
Fantasias de carnaval viram figurinos de quadrilha em projeto social que transforma vidas na Zona Oeste do Rio
A tradição das festas juninas, trazida pelos portugueses ao Brasil no século XVI, ganha um novo significado em um projeto social na comunidade Antares, em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio.
No Instituto Silvestre, fantasias que desfilaram no carnaval são reaproveitadas e transformadas em figurinos usados nas apresentações de quadrilha.
Vestidos, saias, jardineiras e adereços que um dia fizeram parte dos desfiles das escolas de samba ganham uma nova função pelas mãos da professora Rose Paixão e dos alunos do instituto.
Rose conta que aproveita materiais descartados por escolas de samba para confeccionar as roupas das apresentações.
“Quando a gente não vai pra Marques de Sapucaí, nós vamos pra Intendentes Magalhães. A Intendente Magalhães. Então, vai meus amigos, eles me ajudam, nós pegamos sacos e enchemos bastante de reciclagem e transportamos no início do ano, assim, no carnaval, pra eu poder fazer a customização das roupas.”
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Durante quatro meses, ela e as crianças reciclam e transformam tecidos utilizados em fantasias de carnaval em figurinos de quadrilhas juninas.
“Quando termina uma eu já penso no tema do próximo ano, então eu vou focar na reciclagem que tem a ver com o tema. Mesmo se não tiver a ver com o tema, eu trago também pra poder reaproveitar, de qualquer forma. O trabalho está muito mais emocionante, muito mais cativante, com muito mais carinho e amor, devido às crianças.”
As apresentações do grupo chamam a atenção justamente pelos figurinos produzidos a partir da reciclagem.
A professora Rose Paixão
Reprodução/TV Globo
Projeto atende cerca de 600 pessoas
A reciclagem de figurinos e as aulas de dança fazem parte das atividades desenvolvidas pelo Instituto Silvestre. O projeto funciona na comunidade Antares, em Santa Cruz, e também mantém uma unidade em Urucânia.
Ao todo, são quase 500 pessoas matriculadas na sede principal e outras 100 atendidas na segunda unidade. Crianças, adolescentes, jovens e adultos participam das atividades.
Maria Eduarda Almeida, de 12 anos, diz que o projeto mudou sua forma de enxergar a vida.
“Quando eu não era do projeto, eu não sabia o que fazer. Então, quando eu entrei no projeto, eu dancei, eu fui saber o que era cultura, o que era amor, o que era dividir amor um para o outro e ajudar o outro.”
Laura Duarte, de 9 anos, participa das atividades há 3 anos.
“Eu sinto amor, sinto paixão por aqui, por causa que quando eu não era daqui eu não conhecia ninguém. Eu ficava aí brincando na rua. Quando eu entrei aqui eu comecei a conhecer várias pessoas.”
Já Nicolas Almeida, de 11 anos, conta que encontrou amigos e aprendeu valores importantes.
“É um amor, eu me sinto muito bem, eu aprendi a dançar, eu não tinha amigo na rua direito pra brincar, aí eu entrei, aí comecei a brincar com meus amigos. Eu aprendi também a respeitar os professores.”
Educação e cidadania
Ao ouvir os relatos dos alunos, Rose Paixão se emociona. Ela afirma que a convivência com as crianças também transformou sua própria vida.
“Para mim, é muito importante ter eles comigo, porque foi um momento da minha vida muito difícil. Quando eu comecei estar com eles aqui na ONG, a princípio eu não queria, porque eu não me via trabalhando com crianças. Mas depois, com o passar do tempo, eu passei a amá-los muito, muito mesmo. Eu sou rígida, brigo bastante, mas não vivo sem eles.”
Além das atividades culturais, o instituto desenvolve ações voltadas para educação e cidadania.
A secretária do projeto e assistente social, Jaqueline Leocádio, explica que há atividades educativas em dois turnos durante a semana.
“As atividades educativas acontecem de segunda e quarta, onde a gente tem dois turnos de educativa. E lá, trabalhamos trabalhar a leitura, que é a importância da leitura com as crianças.”
Ela destaca ainda as ações de conscientização desenvolvidas ao longo do ano.
“Em cidadania a gente trabalha maio laranja, contra abuso sexual, e encerra com uma caminhada com as crianças ensinando os recursos e Conselho Tutelar.”
O projeto também oferece cursos profissionalizantes, informática, esportes, capoeira, oficinas de reciclagem e atividades físicas para jovens, adultos e idosos.
“Nós temos o esporte, que é o futebol. Temos atividades de ginástica para jovens, adultos e idosos. Temos atividade educativa, que a gente trabalha cultura, arte, cidadania, para nossas crianças e adolescentes. Temos capoeira. Temos o projeto arte na favela, que a gente recicla material da comunidade para transformar em arte. Temos aula de informática.”
Crianças participam de projeto social na Zona Oeste do Rio
Reprodução/TV Globo
‘Resgatando sonhos’
O pedagogo Paulo Roberto Silvestre Conrado
Reprodução/TV Globo
O lema do instituto, “Resgatando Sonhos”, representa a trajetória do fundador, o pedagogo Paulo Roberto Silvestre Conrado.
Morador da comunidade, ele reuniu um grupo de moradores para assumir o espaço que antes era ocupado por outra organização social.
Paulo conta que a própria história de vida serviu de motivação para criar o projeto.
“A minha motivação veio do meu nascer, porque a minha vida foi muito dificultosa. Eu tenho quase trinta irmãos, parte de pai. Os meus pais, eles eram de drogas, eles eram alcoólatras. Eu não podia estudar. Até então que eu terminei meu estudo com 25 anos, porque foi muito dificultoso.”
Hoje, formado em Pedagogia, ele busca incentivar outros jovens da comunidade.
“Hoje eu sou um pedagogo. Hoje eu trago a credibilidade pra comunidade, né? Trago o meu impulso, que eu falo pra eles que a gente pode. A gente pode crescer, não importa quem mora em favela. Tem que acreditar em si, acreditar no seu potencial e meter as caras, porque a minha vida foi dificultosa e eu não desisti.”
Transformação social
Segundo Jaqueline, o objetivo agora é ampliar o alcance das ações e continuar transformando a realidade das famílias atendidas.
“A gente sabe das dificuldades do dia a dia. É difícil não se emocionar, porque a gente está aqui como ferramenta de transformação dentro da comunidade. E a gente vê famílias restauradas, estruturadas com os nossos projetos, é muito gratificante. Não dá vontade de parar, é um incentivo quando a gente vê um jovem que passou pelo projeto nosso.”
Ela diz que muitos participantes conseguem ingressar no mercado de trabalho ou abrir o próprio negócio.
“Os crias que transformam são inseridos no mercado de trabalho. Ou então abrir seu próprio comércio, sua barbearia, assim, a sensação de trabalho cumprido, de dever cumprido, o coração ficar quentinho, de ver aquela família hoje não pedindo uma cesta básica, mas comprando seu alimento e a gente saber que foi a ponte de transformação para aquela família. Então é muito gratificante, é puro amor e pezinho no chão e correr atrás para a gente continuar fazendo esse trabalho.”
Para Paulo, acompanhar o crescimento das crianças e dos adolescentes é a maior recompensa.
“O meu sentimento de realização é muito gratificante, porque a gente vê tantos rostinhos, aquelas crianças que vêm tristes, sem um apoio familiar. Então aqui nós estamos para poder abraçar juntamente com o serviço social, que ele dá todo esse suporte, esse apoio, essa comunhão.”
“E a gente vê as crianças crescendo, a gente vê saindo daqui para poder ir para jogar bola. Ou então falar, Paulo, eu consegui fazer um curso e tal, estou trabalhando em uma empresa e tal. Então é muito gratificante acolher e ver o resultado futuro.”
Instituto Silvestre, na Zona Oeste do Rio
Reprodução/TV Globo
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