não em espécie).
Além disso, a PF mostrou evidências que apontam que a relação entre o senador e o ex-CEO do Master, Augusto Lima, não seria apenas de amizade, mas também uma parceria de interesses. Wagner, mesmo diante de todo o material divulgado pelas autoridades, quis se manter no posto de líder do governo no Senado. A novela só terminou ontem, quando o Planalto pediu que ele deixasse o cargo.
Um pouco antes do imbroglio envolvendo o senador petista, o presidente da Câmara, Hugo Motta, viu-se diante de denúncias constrangedoras: ele recebeu carona em um jatinho de Daniel Vorcaro e teve suas hospedagens em Lisboa (por conta do Gilmarpalooza) pagas pelo ex-banqueiro. “Não vejo problema, é um evento corporativo, um encontro jurídico, que inclusive participei esse ano já como presidente da Câmara, então não vejo problema algum”, disse ele. “Eu tenho muita tranquilidade com relação a isso e esses vazamentos não me preocupam de forma alguma”.
Bem, o deputado deveria se preocupar. Ele está na linha de sucessão, imediatamente após o vice-presidente Geraldo Alckmin. Portanto, deveria se comportar como um cidadão acima de qualquer suspeita. E quem decide sobre os destinos da nação e, ao mesmo tempo, recebe favores e benesses do setor privado tem a sua credibilidade irremediavelmente afetada.
Por fim, nesta semana, tivemos a eclosão de mais uma operação da Polícia Federal, que atingiu o banco Digimais, do bispo Edir Macedo, maior autoridade da Igreja Universal do Reino de Deus. A PF afirma que a instituição usava um esquema semelhante ao do Master ao inflar ativos para maquiar seu balanço. Diante disso, congelou R$ 670 milhões em ativos do banco.
O bispo Macedo, como religioso, não deveria ficar quieto diante de um fato tão grave. Mas preferiu ficar em silêncio diante das revelações feitas sobre as acusações de contabilidade fraudulenta. O líder da Universal certamente conhece os ensinamentos do profeta Jeremias. Em seu livro, no capítulo 5, versículo 27, ele diz o seguinte: “Como uma gaiola cheia de pássaros, assim as casas deles estão cheias de fraude; por isso, se tornaram poderosos e enriqueceram”. Mais adiante, Jeremias sentencia: “Coisa espantosa e horrenda se anda fazendo na terra: os profetas profetizam falsamente e os sacerdotes dominam de mãos dadas com eles”.
Três casos distintos que seguem uma mesma lógica: a de que o poder protege as autoridades e os argentários. O Brasil não tem escassez de leis, de investigadores ou de provas. Mas, por aqui, sobra a impunidade. E é essa lógica que alimenta a desfaçatez. Enquanto o custo de agir com descaramento for menor que o benefício, haverá muita gente agindo dessa forma: o senador que guarda dólares em casa, o presidente da Câmara que aceita favores e o bispo que silencia diante de acusações de fraude. Estes episódios mostram uma engrenagem funcionando para passar pano a quem está dentro da máquina de proteção aos poderosos. O Brasil precisa tomar vergonha na cara e rejeitar com veemência esses mestres do cinismo na política, na vida privada ou nas atividades empresariais.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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