Existe um erro que todo grande líder do futuro comete apenas uma vez

Existe uma característica que une praticamente todos os grandes líderes da história, eles nunca permitiram que o sucesso os impedisse de revisitar os próprios erros. Vivemos em uma época em que somos induzidos a olhar apenas para frente. O mercado exige crescimento, inovação, resultados, expansão e velocidade. Somos constantemente incentivados a pensar na próxima meta, no próximo investimento e na próxima conquista, mas raramente alguém nos ensina a olhar para trás com inteligência. Talvez seja justamente por isso que tantas empresas repetem os mesmos erros, tantos líderes enfrentam os mesmos conflitos e tantas organizações permanecem presas aos mesmos padrões por anos…

Não é por acaso que o quinto livro da Torá o livro de Devarim (Deuteronômio) recebe o nome de Mishné Torá, literalmente “a revisão da Torá”. Moisés está vivendo seus últimos dias, depois de quarenta anos conduzindo o povo pelo deserto e poderia utilizar seu discurso de despedida para recordar os milagres extraordinários que presenciou, celebrar suas vitórias ou destacar o legado que estava deixando.

No entanto, escolhe outro caminho, antes que uma nova geração entrasse na Terra Prometida, ele decidiu fazê-la revisitar a própria caminhada. Não para alimentar culpa, mas para produzir consciência. Não para condenar o passado, mas para impedir que ele voltasse a se repetir. Talvez essa seja uma das maiores definições de liderança que já encontrei. O líder maduro compreende que toda experiência carrega uma lição e que desperdiçar essa lição significa pagar duas vezes pelo mesmo erro…

Em seu discurso ao recordar o pecado da idolatria ao Bezerro de Ouro, Moisés sequer menciona diretamente aquele trágico episódio. Em vez disso, utiliza apenas uma expressão aparentemente simples: “Dei Zahav”, “muito ouro”. Em poucas palavras ele comunica uma mensagem que atravessa os séculos, o problema nunca foi o ouro. O problema começou quando o ouro ocupou o lugar que pertencia aos valores.

Essa talvez seja a idolatria mais sofisticada dos nossos dias. Não fazemos bezerros de ouro, mas podemos construir empresas em torno do ego, transformar lucro em único propósito, sacrificar princípios em nome de resultados ou acreditar que faturamento é sinônimo de sucesso. Quando qualquer uma dessas coisas ocupa o lugar da nossa missão, criamos nossos próprios bezerros de ouro. Os sábios de Israel ensinam que em toda geração permanece um resquício daquele pecado justamente porque toda geração é tentada a colocar alguma coisa acima daquilo que realmente importa.

Em contrapartida, o empresário que atribui à riqueza seu verdadeiro significado compreende que ela nunca foi o destino, mas um meio. No judaísmo, a prosperidade não é um pecado nem um acaso; ela é uma responsabilidade. Quando o dinheiro está subordinado aos valores, o patrimônio se transforma em ferramenta para gerar dignidade, oportunidades, desenvolvimento e bondade. O ouro deixa de ser um ídolo e passa a cumprir sua verdadeira missão: servir ao homem, e nunca ser servido por ele.

Outro aspecto extraordinário é que Moisés está falando para uma geração que sequer havia participado daqueles acontecimentos. Os responsáveis pelos grandes pecados já haviam morrido no deserto. Então por que recordar erros cometidos pelos pais? Porque ele sabia que herdamos muito mais do que patrimônio, herdamos padrões. Herdamos formas de reagir, de administrar conflitos, de lidar com dinheiro, de exercer autoridade e até de enfrentar dificuldades. Assim como um médico pergunta sobre doenças presentes na família para identificar predisposições genéticas, Moisés nos ensina que também existem predisposições espirituais e emocionais e isso vale igualmente para empresas.

Cada organização cria uma cultura. Cada família empresária transmite valores. Cada líder deixa marcas invisíveis que atravessam gerações. A grande pergunta não é apenas que resultados estamos produzindo, mas quais comportamentos estamos perpetuando. Afinal, um balanço financeiro pode ser corrigido em um ano, porém uma cultura equivocada pode levar décadas para ser reconstruída. Os sábios ensinam algo ainda mais extraordinário.

Enquanto neste mundo herdamos os bens de nossos pais, no mundo espiritual acontece justamente o contrário. São os nossos pais que recebem mérito através das nossas boas ações. Cada ato de bondade, cada gesto de honestidade e cada decisão correta elevam não apenas quem as pratica, mas também aqueles que vieram antes de nós. Que pensamento poderoso! Isso significa que, quando escolhemos romper ciclos negativos, não estamos apenas construindo um futuro melhor para nossos filhos; estamos também honrando a memória daqueles que nos antecederam. Talvez seja exatamente isso que distingue um verdadeiro líder. Ele compreende que sua responsabilidade vai muito além dos números apresentados em uma reunião de conselho. Ele sabe que cada decisão fortalece ou enfraquece uma cultura, aproxima ou afasta pessoas, inspira ou desencoraja equipes e constrói um legado que permanecerá muito depois de sua ausência.

A história sempre reservará um lugar especial para aqueles que tiveram a humildade de aprender. Porque todo erro produz uma primeira perda, o prejuízo que ele naturalmente causa, mas existe uma segunda perda infinitamente maior: desperdiçar a oportunidade de crescer através dele. É por isso que continuo acreditando que o líder que não aprende perde duas vezes. A primeira quando erra. A segunda quando transforma a experiência em desperdício. Já aquele que revisita sua caminhada com honestidade, preserva a dignidade das pessoas e transforma seus tropeços em sabedoria descobre aquilo que Moisés ensinou há mais de três mil anos: ninguém está condenado ao próprio passado quando decide aprender com ele.

*Coluna escrita por Rav Sany, rabino Sany Sonnenreich, presidente do Instituto Rav Sany de Comunicação e Cultura Judaica e do Grupo Sonnen.

*As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.

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