Tempo seco e frio favorecem coceira nos olhos; hábito pode contribuir para doenças, alertam especialistas do interior de SP


Oftalmologista Claudio Vieira, do Hospital dos Olhos Visare de Presidente Prudente (SP)
Beatriz Jarins/g1
Tempo seco, baixa umidade do ar e maior concentração de poeira e ácaros, típicos do inverno, favorecem a irritação dos olhos e aumentam a vontade de esfregá-los. O hábito, aparentemente inofensivo, pode contribuir para o desenvolvimento ou agravamento do ceratocone em pessoas predispostas, alertam especialistas ouvidos pelo g1.
No interior paulista, a onda de frio intenso deve diminuir nos próximos dias. As baixas temperaturas devem se concentrar no período noturno e no início da manhã, com tardes mais quentes por causa da ação do sol durante o perído diurno. Confira a previsão do tempo mais abaixo.
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Além da variação de temperatura ao longo do dia, o uso frequente de aquecedores e aparelhos de ar-condicionado reduz a umidade do ambiente e pode favorecer o ressecamento dos olhos.
Esse conjunto de fatores pode aumentar a irritação ocular e levar muitas pessoas a esfregarem os olhos. O hábito, que parece inofensivo e até proporciona alívio momentâneo, pode trazer consequências para a saúde da visão, especialmente em pessoas predispostas ao ceratocone.
Ao g1, o oftalmologista Claudio Vieira, do Hospital dos Olhos Visare de Presidente Prudente, membro do Conselho Brasileiro de Oftalmologia, descreve como o ceratocone afeta a rotina do paciente.
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“A córnea normalmente tem formato arredondado. No ceratocone, ela vai afinando e adquirindo um formato semelhante ao de um cone. Os primeiros sintomas são dificuldade para enxergar, baixa da visão, coceira nos olhos e dificuldade para dirigir à noite”, explica Claudio Vieira.
A doença pode ter causa genética, no entanto, nem sempre é desenvolvida no portador. “É comum nos pacientes que têm histórico familiar, só que o ato de coçar, de esfregar, de apertar o olho, induz a formação do cone”, alerta.
Segundo o oftalmologista, mais de 80% dos pacientes com ceratocone têm o hábito de esfregar os olhos. “A córnea fica mais frágil e mais fina, até adquirir o formato de um cone. É por isso que a doença recebe esse nome”, continua.
Geralmente, o ceratocone começa a apresentar sinais entre os 10 e os 13 anos de idade. A recomendação é procurar um oftalmologista, já que a doença pode ser confundida com miopia ou astigmatismo.
Segundo Claudio Vieira, o uso prolongado de computadores, celulares e outros dispositivos eletrônicos reduz a frequência do piscar, o que favorece o ressecamento dos olhos e aumenta a vontade de esfregá-los. Em pessoas geneticamente predispostas, esse hábito pode contribuir para o aparecimento ou agravamento da doença.
Oftalmologista Claudio Vieira, do Hospital dos Olhos Visare de Presidente Prudente (SP)
Beatriz Jarins/g1
Tratamentos
O tratamento varia conforme o estágio da doença. Nos casos iniciais, uma das opções é o crosslinking, procedimento que dura entre 10 e 20 minutos e exige cerca de uma semana de recuperação.
Quando o ceratocone já provocou maior deformação da córnea, pode ser indicado o implante do anel de Ferrara. “O paciente opera hoje e amanhã pode trabalhar, se quiser, porque é um procedimento feito com laser e a recuperação costuma ser tranquila”, destaca o médico.
Já o transplante de córnea geralmente é restrito aos casos mais graves, devido à maior complexidade do procedimento. “Opera-se um olho e, para operar o outro, normalmente é preciso esperar cerca de seis meses.”
Além disso, o paciente precisa entrar na fila para transplante de córnea, o que pode aumentar o tempo de espera. “Nós sabemos que essa córnea, depois de um período de 12 a 15 anos, normalmente pode sofrer rejeição”, alerta Claudio Vieira.
Diagnosticada aos 19 anos, a estudante de Jornalismo e moradora de Itapetininga (SP), Clara Abrami, de 22 anos, já precisava usar óculos desde de 2023 devido à miopia e astigmatismo. Ao decorrer do tempo, ela percebeu que a visão estava piorando.
“Quanto mais anoitecia, maior era a minha dificuldade para enxergar. Fui ao oftalmologista achando que minha miopia havia aumentado e acabei recebendo o diagnóstico de ceratocone.”
No ano seguinte, em 2024, Clara precisou fazer a cirurgia no olho esquerdo devido ao ceratocone. O método utilizado foi o crosslinking. Ela ficou uma semana de repouso e três meses usando óculos de sol quase o tempo todo, para ajudar na recuperação.
“Continuo seguindo todos os cuidados recomendados pelo meu oftalmologista, e os resultados têm sido muito bons. Tenho ceratocone nos dois olhos, mas a cirurgia foi realizada apenas no olho esquerdo”, completa.
Outras doenças oftalmológicas
Professor do Departamento de Oftalmologia do Hospital de Clínicas (HC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Paulo Eduardo Casarin afirma que as mudanças de temperatura e as condições típicas do inverno favorecem o aparecimento ou a piora de diversas doenças oculares.
“Não são as mudanças climáticas, por si só, que causam doenças, mas elas criam condições ambientais que favorecem o aparecimento ou a piora de diversas afecções oculares. Essa combinação modifica tanto a superfície ocular quanto favorece a transmissão de doenças infecciosas”, alerta.
Segundo o especialista, entre os fatores que contribuem para esse cenário, estão:
Ar mais seco e baixa umidade prolongada;
Temperaturas mais baixas e maior amplitude térmica;
Uso de aquecedores e aparelhos de ar-condicionado;
Maior exposição ao vento frio;
Alternância entre períodos de frio e dias quentes e secos;
Aumento das partículas poluentes em suspensão;
Maior concentração de fumaça;
Permanência por mais tempo em ambientes fechados;
Maior circulação de vírus respiratórios.
O especialista também atua como médico oftalmologista da Clínica de Olhos Jund Eye, em Jundiaí (SP).
“As mudanças bruscas de temperatura alteram a estabilidade do filme lacrimal, que é uma película invisível que reveste e protege a superfície ocular. Esse fator leva ao aumento da evaporação da lágrima e à obstrução das glândulas das pálpebras. Consequentemente, gera inflamação”, explica.
Paulo Eduardo Casari é professor do Departamento de Oftalmologia do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp
Reprodução
Doenças mais comuns
Entre as doenças não infecciosas mais frequentes nesta época do ano estão a doença do olho seco, a blefarite e o hordéolo, conhecido popularmente como terçol.
Essas condições podem provocar:
Ardor;
Sensação de areia nos olhos;
Coceira;
Vermelhidão;
Lacrimejamento reflexo;
Visão borrada intermitente;
Sensibilidade à luz;
Crostas e cílios grudados;
Sensação de peso nas pálpebras;
Dor localizada, caroço avermelhado e inchaço no caso do terçol.
Para aliviar os sintomas do olho seco, o especialista recomenda aumentar a ingestão de água, utilizar colírios lubrificantes quando prescritos, evitar vento direto no rosto, reduzir o tempo de exposição às telas, fazer pausas frequentes e manter a umidade adequada dos ambientes.
“O tratamento dessas condições envolve higiene das pálpebras, compressas mornas e colírios lubrificantes e, eventualmente, antibióticos e anti-inflamatórios”, afirma Paulo.
Conjuntivite alérgica e ceratite
Além dessas doenças, as condições climáticas também favorecem quadros como a conjuntivite alérgica e a ceratite associada ao uso de lentes de contato.
No caso da conjuntivite alérgica, Paulo explica: “As oscilações do clima aumentam poeira, ácaros e partículas suspensas, causando muita coceira, lacrimejamento e vermelhidão.”
Já a ceratite pode ocorrer porque o ressecamento dos olhos favorece pequenas lesões na córnea em usuários de lentes de contato. “Isso aumenta o risco de infecção e, eventualmente, de úlceras de córnea, o que pode causar dor intensa, redução da visão e fotofobia.”
Para evitá-la, o médico recomenda que as pessoas devem evitar dormir com as lentes. Também precisam respeitar o tempo de troca e manter os cuidados de higiene. Ao menor sinal de irritação, o uso da lente deve ser suspenso.
Doenças infecciosas
Entre as doenças infecciosas, a principal preocupação nesta época do ano é a conjuntivite viral, cujos surtos costumam acompanhar o aumento das infecções respiratórias.
“O principal agente causador costuma ser o adenovírus, que é muito contagioso e, por isso, o risco de transmissão é muito elevado”, ressalta o oftalmologista.
Céu com nuvens; céu de Presidente Prudente; céu do interior paulista
Beatriz Jarins/g1
Mudança de temperatura
Ao g1, a tenente Ludmyla Alcantara, diretora-adjunta de Comunicação da Defesa Civil do Estado de São Paulo, explicou como deve ficar o tempo nos próximos dias após a passagem da massa de ar polar que derrubou as temperaturas no estado.
“Estamos saindo de uma semana em que tivemos uma queda severa de temperaturas. Essa massa de ar polar atuou em todo o território paulista e derrubou as temperaturas a ponto de batermos recordes, com mínima de 1,3°C”, lembrou.
Segundo a tenente, a massa de ar polar começou a perder força a partir da quinta-feira (16). “A gente volta com as características bem típicas da estação”, aponta ela.
Com elevação gradual das temperaturas, o tempo continuará seco nos próximos dias, registrando baixa umidade relativa do ar.
“É um período bem seco, então, apesar de estarmos saindo desse frio intenso, a previsão é de baixa umidade relativa do ar.”
Previsão para as regiões
Para a região de Bauru e Presidente Prudente, as temperaturas mínimas devem variar entre 10°C e 21°C, enquanto as máximas podem chegar entre 33°C e 35°C.
Na região de São José do Rio Preto, as mínimas devem ficar em torno de 10°C, e as máximas podem variar entre 27°C e 35°C.
Na região de Sorocaba, as mínimas devem variar entre 9°C e 17°C, enquanto as máximas devem ficar entre 22°C e 31°C. Em Itapetininga, a previsão é semelhante.
“Uma característica típica do inverno é justamente o tempo seco. A previsão também não indica volumes expressivos de chuva nos próximos dias, o que mantém esse cenário.”
Orientações
Com a persistência do tempo seco, a Defesa Civil orienta a população a reforçar os cuidados com a saúde. “É importante manter-se hidratado e deixar os ambientes bem ventilados, justamente para evitar a proliferação de vírus nesse período em que as pessoas tendem a manter as casas fechadas”, recomenda a tenente.
“Sempre deixe uma fresta aberta para permitir a circulação de ar. Também é importante manter o ambiente um pouco mais úmido, utilizando umidificadores, quando possível”, explica a agente da Defesa Civil.
Caso não haja umidificador, a recomendação é colocar um recipiente com água no cômodo ou pendurar uma toalha úmida para ajudar a aumentar a umidade do ambiente.
“Também é importante ter atenção redobrada com crianças, idosos e animais domésticos. Manter-se agasalhado, hidratado. Deixar os ambientes ventilados. Tudo isso ajuda a reduzir o risco de doenças respiratórias e também de problemas oculares”, completou a tenente.
Como receber os alertas
A Defesa Civil também orienta a população a se cadastrar para receber alertas de segurança por SMS. O cadastro é gratuito e pode ser feito da seguinte forma:
Abra o aplicativo de mensagens do celular;
Digite o CEP da residência;
Envie a mensagem para o número 40199.
É possível cadastrar mais de um CEP, repetindo o procedimento.
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