Vereador ofende comunidade em Santa Catarina e sofre represálias

Mateus Batista e Felipe Barcellos gravaram vídeo polêmico e chamaram comunidade de Florianópolis de ‘lixo’(Foto: Reprodução/Instagram)

Um vídeo divulgado por duas figuras públicas causou grande polêmica em Santa Catarina nos últimos dias. Nele, o vereador de Joinville, Mateus Batista (União Brasil) e o pré-candidato a deputado estadual Felipe Barcellos, que se identifica como um porta-voz do Movimento Brasil Livre (MBL), gravam um vídeo enérgico em frente a comunidade do Morro do Mocotó, na capital do estado, Florianópolis. No conteúdo, os dois se referem ao local de forma pejorativa, o classificando como lixo.

 O vídeo foi publicado em uma rede social e já teve quase 12 mil curtidas. A repercussão foi gigantesca e as opiniões foram bem diversificadas. Enquanto muitos apoiadores apoiaram as críticas efetuadas por Mateus e Felipe, outros criticaram a publicação do conteúdo. Neles, eles alertam para a proximidade da capital do estado em se tornar o Rio de Janeiro, especialmente na alusão das quantidades de comunidades que existem no território fluminense.

O vídeo, inclusive, começa com essa provocação. Nele, o vereador Mateus Batista é gravado em uma rua que tem, como pano de fundo, a paisagem da comunidade Morro do Mocotó. Ele abre a gravação dizendo que estava, ironicamente, no Rio de Janeiro. A interrupção ocorre pela intervenção de Felipe Barcellos que alerta: Florianópolis está virando um grande favelão.

A dupla, então, repassa dados e dá o tom de polêmica ao vídeo. Com frases misturadas e complementares, fruto da edição do material, Mateus e Felipe afirmam, sem citar a fonte originária dos dados, que o “fluxo migratório desordenado fez a capital do estado (no caso Florianópolis) mais do que o dobrar o número de favelas entre 2010 e 2022 ”. Felipe, então, aponta para o local ao fundo e diz: “Esse lixo aqui está crescendo a cada ano e a insegurança da população só sobe.

Morro do Mocotó foi chamado de ‘lixo’ por figuras públicas de Santa Catarina(Foto: ACAM (Associação de Amigos da Casa da Criança e do Adolescente do Morro do Mocotó)

Eles destacam os problemas do crescente fluxo. Ambos classificam como “vagabundos” quem está tomando conta do local. Neles, são citados especialmente os “cracudos” (usuários de crack), “traficantes de drogas” (que, de acordo com eles, possuem mais armas do que os policiais que realizam operações na região) e, por fim, pessoas deitadas sob a Passarela do Samba, pichada com o número 1673. Este número, de acordo com a dupla, faz alusão ao Primeiro Grupo Catarinense (PGC), a maior organização criminosa do estado de Santa Catarina.

Tratando o cenário como de “guerra”, a dupla defende a atuação da polícia no local. Utilizando camisetas como a frase “Prendeu, matou”, eles enaltecem o trabalho das corporações, que, de acordo com eles, “matam e contém o avanço dos vagabundos”, mas, ao mesmo tempo, alertam que eles estão sozinhos nessa guerra. Por fim, o vídeo é encerrado com a mensagem: “Não adianta apenas prender e matar o vagabundo. A gente tem que barrar eles de entrarem no nosso estado”.

O que dizem os participantes do vídeo?

O pré-candidato a deputado estadual, Felipe Barcellos atendeu a reportagem da IG. No contato, ele se defendeu da classificação “lixo” que deu à Comunidade do Mocotó e reiterou o domínio do PCG sobre esta e outras favelas catarinenses

Na verdade falamos que a favela era, com falta de saneamento, arruamento adequado e domínio do crime (…) Pra contexto, o Mocotó e outras favelas são controladas pelo PCG, e as lideranças políticas escolhem ignorar esse fato e fingir que a crítica é direcionada aos moradores, o que em nenhum momento foi feito. A posição segue a mesma: precisamos livrar os moradores das comunidades dos vagabundos criminosos, dos bandidos faccionados que dominaram a região. É necessário adotar uma posição séria de combate ao crime, com fortalecimento da polícia e reurbanização das favelas”, afirmou.

Questionado sobre se estava surpreso com a repercussão do conteúdo, Felipe admitiu que recebeu o retorno de políticos de Florianópolis em função do vídeo. Além disso, admitiu que ele e Mateus receberam ameaças e estão “jurados de morte” pelo PGC. 

Honestamente, conhecendo a péssima qualidade dos políticos de Florianópolis esperava que fossem contrários, mas não de forma tão enfática. No geral atingiu as expectativas, recebi um número muito maior de reações positivas do que negativas. O que foi inesperado foi a reação do PGC, eu e o Mateus tivemos diversas ameaças de morte por faccionados e soubemos que estávamos jurados de morte. Isso só prova como o domínio das facções cresce no nosso território e deve ser contido”, finalizou.

Mateus Batista (União Brasil), vereador na cidade de Joinville, distante 183 km de Florianópolis, não respondeu ao contato da reportagem. O espaço segue aberto e, em caso de posicionamento, a matéria será atualizada.

O que é e onde está o Morro do Mocotó?

Localizado no Maciço do Morro da Cruz, no Centro de Florianópolis, o Morro do Mocotó, uma das primeiras comunidades da capital, começou a ser habitado no século 18. A comunidade estima que o morro abriga cerca de 8 mil pessoas. O nome é inspirado no prato Mocotó, cozinhado no local, que alimentava operários e marinheiros. As informações são do portal NSC

De acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Censo 2022 revelou que Santa Catarina possui 161 favelas, que abrigam mais de 109 mil moradores. De acordo com o IBGE, mais de 8 milhões de pessoas moram no estado. Portanto, a taxa de ocupação popular nas comunidades é de 0,013%.

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