Nigéria acusa África do Sul por mortes em ataques a imigrantes

Manifestantes se reúnem do lado de fora de um prédio que acreditam estar ocupado por estrangeiros em situação irregular em Joanesburgo, na África do Sul, em 30 de junho de 2026Reprodução

A Nigéria colocou a África do Sul no centro de uma nova crise diplomática após denunciar a morte de dois de seus cidadãos durante uma onda crescente de violência contra migrantes no país. O governo nigeriano afirmou que um dos homens foi assassinado em frente à própria loja, na cidade de eMalahleni, enquanto o outro, identificado como Emeka Iroegbu, teria morrido durante um interrogatório realizado por policiais em Pretória.

Os episódios ocorreram em 28 de junho de 2026, justamente em um momento de aumento das tensões antes de manifestações nacionais contra a presença de estrangeiros na África do Sul. Para Abuja, os casos fazem parte de um padrão preocupante de intolerância contra migrantes africanos e exigem uma resposta das autoridades sul-africanas.

A acusação abriu mais um capítulo de uma história que se repete há décadas. O país que durante anos foi visto como símbolo da luta contra o apartheid e contra a segregação racial agora enfrenta outro desafio: combater o preconceito e a xenofobia dentro de suas próprias fronteiras.

A África do Sul é uma das principais potências econômicas do continente africano e, por isso, tornou-se também um dos grandes destinos de migração dentro da própria África.

Existe uma ideia bastante difundida de que a imigração africana acontece principalmente em direção à Europa, aos Estados Unidos ou ao Canadá, países desenvolvidos que recebem milhões de pessoas em busca de melhores condições de vida. Mas uma parte significativa dos deslocamentos ocorre entre os próprios países africanos.

Todos os anos, milhões de africanos atravessam fronteiras dentro do continente em busca de trabalho, segurança e oportunidades. A África do Sul, com uma economia mais industrializada e uma infraestrutura mais desenvolvida que muitos de seus vizinhos, tornou-se um dos principais destinos para migrantes vindos de países como Moçambique, Zimbábue, Lesoto, República Democrática do Congo, Nigéria e Somália, muitos deles acabam imigrando de forma ilegal.

Essa movimentação, porém, como é caso de muitos outros países, também gerou tensões locais. Em um país marcado por décadas de desigualdade deixadas pelo apartheid, desemprego elevado e profundas diferenças sociais, muitos estrangeiros  acabaram sendo alvo de uma revolta que possui causas muito mais complexas e difíceis de compreender muitas vezes pelo cidadão comum.

O migrante acaba sendo apresentado como responsável por problemas como falta de empregos e aumento da criminalidade, tornando-se um bode expiatório para dificuldades construídas ao longo de décadas.

Segundo organizações de defesa dos direitos humanos, a xenofobia na África do Sul não representa apenas uma rejeição ao estrangeiro, mas também uma disputa social em torno de recursos escassos em uma sociedade ainda marcada por desigualdades históricas evidentes.

Sobre o caso das duas mortes em questão, o governo sul-africano não apresentou uma resposta oficial detalhada sobre as acusações feitas pela Nigéria. No entanto, a Diretoria Independente de Investigação Policial (IPID), órgão responsável por investigar denúncias contra agentes de segurança, confirmou que recebeu uma denúncia sobre a morte de Emeka Iroegbu e abriu uma investigação.

Enquanto isso, a violência contra estrangeiros continua sendo uma preocupação. Nas últimas semanas, grupos de vigilantes e manifestantes atacaram migrantes e saquearam lojas pertencentes a estrangeiros em diferentes regiões do país. Embora muitos protestos tenham sido pacíficos, alguns episódios terminaram em confrontos e obrigaram as autoridades a reforçar a segurança.

A história da xenofobia sul-africana não começou agora. Em maio de 2008, uma onda de ataques contra imigrantes deixou dezenas de mortos e milhares de pessoas foram expulsas de suas casas. Novos episódios ocorreram em 2015 e 2019, mostrando que o problema permanece como uma ferida aberta na sociedade sul-africana que é dificil de curar.

Esses casos de xenofobia revelam também uma das grandes ironias do continente africano: uma região marcada por fronteiras artificiais criadas pelo colonialismo, por guerras e por deslocamentos forçados que agora vê seus próprios povos enfrentarem barreiras dentro da própria África e sofrerem preconceito somente por quererem tentar uma nova vida em um país que parece aprensentar novas oportunidades de vida.

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