Linguagem como resistência: Bajubá resgata memória e identidade no dia do Orgulho LGBTQIAPN+ em Belém


Artista drag e pesquisadora paraense Shayra Brotero pesquisa o Bajubá
Arquivo pessoal
Se você já disse “babado”, “amapô” ou “picumã”, talvez já tenha falado Bajubá sem saber. Gírias que circulam na internet e no cotidiano, essas palavras carregam uma história de criação, proteção e resistência dentro da comunidade LGBTQIAPN+.
No Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, celebrado neste domingo, 28 de junho, a linguagem volta a aparecer como parte importante da forma como pessoas se reconhecem, se protegem e constroem comunidade. E é justamente esse universo que a pesquisa “Guerrilhas de Linguagem TransLGB”, da artista drag e pesquisadora paraense Shayra Brotero, ajuda a revelar.
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Uma linguagem que nasce da vida real
O Bajubá é uma linguagem criada por pessoas trans, travestis e LGB em contextos de marginalização. Mais do que um conjunto de gírias, ele funciona como um código de comunicação que já serviu — e ainda serve — como ferramenta de segurança, identificação e pertencimento.
Muitas dessas palavras hoje circulam livremente nas redes sociais, na música e no vocabulário popular. Mas sua origem está ligada à necessidade de se comunicar sem ser compreendido por quem representava risco.
A própria Shayra lembra que essa linguagem se formou a partir da mistura do português com influências de línguas africanas, como o iorubá, trazidas ao Brasil pela diáspora e ressignificadas em diferentes práticas culturais e religiosas.
Para ela, o Bajubá não é só linguagem: é memória viva.
“As meninas que ainda estão nas ruas trabalhando com a prostituição têm um uso ainda mais assíduo do Bajubá, tendo esse dialeto uma força sem igual quando se trata de resistência, proteção e criatividade. De modo geral, o Bajubá é a grande força materializada em palavras que nossas travas ancestrais trouxeram ao nosso universo”, afirma Shayra Brotero.
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Quando a linguagem continua mudando
Mesmo com a popularização do Bajubá fora da comunidade LGBTQIAPN+, ele não parou no tempo. Pelo contrário: novas palavras continuam surgindo, reinventando o próprio código e mantendo seu caráter de reconhecimento entre pares.
Segundo Shayra, essa criação constante mostra como a linguagem está sempre viva — mudando junto com as pessoas que a usam.
“Um dos objetivos é fazer com que as gatas que adentrem a academia encontrem pesquisas que ajudem a compreender nossos fenômenos, evidenciando o quanto a nossa mente é criativa e sagaz e como a língua é viva”, explica.
O estudo também amplia o debate sobre o reconhecimento dessas linguagens no meio acadêmico, valorizando o que Shayra chama de linguagens de resistência TransLGB, criadas principalmente por travestis e pessoas trans ao longo de décadas.
Da vivência para a pesquisa
O interesse de Shayra pelo Bajubá começou ainda na infância, ao observar como pessoas trans e travestis se comunicavam de forma própria, muitas vezes incompreensível para quem estava de fora.
Mais tarde, já no curso de Letras, esse interesse virou pesquisa — especialmente a partir de entrevistas com nomes importantes da cena LGBTQIAPN+, como Verônica Valentino e Jovana Baby.
A investigação também conversa com referências da cultura brasileira contemporânea, como a obra da artista Linn da Quebrada, especialmente o álbum Trava Línguas, que resgata o Bajubá como linguagem de afeto, alerta e conexão.
O trabalho integra o livro “Palavra: caderno-ensaio 2”, publicado pelo Instituto Tomie Ohtake, ao lado de nomes como Ailton Krenak e Drik Barbosa, entre outros.
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