Não há mais reféns israelenses em Gaza

O pai de Ran Gvili, após a confirmação da identidade do corpo encontrado em GazaReprodução

Na manhã de 7 de outubro de 2023, o policial Ran Gvili, de 24 anos, estava em casa, de licença médica, recuperando-se de uma cirurgia no ombro após um acidente de moto. E ali poderia ter permanecido após tomar conhecimento da invasão do Hamas às comunidades no sul de Israel. 

Mas não: Ran foi morto em um confronto com terroristas horas depois, após defender o kibutz Alumim e ajudar na evacuação das vítimas do Festival Nova. Seu corpo foi levado para Gaza.

Um desaparecimento que virou símbolo

Quase nada se sabia sobre o destino de Ran. As forças de segurança abriram arquivos pessoais reunindo toda a inteligência colhida sobre cada um dos reféns israelenses — a dele permaneceu praticamente vazia. Mais de 100 dias após o cessar-fogo entre Israel e o Hamas, no qual foi acordado que todos os reféns, vivos e mortos, seriam libertados, Israel não apenas não havia recebido o corpo do jovem policial como não tinha informações sobre seu paradeiro.

O Hamas insistia não conhecer qual destino tivera o corpo, embora hoje esteja claro que essa foi apenas uma estratégia para retardar o início da segunda etapa do cessar-fogo, que exige o desarmamento total do grupo terrorista para que se inicie a reconstrução de Gaza.

As forças de Inteligência e o exército israelense passaram os últimos meses procurando por Ran em ruínas, casas, túneis e cemitérios. Ontem, 843 dias depois de seu desaparecimento, ele foi trazido de volta para casa.

A operação, batizada Coração Valente, mobilizou mais de cem soldados, que abriram cerca de trezentas covas de um cemitério em Gaza com as próprias mãos. Vinte dentistas acompanharam o grupo para realizar a identificação. Ran ainda vestia seu uniforme.

Ninguém é deixado para trás

O retorno de Ran traz consigo inúmeros símbolos e consagra diversos heróis: não apenas o próprio soldado caído, mas também as centenas de homens e mulheres envolvidos nas tentativas de resgate ao longo dos últimos meses.

As cenas de celebração entre eles são comoventes, como a vista aqui, no momento da confirmação de sua identidade.

Outros dois soldados feitos reféns durante a Operação Margem Protetora, em 2014, também foram resgatados: Hadar Goldin e Oron Shaul. O retorno de Ran marca a primeira vez, em 4.208 dias, que não há reféns israelenses em Gaza.

Esses eventos reverberam profundamente na sociedade israelense, na qual a promessa de que “ninguém é deixado para trás” faz parte do contrato social entre o governo e seus cidadãos.

Planos para o futuro

Como escreveu o jornalista Amit Segal, essa guerra “inflacionou o valor” de reféns israelenses. Suas vidas foram a principal moeda de troca ao longo de mais de dois anos de conflito. Milhares de prisioneiros palestinos condenados por terrorismo — muitos cumprindo penas de prisão perpétua em Israel — foram libertados em troca dos civis sequestrados de suas casas em 7 de outubro, vivos ou mortos.

O Hamas, assim como outros grupos terroristas cuja missão é a destruição de Israel, entende o valor da vida humana para os judeus. Não foi a primeira vez que um grande número de terroristas é libertado em troca de um refém: em 2011, o soldado Gilad Shalit, sequestrado pelo Hamas cinco anos antes, foi libertado em troca de 1.027 prisioneiros palestinos — entre eles, Yahya Sinwar, o arquiteto do 7 de outubro.

A volta de Ran encerra a maior angústia vivida pelos israelenses nesses quase dois anos e meio. Mas o tema não se encerra aqui: é preciso que Israel crie leis severas que ponham fim a esse ciclo de sequestro e resgate.

Esse debate precisará ser enfrentado nos próximos tempos. Por ora, porém, o clima ainda é de alívio. Muitos não acreditaram que seria possível recuperar todos os reféns israelenses — eu entre eles. Esse é mais um sinal de que é preciso acreditar em milagres, sobretudo quando se vive na Terra Santa.

Descanse em paz, Ran.

 

 

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