Em campo, Argentina mostrou por que seu país entrou em decadência econômica

Assisti à final da Copa do Mundo deste domingo e não consegui enxergar apenas um jogo de futebol. Vi, em campo, uma metáfora incômoda sobre um país que passou mais de um século tentando reconciliar talento extraordinário com uma dificuldade igualmente extraordinária de construir estabilidade. A Argentina perdeu por 1 a 0 para uma Espanha que controlou a partida, teve 65% da posse de bola e dominou as finalizações. Os argentinos terminaram o tempo regulamentar sem um único chute, tiveram Enzo Fernández expulso e, depois do apito final, protagonizaram uma nova confusão enquanto os espanhóis comemoravam o título. Não estou dizendo que uma partida de futebol explica uma economia. Estou dizendo algo mais profundo: sociedades também revelam seus valores nos pequenos rituais, principalmente quando perdem. Quando a busca pelo resultado começa a justificar a provocação, a intimidação, o conflito permanente e a dificuldade de reconhecer o mérito do adversário, o problema deixa de ser esportivo. A derrota de domingo não criou esse comportamento, mas expôs uma cultura de confronto que, em diferentes momentos da história argentina, também apareceu na política e na economia.

O futebol argentino sempre conviveu com essa fascinante mistura de genialidade e transgressão. Diego Maradona talvez seja a representação mais conhecida dessa ambiguidade. Na Copa de 1986, marcou contra a Inglaterra um dos gols mais extraordinários da história e, minutos antes, outro com a mão, eternizado por ele próprio como a “mão de Deus”. O episódio virou folclore, quase uma celebração da capacidade de vencer mesmo quando a regra precisa ser contornada. O problema começa quando essa lógica deixa o gramado e se transforma em método de funcionamento de uma sociedade. Países não prosperam pela habilidade de encontrar atalhos, mas pela capacidade de construir regras estáveis, respeitá-las e aceitar que resultados sustentáveis exigem disciplina. A Argentina conhece como poucos o preço da instabilidade. Segundo o Banco Mundial, em 1908 seu PIB per capita equivalia a cerca de 95% da média das economias mais ricas e, em 1913, o país ocupava a 10ª posição mundial em renda por habitante. Em 2022, essa proporção havia caído para aproximadamente um terço. Poucos países ilustram de maneira tão dramática como talento, recursos naturais e capital humano podem ser insuficientes quando instituições e políticas econômicas mudam repetidamente de direção.

Seria simplista atribuir mais de um século de decadência relativa a uma suposta característica de um povo. A história argentina envolve golpes militares, crises fiscais, inflação crônica, defaults, controles cambiais, ciclos de protecionismo e mudanças abruptas de política econômica. Mas cultura e instituições não vivem em universos separados. A tolerância social com o improviso, o personalismo, o conflito como método e a ideia de que sempre existe uma saída excepcional acabam influenciando a política e, depois, a economia. Javier Milei tenta romper parte dessa dinâmica com um programa radical de ajuste e liberalização. Há resultados que merecem ser reconhecidos: a economia cresceu 4,4% em 2025, depois de uma contração de 1,3% em 2024, e a inflação mensal caiu para 2,1% em maio de 2026. Mas a inflação acumulada em 12 meses ainda estava em 33,2%, enquanto o país se prepara para enfrentar mais de US$ 23 bilhões em vencimentos de principal em moeda estrangeira em 2027. O desafio argentino, portanto, não é apenas eleger um governo diferente. É construir previsibilidade suficiente para que disciplina fiscal, respeito às regras e responsabilidade institucional sobrevivam à próxima eleição, ao próximo presidente e à próxima crise.

E talvez seja justamente aqui que a Argentina ofereça uma reflexão desconfortável para o Brasil. Também cultivamos durante décadas a admiração pelo “jeitinho”, pela vantagem pessoal, pela esperteza capaz de contornar a regra e pela expectativa de que o Estado resolva problemas que muitas vezes exigiriam responsabilidade individual, produtividade e escolhas difíceis. Essas características não determinam o destino de um país, mas podem criar um ambiente no qual reformas são sempre adiadas, privilégios são defendidos como direitos adquiridos e qualquer tentativa de impor limites encontra resistência. Foi isso que pensei ao assistir à final. A Espanha ganhou jogando futebol; a Argentina terminou derrotada e envolvida em mais um conflito. Não é possível resumir a decadência econômica de uma nação a 120 minutos de uma partida, mas também seria ingênuo acreditar que a maneira como uma sociedade reage às regras, à derrota, à responsabilidade e ao mérito dos outros não diz absolutamente nada sobre ela. Cultura não substitui política econômica. Mas nenhuma política econômica sobrevive por muito tempo a uma cultura que recompensa o atalho e pune a disciplina.

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