Juros altos, inflação em queda e um carro na garagem: o brasileiro mudou mais do que imagina

Durante muitos anos, o brasileiro tomou decisões financeiras respondendo a uma única pergunta: “Quanto fica a parcela?” Era uma lógica compreensível. Se a prestação cabia no orçamento, o negócio parecia fazer sentido. O problema é que juros de dois dígitos mudam completamente essa matemática.

Hoje vivemos um cenário curioso. A inflação começa a dar sinais consistentes de desaceleração, enquanto a taxa básica de juros permanece elevada. O Banco Central sabe que inflação é uma doença que melhora rapidamente, mas também pode voltar com a mesma velocidade. O resultado é um ambiente em que o dinheiro continua caro e a previsibilidade passou a valer mais do que o desconto.

Esse cenário não afeta apenas grandes investimentos. Ele chega ao bolso das famílias e às decisões das empresas, inclusive em algo extremamente simbólico para o brasileiro: o automóvel. 

Durante décadas, possuir um carro foi sinônimo de patrimônio e segurança. Hoje, para muitas empresas e consumidores de alta renda, essa deixou de ser, necessariamente, a decisão mais inteligente. Não porque o automóvel tenha perdido importância, mas porque o dinheiro passou a ter um custo muito maior.

Quando o capital custa perto de 14% ao ano, cada real imobilizado precisa justificar sua existência. O empresário que antes comprava cinco veículos para sua empresa começa a fazer uma pergunta diferente: vale a pena colocar centenas de milhares de reais em um ativo que perde valor todos os meses? Na maioria dos casos, a resposta é negativa.

É justamente por isso que modelos de assinatura e locação corporativa ganharam tanto espaço nos últimos anos. Mais do que conveniência, representam uma decisão de gestão financeira. Parcelas previsíveis, ausência de entrada, manutenção, seguro e assistência incluídos, além da menor exposição à desvalorização, transformam o automóvel de um investimento emocional em uma ferramenta operacional.

A previsibilidade passou a valer mais do que a propriedade. E a reforma tributária tende a acelerar ainda mais essa transformação. Com a implementação das novas regras de compensação de tributos, a eficiência fiscal passa a ocupar um papel cada vez mais relevante nas decisões empresariais. Dependendo da atividade e da estrutura tributária de cada negócio, a locação tende a se tornar ainda mais competitiva em relação à aquisição tradicional. Mais do que uma mudança na legislação, trata-se de uma mudança de lógica: o departamento financeiro passa a participar da escolha do carro. Em outras palavras, o CFO agora também opina sobre qual veículo fica na garagem. 

O consumidor de alta renda também mudou. Existe um equívoco recorrente de imaginar que quem possui patrimônio ignora o custo do dinheiro. Na realidade, ocorre exatamente o contrário: quem acumula patrimônio costuma ser extremamente sensível ao custo de oportunidade.

Se um veículo de R$ 500 mil perde valor ao longo do tempo e ainda exige um desembolso significativo de capital, talvez esse dinheiro produza muito mais resultado permanecendo aplicado ou financiando a expansão do próprio negócio. É uma decisão menos emocional e muito mais econômica.

Curiosamente, o mercado premium percebeu essa mudança antes de muitos economistas. Hoje não é raro encontrar empresários que poderiam comprar qualquer carro à vista, mas preferem contratos de assinatura. Não por falta de recursos, mas por excesso de racionalidade.

Há alguns anos isso poderia ser interpretado como cautela. Hoje é simplesmente boa governança. Existe ainda outro fator que merece atenção. Nunca os automóveis evoluíram tão rapidamente. Motores híbridos, elétricos, inteligência embarcada, atualizações de software e novos sistemas de assistência reduziram o ciclo de vida percebido dos veículos. O carro deixou de envelhecer apenas mecanicamente. Agora ele também envelhece tecnologicamente.

Nesse contexto, trocar de veículo a cada poucos anos deixa de ser luxo para se tornar uma estratégia capaz de preservar eficiência, segurança e produtividade, sem carregar o custo da obsolescência. No fim, a discussão nunca foi sobre carros, mas sobre capital e a forma como ele é alocado.

Juros elevados fazem empresas e consumidores redescobrirem um conceito antigo da economia: possuir um ativo também tem um custo invisível. Enquanto muitos ainda perguntam qual carro comprar, uma parcela crescente do mercado passou a fazer uma pergunta muito melhor: qual é a forma mais eficiente de utilizar esse capital? Talvez essa seja a transformação mais silenciosa da economia brasileira.

A inflação começa a ceder e todos respiram um pouco melhor. Mas, enquanto os juros permanecerem elevados, o dinheiro continuará premiando quem faz boas escolhas. Porque, no fim, riqueza não é comprar um carro à vista. É ter liberdade para decidir que talvez não valha a pena fazê-lo.

*Coluna escrita por Fabio Ongaro, economista, empresário italiano no Brasil e CEO da Energy Group  

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