Espécies invasoras: uma ameaça ao equilíbrio do ecossistema

Peixe-leãoRay Harrington/Unsplash

Espécies exóticas invasoras estão entre as maiores ameaças ao meio ambiente. Elas podem causar grandes impactos à biodiversidade e aos ecossistemas naturais, afetando também serviços ambientais importantes, a saúde humana, a economia e a preservação do patrimônio genético e natural.

A introdução dessas espécies pode ocorrer de forma intencional ou acidental, geralmente por meio do transporte entre regiões, países e diferentes ecossistemas. Esse processo tem se intensificado com o aumento do comércio internacional, das viagens e do turismo em escala global.

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Em entrevista ao iG, o biólogo e professor do Instituto do Noroeste Fluminense de Educação Superior da UFF (INFES-UFF), Igor David da Costa, explica que os impactos mais frequentes observados ocorrem quando espécies exóticas passam a competir diretamente por recursos como alimento e território.

“O principal impacto é a redução das espécies nativas. A partir do momento que você tem a introdução de uma espécie exótica invasora e ela compete por algum recurso com a espécie que é nativa, quase sempre o resultado é a diminuição dessas populações”.

Mudanças na cadeia alimentar

A presença de espécies invasoras também pode desencadear mudanças que vão além da competição direta. Quando espécies nativas são reduzidas ou eliminadas, todo o equilíbrio do ecossistema passa a ser afetado.

“Quando você exclui espécies nativas daquele ecossistema, por conta da introdução dessas espécies invasoras, você tem uma modificação na cadeia alimentar e no fluxo de energia daquele ambiente”, afirma.

Isso significa que relações entre predadores, presas e produtores podem acabar sendo alteradas, afetando diversos níveis da rede ecológica que já existia naquele ecossistema.

Alterações no habitat

Mexilhão-dourado, espécie invasora causadora de danos socioambientaisFoto: Michele de Andrade/Ibama

Outro impacto apontado por Igor David da Costa está na capacidade de certas espécies invasoras de alterar as características físicas e químicas do ambiente onde se estabelecem. Um exemplo citado pelo biólogo é o mexilhão-dourado, molusco bivalve que se espalhou por diversos corpos d’água da América do Sul.

“Ele modifica o ambiente por conta do seu tamanho e da sua estrutura, podendo alterar as características do habitat”, afirma. Esse tipo de alteração pode afetar diretamente outras espécies que dependem daquele espaço para sobreviver.

Existe também o risco da introdução de novos parasitas e patógenos. Ao serem transportados para um novo território, essas espécies exóticas podem levar consigo microrganismos desconhecidos pelas fauna e flora nativas.

“Junto com a espécie invasora pode vir uma carga de outros organismos, como parasitas ou microrganismos, que acabam sendo liberados naquele ambiente e podem atingir as espécies nativas”, explica.

Há ainda situações em que as espécies invasoras conseguem se reproduzir com espécies locais. Esse processo, conhecido como hibridização, pode gerar descendentes inviáveis ou provocar alterações genéticas nas populações nativas.

“Você acaba tendo um cruzamento que altera o fluxo gênico dentro daquele ecossistema e pode reduzir a diversidade genética daquela população”, diz o especialista.

Ecossistemas mais homogêneos

Segundo o especialista, com o tempo, a presença de organismos invasores também pode levar à chamada homogeneização biológica, quando diferentes ambientes passam a apresentar conjuntos de espécies cada vez mais semelhantes.

“Quando uma espécie invasora se estabelece e impacta as espécies nativas, a tendência é que aquele ambiente deixe de ser diverso e se torne mais homogêneo”, ressalta.

Esse processo ocorre porque algumas espécies conseguem se adaptar melhor às novas condições e passam a dominar o ecossistema.

Riscos também para pessoas

A invasão da costa brasileira pelo peixe-leão preocupa ambientalistasReprodução: Eddyduende / PxHere

Além dos impactos ambientais, certas espécies invasoras podem representar riscos para seres humanos. Como exemplo, o biólogo cita o peixe-leão, espécie venenosa originária do Caribe que vem sendo registrada no litoral brasileiro.

“É um peixe que tem veneno e já causa muitos acidentes com mergulhadores e pescadores. Além disso, se alimenta de outras espécies de peixe, o que traz grandes impactos para o ambiente”, alerta.

Por que algumas espécies se espalham com facilidade?

A facilidade com que espécies invasoras conseguem se adaptar e se espalhar fora de seu habitat de origem geralmente está associada a uma combinação de fatores biológicos e ambientais. Uma das principais características é a alta capacidade reprodutiva.

Igor explica que se uma espécie consegue gerar uma quantidade muito grande de descendentes e ter sucesso com essa prole, ela tende a conquistar aquele ambiente com mais facilidade.

Outro fator importante é a alimentação variada. Espécies generalistas, que consomem diferentes tipos de alimento, costumam se adaptar melhor do que aquelas com dieta muito específica.

A ausência de predadores naturais também contribui para o crescimento rápido dessas populações. “Se ela combina alta taxa reprodutiva, flexibilidade alimentar e não tem predadores para controlar a população, a tendência é que esse número aumente muito”, afirma.

Ambientes degradados ou modificados pela ação humana também favorecem a expansão dessas espécies. Pastagens, áreas urbanas e regiões impactadas costumam oferecer condições ideais para a uma maior adaptação para essas espécies invasoras.

Além dos fatores biológicos, a própria circulação global de pessoas e mercadorias também facilita a dispersão dessas espécies. Segundo o especialista, atividades humanas como o transporte marítimo podem levar organismos de uma região a outra, permitindo que sejam introduzidos acidentalmente em novos ambientes.

Quando o controle se torna inviável

Coral-sol, espécie exótica pode causar impactos na biodiversidade brasileira Foto: Marcelo Crivellaro/Acervo PACS Arvoredo

Questionado sobre a possibilidade de o controle de uma espécie invasora se tornar inviável, Igor afirma que isso pode sim ocorrer. Segundo ele, esse ponto é alcançado quando a remoção da espécie se torna muito difícil ou cara do ponto de vista técnico e econômico.

O biólogo explica que a viabilidade do controle depende de fatores como a área já ocupada, a velocidade de dispersão da espécie e a relação entre custo e benefício das ações de remoção.

Em situações em que a invasão se espalha rapidamente e o acesso aos organismos é mais complexo, as estratégias de erradicação podem deixar de ser viáveis, restando apenas medidas de monitoramento ou manejo.

Prevenção e monitoramento

De acordo com o biólogo, a prevenção e o controle da disseminação de espécies invasoras dependem de um conjunto de estratégias.

Entre as principais estão a fiscalização e a regulamentação do transporte de organismos entre regiões, para evitar introduções acidentais, além do monitoramento e da detecção precoce de novas espécies em um ambiente.

Quando a invasão já está estabelecida, medidas de manejo e contenção podem ser adotadas, como remoção dos organismos ou outras formas de controle.

O especialista também destaca que a conscientização e a educação ambiental são fundamentais para informar a população e ajudar a reduzir a propagação dessas espécies.

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