
São Paulo — Moradores da região da Bela Vista denunciam excesso de ruído, problemas viários e possíveis irregularidades na operação da Cidade Matarazzo, empreendimento que abriga o Hotel Rosewood, o clube privado Soho House, áreas comerciais e espaços para eventos. As reclamações, que se acumulam desde a inauguração do complexo, são hoje objeto de inquéritos civis em andamento no Ministério Público de São Paulo (MPSP), nas áreas de Urbanismo e Meio Ambiente.
Segundo os moradores, as denúncias não se baseiam apenas em relatos individuais. Eles afirmam que há documentos oficiais, incluindo inquéritos do MPSP, editais de chamamento público ligados à SP Urbanismo e registros técnicos, que sustentam questionamentos sobre o licenciamento, a operação e o uso do espaço público pelo empreendimento.
O episódio mais recente ocorreu na madrugada de sábado, 24 de janeiro, quando moradores registraram níveis de ruído próximos a 80 decibéis por volta de 1h da manhã, valor muito acima dos limites previstos para áreas residenciais no período noturno. Vídeos feitos por vizinhos mostram o som vindo de áreas abertas do complexo, como lajes, jardins e espaços externos.
Limites legais e fiscalização
Em São Paulo, o Programa Silêncio Urbano (PSIU) estabelece limites máximos de emissão sonora, que variam conforme o zoneamento e o horário. Em zonas mistas residenciais, o teto noturno gira em torno de 45 decibéis, podendo a infração resultar em multa, interdição parcial ou cassação do alvará em caso de reincidência. O uso de áreas externas para eventos sonoros exige autorização específica e tratamento acústico adequado.
Além do ruído, o Ministério Público apura a compatibilidade entre o Alvará de Licença de Funcionamento (ALF) do complexo e a infraestrutura real de acesso, embarque, desembarque e carga e descarga, especialmente em dias de grandes eventos. Documentos técnicos anexados aos inquéritos indicam que a infraestrutura aprovada pode não comportar a operação real, o que levaria à externalização das atividades para a malha urbana.
Investigação do MP aponta problemas estruturais
O episódio se soma a um histórico mais amplo de denúncias envolvendo a operação da Cidade Matarazzo. Documentos anexados a inquéritos civis do MPSP indicam problemas viários recorrentes, riscos à mobilidade urbana e possíveis irregularidades no licenciamento do empreendimento.
Um dos pontos centrais da apuração é a discrepância entre a capacidade autorizada e a infraestrutura real do local. O ALF permite eventos com até 1.000 pessoas, mas, segundo moradores e registros técnicos apresentados ao Ministério Público, o complexo não dispõe de áreas internas suficientes para embarque, desembarque e carga e descarga compatíveis com esse fluxo.
Como consequência, vias como a Alameda Rio Claro, Rua Pamplona e Rua Itapeva passaram a ser utilizadas como áreas operacionais improvisadas, com filas de carros de aplicativo, vans e caminhões em fila dupla, inclusive durante a madrugada. Moradores afirmam que essa dinâmica decorre de falhas estruturais de projeto, como a inexistência de docas internas adequadas e a incompatibilidade da garagem subterrânea com vans e micro-ônibus.
Confronto com funcionária e acionamento da polícia
O caso ganhou repercussão após envolver o humorista e apresentador Danilo Gentili, morador da rua há mais de uma década. Segundo Danilo Gentili, a discussão ocorreu com Lais Melo, identificada como Head of Membership and Communications do empreendimento. De acordo com o relato, ao ser abordada sobre o volume do som fora do horário permitido, ela teria se recusado a intervir para reduzir o ruído e sugerido que, se o morador estivesse insatisfeito, deveria se mudar.
A conversa foi gravada, mas o som ambiente estava tão alto que partes do diálogo ficaram inaudíveis, o que, segundo o morador, evidencia o nível de ruído no local. Gentili acionou a Polícia Militar, que compareceu e constatou som acima do limite legal, já após a meia-noite. De acordo com o relato, as medições de decibéis foram feitas no sábado, 24 de janeiro. Ainda assim, representantes do estabelecimento teriam alegado que não seria possível reduzir o volume naquele momento.
Impacto viário e risco à saúde
Gentili afirma que a transformação da Alameda Rio Claro de via de mão dupla em mão única, sem estudo de impacto de trânsito conhecido, comprometeu a mobilidade da região. Segundo ele, uma das faixas passou a ser utilizada de forma recorrente para valet e carga e descarga, fazendo com que uma rua pública funcione, na prática, como apoio logístico privado do empreendimento.
Ele relata dificuldade para chegar ao Hospital Sírio-Libanês durante uma crise de saúde. Um trajeto que levaria cerca de 15 minutos teria durado quase uma hora. Segundo ele, se fosse uma emergência grave, o risco seria real. O humorista também associa o barulho noturno persistente a problemas de sono e saúde, que o levaram a buscar acompanhamento médico.
Um histórico de desgaste prolongado
Para Alda Ayres Rosselli, 64 anos, presidente da Associação de Moradores AMORPI e residente da Alameda Rio Claro há 25 anos, os problemas começaram ainda durante as obras. Ela cita alagamentos inéditos, poeira constante, cortes de piso feitos na rua e três vazamentos de gás, situações que, segundo ela, não existiam antes do empreendimento.
Alda afirma que o complexo não dispõe de docas compatíveis com a escala de seus eventos, o que leva à carga e descarga de equipamentos, estruturas metálicas, móveis e flores diretamente na via pública, inclusive durante a madrugada. Ela também relata restrições de circulação em rua pública durante eventos privados, uso de cones e supressão significativa de vagas de estacionamento.
Rua descaracterizada e apropriação do espaço público
Uma moradora da Alameda Rio Claro, que preferiu não se identificar, afirma que a rua, antes tranquila, arborizada e com estacionamento dos dois lados, foi completamente descaracterizada. Segundo ela, a primeira grande exposição no local já foi marcada por uma festa que atravessou a madrugada, com trânsito travado, música ao vivo e nenhuma ação policial.
Ela relata anos de carga e descarga noturna, lama levada para dentro dos prédios, festas realizadas ainda durante a obra e, posteriormente, casamentos e eventos corporativos com música ao vivo, em volume tão alto que inviabilizava atividades básicas dentro dos apartamentos. A moradora denuncia ainda uso arbitrário de cones, veículos circulando na contramão e prejuízo ao acesso a hospitais, afirmando que a rua estaria sendo gradualmente privatizada, com anuência do poder público.

Festas em áreas externas e datas sensíveis
O farmacêutico Daniel Fantinati, 42 anos, relata que, na noite de Réveillon, o restaurante Le Jardin, dentro do Hotel Rosewood, realizou uma festa com banda ao vivo em área externa, fazendo com que o som ecoasse nos prédios vizinhos durante a madrugada.
Segundo ele, em um momento de luto pelo falecimento da avó, precisou contatar a gerente geral do hotel por volta das 2h da manhã para pedir a redução do volume. Ele afirma que não se ouvia o show da Avenida Paulista, mas o som do Rosewood tomava os apartamentos. Segundo Fantinati, ao ser acionado, o empreendimento costuma alegar não haver outras reclamações ou que o barulho não é perceptível internamente.
Falhas técnicas, concessão e ausência de fiscalização
A arquiteta Dirce Carrion, moradora da rua há 34 anos, afirma que inicialmente apoiou o projeto, apresentado como requalificação urbana. Segundo ela, o que se seguiu foi um processo contínuo de desgaste, com mais de dez anos de obras, retirada massiva de terra por caminhões operando inclusive à noite e, a partir de 2022, eventos frequentes com som elevado em áreas externas.
Ela denuncia alagamentos inéditos, rompimento de tubulações de gás, ausência de docas internas, redução das vagas de estacionamento a menos de 30% do original, avanço da calçada do lado do empreendimento, criação de ilhas de paisagismo que prejudicam a visibilidade e o uso de pista de rolamento como valet privado, inclusive após a inauguração do shopping.
Segundo Dirce, houve ainda tentativa de implementação de um projeto de concessão da rua por até 30 anos, formalizado em editais de chamamento público, ligado a entidade privada associada ao empreendimento, sem transparência, acesso público aos termos ou fiscalização efetiva. Ela afirma que a concessão sem fiscalização permite que a iniciativa privada faça o que quiser com a rua.
Relato inclui leilão de animais e questionamentos sobre bem-estar
Dirce acrescenta um episódio que chamou a atenção dos moradores. Segundo ela, o complexo chegou a abrigar leilões de animais, com cavalos e gado mantidos temporariamente em um estacionamento próximo ao empreendimento.
De acordo com o relato, os animais permaneceram confinados por dias em condições consideradas inadequadas, apresentando sinais de estresse intenso, como agitação constante e vocalizações durante a noite. O episódio gerou preocupação entre moradores sobre possível descumprimento de normas de bem-estar animal, ponto que, segundo eles, também integra o material entregue aos órgãos competentes.
Barulho como problema estrutural
O economista Tiago Franceschini, 45 anos, afirma que o barulho ocorre de forma estrutural e recorrente em três frentes: carga e descarga de madrugada, ruído constante de grandes equipamentos de ar-condicionado e ventilação e festas ao ar livre com banda ao vivo, que inviabilizam a rotina doméstica mesmo antes das 22h.
Segundo ele, moradores chegaram a instalar janelas antirruído sem qualquer efeito, arcando com custos próprios para tentar mitigar o impacto.
Risco a hospitais e providências em curso
O Hospital IGESP, vizinho ao complexo, formalizou apoio às denúncias em documentos encaminhados ao Ministério Público, relatando dificuldades no acesso de ambulâncias devido ao bloqueio das vias. O MPSP estabeleceu prazos para que a Prefeitura intensifique a fiscalização sobre ruído, capacidade real, uso do espaço público e cumprimento do alvará.
Segundo os moradores, todo o conjunto documental já foi protocolado e fundamenta as investigações em curso. Dependendo dos resultados, o empreendimento pode sofrer multas, interdição parcial ou cassação de licença.

O outro lado
Esta coluna entrou em contato com a Katiane Romero, Gerente de Comunicação da Soho House, que enviou o posicionamento do clube, da Cidade Matarazzo e Hotel Rosewood São Paulo:
A Cidade Matarazzo busca manter um relacionamento transparente e cordial com toda a vizinhança. As operações são conduzidas em conformidade com a legislação vigente e as condições de licença.
As obras nas ruas trouxeram melhorias definitivas e fundamentais ao local, como a implantação de um sistema de drenagem, cabeamento subterrâneo, pavimentação e iluminação pública de baixo consumo energético. Portanto, garantem mais segurança, infraestrutura, mobilidade, acessibilidade e qualidade de vida para todos. Incidentes pontuais foram tratados de forma rápida e eficaz. A Cidade Matarazzo reforça a regeneração da cidade, mantendo o compromisso em revitalizar a região com eficiência, excelência e segurança.
Soho House e o Rosewood São Paulo são empresas localizadas na Cidade Matarazzo, mas com administração e operação independentes. A seguir o posicionamento dos nossos parceiros:
A Soho House São Paulo é um clube para a comunidade criativa e oferece um ambiente para que os membros possam se conectar, trabalhar, relaxar e se divertir por meio de uma programação diária de eventos que inclui palestras, encontros, workshops, entre outras atividades.
Desde que inauguramos, em junho de 2024, nos preocupamos com o bem-estar de nossos membros e da comunidade local, mantendo com eles um canal de diálogo aberto e transparente, e atentos a minimizar possíveis transtornos. Nos últimos seis meses, realizamos dois encontros formais com os vizinhos da Soho House São Paulo e todas as demandas solicitadas foram atendidas.
Como parte de nossas iniciativas nesse sentido, também contratamos uma consultoria especializada em métodos de medição de ruídos para auxiliar na identificação de qualquer irregularidade e para realizar setups nos equipamentos de som da Casa. Temos o cuidado de realizar análises frequentes a fim de garantir que estes equipamentos permaneçam de acordo com a legislação.
Vale destacar que a Soho House é uma das empresas localizadas na Cidade Matarazzo, que abriga diversos outros empreendimentos com administrações independentes entre si.
O Rosewood São Paulo reafirma seu compromisso com a comunidade local, baseado na transparência, no diálogo contínuo e na condução responsável de suas operações. O hotel mantém uma relação próxima e constante com os moradores do entorno através da Associação existente e trata eventuais demandas de forma técnica e colaborativa, adotando controles rigorosos para minimizar impactos operacionais, incluindo ruídos. O objetivo da propriedade é promover uma convivência harmoniosa, respeitando o bem-estar de hóspedes e vizinhos, sempre em busca de soluções equilibradas.
A propriedade também informa que, embora seus espaços para eventos possam ser locados para diferentes finalidades corporativas e sociais, não aceita mais eventos de qualquer natureza que envolvam animais.
