Dias antes de morrer, aos 78 anos, o ator neozelandês Sam Neill contou que estava livre do câncer graças a um tratamento que, há pouco mais de uma década, ainda era considerado experimental. Depois de cinco anos convivendo com um linfoma não Hodgkin e de ver a quimioterapia perder o efeito, ele entrou em remissão após receber uma terapia conhecida como CAR-T, que utiliza células de defesa do próprio paciente, modificadas em laboratório, para atacar o tumor.
Neill morreu nesta segunda-feira (13), em Sydney, na Austrália. A causa da morte não foi divulgada. No entanto, segundo comunicado divulgado pela família, ele permaneceu livre do câncer até o fim da vida.
Considerada uma das maiores transformações recentes da oncologia, a terapia CAR-T já é utilizada em diversos países e também está disponível no Brasil para alguns tipos de câncer do sangue. Em pacientes que esgotaram outras alternativas de tratamento, ela pode levar a remissões prolongadas e, em alguns casos, fazer o tumor desaparecer completamente.
Apesar dos resultados, o acesso continua restrito. O alto custo, a necessidade de centros altamente especializados e a incorporação ainda limitada ao sistema de saúde fazem com que muitos pacientes brasileiros não consigam chegar ao tratamento.
Em vez de atacar o tumor, a terapia transforma o sistema imunológico
Ao contrário da quimioterapia, que destrói células que se multiplicam rapidamente —incluindo algumas saudáveis—, a CAR-T parte de outra estratégia: treinar o próprio organismo para reconhecer e eliminar as células cancerígenas.
O tratamento começa com a retirada dos linfócitos T, células do sistema imunológico responsáveis por identificar ameaças ao organismo.
Essas células são enviadas para um laboratório, onde passam por uma modificação genética. Os pesquisadores inserem nelas um receptor artificial, chamado CAR (sigla em inglês para receptor quimérico de antígeno), capaz de identificar proteínas presentes na superfície das células tumorais.
Depois de modificadas e multiplicadas, elas retornam ao paciente por meio de uma infusão semelhante a uma transfusão de sangue.
A partir daí, passam a procurar e destruir as células do câncer.
O oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, compara o processo à criação de um “super soldado” imunológico.
“Nós retiramos os linfócitos T do paciente, reprogramamos essas células para reconhecer o tumor e depois as reinfundimos no organismo já preparadas para atacá-lo”, explica.
Quando a CAR-T é indicada
Hoje, a terapia é aprovada para alguns tipos de câncer hematológico, especialmente leucemias, linfomas e mieloma múltiplo.
Em geral, ela é reservada para pacientes cujo câncer voltou após o tratamento ou deixou de responder às terapias convencionais —cenário semelhante ao enfrentado por Sam Neill.
O ator revelou que havia sido diagnosticado, em 2023, com um linfoma não Hodgkin em estágio avançado. Após a quimioterapia deixar de controlar a doença, recebeu a terapia celular e anunciou recentemente que os exames não mostravam mais sinais do câncer.
Pesquisadores também estudam o uso da CAR-T contra tumores sólidos, como os de pulmão, mama e cérebro, mas esses resultados ainda são considerados iniciais.
O impacto da CAR-T mudou a perspectiva de pacientes que, até poucos anos atrás, tinham poucas opções terapêuticas.
Estudos internacionais mostram taxas de resposta que chegam a 80% em alguns tipos de câncer do sangue. Em uma parcela significativa dos pacientes, o tumor desaparece completamente e a remissão pode durar anos.
Como a CAR-T é produzida
A CAR-T é um tratamento personalizado. Em vez de utilizar um medicamento pronto para todos os pacientes, cada terapia é fabricada a partir das próprias células de defesa de quem vai recebê-la.
O processo começa com a coleta dos linfócitos T por um procedimento chamado aférese. Nele, o sangue passa por uma máquina que separa essas células de defesa e devolve ao organismo os demais componentes, como hemácias e plasma.
Depois da coleta, os linfócitos seguem para um laboratório especializado. Ali, recebem um novo material genético que faz com que passem a produzir um receptor artificial —conhecido pela sigla CAR (Chimeric Antigen Receptor, ou receptor quimérico de antígeno).
É esse receptor que permite às células identificar uma proteína presente na superfície das células cancerígenas. Após a modificação genética, elas são multiplicadas em laboratório até que haja quantidade suficiente para o tratamento.
Enquanto isso, o paciente costuma receber uma quimioterapia em doses reduzidas. O objetivo não é combater diretamente o câncer, mas preparar o organismo para receber as novas células.
Concluída a fabricação, a CAR-T é infundida por via intravenosa, em procedimento semelhante ao de uma transfusão de sangue. A partir desse momento, as células modificadas passam a circular pelo organismo em busca das células tumorais.
Além de destruir o câncer, parte dessas células pode permanecer ativa por meses ou até anos, funcionando como uma espécie de memória imunológica. Se voltarem a encontrar o mesmo alvo, elas podem reagir novamente.
O Brasil avança na produção da própria terapia
Embora a CAR-T tenha sido desenvolvida no exterior, o Brasil vem ampliando sua capacidade de produzir a terapia dentro do próprio país. Nos últimos meses, estudos conduzidos por instituições brasileiras têm mostrado resultados considerados promissores.
Em junho deste ano, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com o Instituto Butantan, divulgaram dados preliminares de um estudo clínico em que 87,5% dos pacientes com linfoma não Hodgkin apresentaram redução significativa ou desaparecimento do tumor após receberem uma versão nacional da CAR-T desenvolvida no Hemocentro de Ribeirão Preto.
Segundo a equipe, o tratamento foi produzido integralmente no Brasil e poderá abrir caminho para uma futura incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS), caso os resultados sejam confirmados nas próximas fases da pesquisa e o produto obtenha registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Além da iniciativa da USP, outro estudo conduzido pelo Hospital Israelita Einstein mostrou resultados semelhantes. A terapia CAR-T desenvolvida na própria instituição levou 81% dos pacientes com leucemias e linfomas avançados a responderem ao tratamento, enquanto 72% entraram em remissão completa.
O projeto foi financiado pelo Ministério da Saúde por meio do Proadi-SUS e marcou a primeira produção da terapia dentro de um hospital brasileiro.
O tratamento ainda enfrenta barreiras no país
Apesar dos avanços, a realidade brasileira ainda está distante daquela observada nos grandes centros internacionais.
O tratamento comercial pode custar entre R$ 2 milhões e R$ 4 milhões por paciente e exige hospitais preparados para lidar com uma terapia altamente complexa.
Além da coleta e da modificação das células, a equipe precisa monitorar possíveis efeitos adversos, como inflamações intensas e alterações neurológicas temporárias, que costumam surgir nos primeiros dias após a infusão.
Um estudo publicado na revista Frontiers in Hematology aponta que, no Brasil, o desafio vai além do preço.
Os autores destacam a ausência de modelos específicos de financiamento, o número reduzido de centros habilitados e a necessidade, em muitos casos, de enviar as células para laboratórios no exterior antes da fabricação do produto.
Segundo Stefani, parte dos pacientes sequer consegue chegar à terapia.
“Muitos pioram clinicamente ou morrem antes de obter acesso à CAR-T.”
Hoje, muitos casos acabam sendo resolvidos por meio de ações judiciais, cenário que, segundo especialistas, amplia desigualdades porque favorece quem consegue recorrer à Justiça.
O próximo passo é ampliar o acesso
Embora o Brasil tenha avançado no desenvolvimento de versões nacionais da CAR-T, especialistas afirmam que o principal desafio agora é transformar os resultados das pesquisas em uma política de acesso.
Isso passa pelo registro dos produtos na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), pela avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) e pela definição de um modelo de financiamento capaz de sustentar uma terapia de alto custo. Também será necessário ampliar o número de centros habilitados para produzir ou aplicar o tratamento e formar equipes especializadas em diferentes regiões do país.
Para Stefani, produzir a terapia em território nacional pode reduzir custos e diminuir a dependência de laboratórios estrangeiros, mas, sozinho, esse avanço não resolve o problema.
“A judicialização não conserta o sistema. Ela conserta o problema daquele paciente.”
Enquanto esse cenário não muda, a CAR-T segue oferecendo uma nova perspectiva para pessoas com cânceres hematológicos agressivos que já esgotaram outras opções terapêuticas. O desafio, agora, é fazer com que uma tecnologia capaz de levar pacientes à remissão deixe de ser uma exceção e se torne uma alternativa disponível para quem dela precisa.
Neill morreu nesta segunda-feira (13), em Sydney, na Austrália. A causa da morte não foi divulgada. No entanto, segundo comunicado divulgado pela família, ele permaneceu livre do câncer até o fim da vida.
Considerada uma das maiores transformações recentes da oncologia, a terapia CAR-T já é utilizada em diversos países e também está disponível no Brasil para alguns tipos de câncer do sangue. Em pacientes que esgotaram outras alternativas de tratamento, ela pode levar a remissões prolongadas e, em alguns casos, fazer o tumor desaparecer completamente.
Apesar dos resultados, o acesso continua restrito. O alto custo, a necessidade de centros altamente especializados e a incorporação ainda limitada ao sistema de saúde fazem com que muitos pacientes brasileiros não consigam chegar ao tratamento.
Em vez de atacar o tumor, a terapia transforma o sistema imunológico
Ao contrário da quimioterapia, que destrói células que se multiplicam rapidamente —incluindo algumas saudáveis—, a CAR-T parte de outra estratégia: treinar o próprio organismo para reconhecer e eliminar as células cancerígenas.
O tratamento começa com a retirada dos linfócitos T, células do sistema imunológico responsáveis por identificar ameaças ao organismo.
Essas células são enviadas para um laboratório, onde passam por uma modificação genética. Os pesquisadores inserem nelas um receptor artificial, chamado CAR (sigla em inglês para receptor quimérico de antígeno), capaz de identificar proteínas presentes na superfície das células tumorais.
Depois de modificadas e multiplicadas, elas retornam ao paciente por meio de uma infusão semelhante a uma transfusão de sangue.
A partir daí, passam a procurar e destruir as células do câncer.
O oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, compara o processo à criação de um “super soldado” imunológico.
“Nós retiramos os linfócitos T do paciente, reprogramamos essas células para reconhecer o tumor e depois as reinfundimos no organismo já preparadas para atacá-lo”, explica.
Quando a CAR-T é indicada
Hoje, a terapia é aprovada para alguns tipos de câncer hematológico, especialmente leucemias, linfomas e mieloma múltiplo.
Em geral, ela é reservada para pacientes cujo câncer voltou após o tratamento ou deixou de responder às terapias convencionais —cenário semelhante ao enfrentado por Sam Neill.
O ator revelou que havia sido diagnosticado, em 2023, com um linfoma não Hodgkin em estágio avançado. Após a quimioterapia deixar de controlar a doença, recebeu a terapia celular e anunciou recentemente que os exames não mostravam mais sinais do câncer.
Pesquisadores também estudam o uso da CAR-T contra tumores sólidos, como os de pulmão, mama e cérebro, mas esses resultados ainda são considerados iniciais.
O impacto da CAR-T mudou a perspectiva de pacientes que, até poucos anos atrás, tinham poucas opções terapêuticas.
Estudos internacionais mostram taxas de resposta que chegam a 80% em alguns tipos de câncer do sangue. Em uma parcela significativa dos pacientes, o tumor desaparece completamente e a remissão pode durar anos.
Como a CAR-T é produzida
A CAR-T é um tratamento personalizado. Em vez de utilizar um medicamento pronto para todos os pacientes, cada terapia é fabricada a partir das próprias células de defesa de quem vai recebê-la.
O processo começa com a coleta dos linfócitos T por um procedimento chamado aférese. Nele, o sangue passa por uma máquina que separa essas células de defesa e devolve ao organismo os demais componentes, como hemácias e plasma.
Depois da coleta, os linfócitos seguem para um laboratório especializado. Ali, recebem um novo material genético que faz com que passem a produzir um receptor artificial —conhecido pela sigla CAR (Chimeric Antigen Receptor, ou receptor quimérico de antígeno).
É esse receptor que permite às células identificar uma proteína presente na superfície das células cancerígenas. Após a modificação genética, elas são multiplicadas em laboratório até que haja quantidade suficiente para o tratamento.
Enquanto isso, o paciente costuma receber uma quimioterapia em doses reduzidas. O objetivo não é combater diretamente o câncer, mas preparar o organismo para receber as novas células.
Concluída a fabricação, a CAR-T é infundida por via intravenosa, em procedimento semelhante ao de uma transfusão de sangue. A partir desse momento, as células modificadas passam a circular pelo organismo em busca das células tumorais.
Além de destruir o câncer, parte dessas células pode permanecer ativa por meses ou até anos, funcionando como uma espécie de memória imunológica. Se voltarem a encontrar o mesmo alvo, elas podem reagir novamente.
O Brasil avança na produção da própria terapia
Embora a CAR-T tenha sido desenvolvida no exterior, o Brasil vem ampliando sua capacidade de produzir a terapia dentro do próprio país. Nos últimos meses, estudos conduzidos por instituições brasileiras têm mostrado resultados considerados promissores.
Em junho deste ano, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com o Instituto Butantan, divulgaram dados preliminares de um estudo clínico em que 87,5% dos pacientes com linfoma não Hodgkin apresentaram redução significativa ou desaparecimento do tumor após receberem uma versão nacional da CAR-T desenvolvida no Hemocentro de Ribeirão Preto.
Segundo a equipe, o tratamento foi produzido integralmente no Brasil e poderá abrir caminho para uma futura incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS), caso os resultados sejam confirmados nas próximas fases da pesquisa e o produto obtenha registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Além da iniciativa da USP, outro estudo conduzido pelo Hospital Israelita Einstein mostrou resultados semelhantes. A terapia CAR-T desenvolvida na própria instituição levou 81% dos pacientes com leucemias e linfomas avançados a responderem ao tratamento, enquanto 72% entraram em remissão completa.
O projeto foi financiado pelo Ministério da Saúde por meio do Proadi-SUS e marcou a primeira produção da terapia dentro de um hospital brasileiro.
O tratamento ainda enfrenta barreiras no país
Apesar dos avanços, a realidade brasileira ainda está distante daquela observada nos grandes centros internacionais.
O tratamento comercial pode custar entre R$ 2 milhões e R$ 4 milhões por paciente e exige hospitais preparados para lidar com uma terapia altamente complexa.
Além da coleta e da modificação das células, a equipe precisa monitorar possíveis efeitos adversos, como inflamações intensas e alterações neurológicas temporárias, que costumam surgir nos primeiros dias após a infusão.
Um estudo publicado na revista Frontiers in Hematology aponta que, no Brasil, o desafio vai além do preço.
Os autores destacam a ausência de modelos específicos de financiamento, o número reduzido de centros habilitados e a necessidade, em muitos casos, de enviar as células para laboratórios no exterior antes da fabricação do produto.
Segundo Stefani, parte dos pacientes sequer consegue chegar à terapia.
“Muitos pioram clinicamente ou morrem antes de obter acesso à CAR-T.”
Hoje, muitos casos acabam sendo resolvidos por meio de ações judiciais, cenário que, segundo especialistas, amplia desigualdades porque favorece quem consegue recorrer à Justiça.
O próximo passo é ampliar o acesso
Embora o Brasil tenha avançado no desenvolvimento de versões nacionais da CAR-T, especialistas afirmam que o principal desafio agora é transformar os resultados das pesquisas em uma política de acesso.
Isso passa pelo registro dos produtos na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), pela avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) e pela definição de um modelo de financiamento capaz de sustentar uma terapia de alto custo. Também será necessário ampliar o número de centros habilitados para produzir ou aplicar o tratamento e formar equipes especializadas em diferentes regiões do país.
Para Stefani, produzir a terapia em território nacional pode reduzir custos e diminuir a dependência de laboratórios estrangeiros, mas, sozinho, esse avanço não resolve o problema.
“A judicialização não conserta o sistema. Ela conserta o problema daquele paciente.”
Enquanto esse cenário não muda, a CAR-T segue oferecendo uma nova perspectiva para pessoas com cânceres hematológicos agressivos que já esgotaram outras opções terapêuticas. O desafio, agora, é fazer com que uma tecnologia capaz de levar pacientes à remissão deixe de ser uma exceção e se torne uma alternativa disponível para quem dela precisa.
