Durante décadas, bastava mencionar o Estreito de Ormuz para que os mercados tremessem, os analistas previssem recessões e as manchetes anunciassem uma nova crise energética global. Afinal, cerca de um quinto do petróleo consumido no planeta passa por aquele corredor estreito entre o Irã e Omã. A lógica sempre pareceu elementar: se Ormuz fecha, o mundo para. Talvez já não seja exatamente assim.
Isso não significa que um conflito na região tenha se tornado irrelevante. Significa apenas que o mundo passou os últimos anos tentando reduzir sua exposição a um ponto único de falha. Arábia Saudita ampliou oleodutos em direção ao Mar Vermelho, os Emirados criaram rotas alternativas para o Golfo de Omã, os Estados Unidos se tornaram uma potência energética, o Brasil aumentou a produção do pré-sal e países como a Guiana entraram no mapa mundial do petróleo. Nada disso elimina Hormuz. Mas diminui sua capacidade de sequestrar sozinho a economia global.
Há também um segundo fator, menos dramático e mais importante: os mercados aprendem. Quando um risco aparece uma vez, ele assusta. Quando reaparece várias vezes, passa a ser precificado, incorporado aos contratos e tratado como parte do ambiente. Empresas diversificam fornecedores, elevam estoques, contratam seguros, redesenham rotas e constroem planos de contingência.
É como um elevador que quebra com frequência. Na primeira vez, todos entram em pânico. Depois de algum tempo, o prédio constrói uma segunda escada. O risco continua existindo, mas perde parte de sua capacidade de paralisar tudo.
Por isso, a velha gangorra de abrir, ameaçar, bloquear e reabrir Ormuz já não garante necessariamente um choque de longo prazo. Pode provocar alta imediata do petróleo, volatilidade e ansiedade. Mas é cada vez mais difícil imaginar que apenas o estreito, isoladamente, tenha o mesmo poder de vinte anos atrás para reorganizar toda a economia mundial.
Existe, porém, um terceiro aspecto mais delicado. Ao afirmar que navios poderiam transitar mediante autorização e pagamento aos Estados Unidos, Donald Trump produziu algo maior do que uma provocação política. Ele relativizou, ainda que retoricamente, o princípio da liberdade internacional de navegação. E precedentes são perigosos.
Se a maior potência naval do mundo admite a lógica de cobrar para garantir passagem, outros países inevitavelmente podem concluir que também têm esse direito. O Irã pode pensar assim. Omã também. E o raciocínio não precisa ficar limitado a Ormuz. O mesmo princípio poderia ser invocado em outros estreitos, canais e corredores estratégicos.
Até pouco tempo atrás, a regra era simples: o comércio marítimo internacional dependia de passagens abertas e protegidas por normas reconhecidas. A partir do momento em que o trânsito passa a depender de quem controla militarmente a região, a navegação deixa de ser um direito e se transforma em concessão. E concessão sempre tem preço.
Para o Brasil, os impactos são ambíguos. O país é exportador líquido de petróleo, tem produção crescente no pré-sal e não depende diretamente de Ormuz para escoar a maior parte de seu comércio. Em tese, uma alta do barril favorece exportações, royalties e arrecadação pública. Mas essa é apenas metade da conta.
Petróleo mais caro significa diesel mais caro, fretes mais altos, inflação, pressão sobre juros e menor crescimento global. O mesmo movimento que melhora a balança comercial pode piorar a vida das empresas e dos consumidores. É perfeitamente possível o Brasil ganhar mais dólares e, ao mesmo tempo, perder renda, atividade e competitividade.
Esse é o tipo de contradição que o país costuma administrar mal. Comemora o ganho fiscal imediato e ignora o custo espalhado pela economia. No fundo, Ormuz expõe uma transformação mais ampla. O comércio internacional está deixando de ser organizado apenas pela eficiência e voltando a ser disciplinado pelo poder. Rotas, tarifas, sanções e acessos dependem cada vez mais de capacidade militar, influência diplomática e força econômica.
A pergunta, portanto, já não é apenas se Ormuz vai fechar. É quantos Ormuz o mundo conseguirá absorver antes que o comércio deixe de ser previsível. Porque petróleo encontra outra rota. Navios mudam de caminho. Contratos são refeitos. Confiança, não. E talvez seja justamente ela a mercadoria mais valiosa que atravessa qualquer estreito do planeta.
*Coluna escrita por Fabio Ongaro, economista, empresário italiano no Brasil e CEO da Energy Group
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