
Em um dia quente de setembro de 2011, a bióloga marinha Christine Pergent-Martini analisava dados dentro de um pequeno navio de pesquisa que navegava pelo Mar Mediterrâneo, a cerca de 20 quilômetros da costa da Córsega, no Oeste da Itália. Enquanto o sol refletia nas águas azul-escuras do lado de fora, sua atenção estava voltada ao fundo do oceano. As informações são da National Geographic.
Diante dela, um monitor exibia imagens captadas por sonar, que revelavam o relevo submarino a cerca de 120 metros de profundidade. A cientista estava no fim de uma missão de um mês dedicada a mapear o leito marinho, uma região ainda pouco explorada pela oceanografia moderna.
O objetivo parecia simples, mas escondia um desafio: investigar uma faixa do oceano que é profunda demais para mergulhadores convencionais e rasa demais para atrair grandes projetos industriais. Trata-se de uma “zona intermediária” ainda cheia de lacunas científicas.

Descoberta inesperada
Durante dias, a equipe observou imagens comuns: areia, pequenas rochas e mais areia. Até que algo incomum surgiu na tela.
Círculos perfeitos começaram a aparecer, um após o outro. Todos tinham cerca de 20 metros de diâmetro, com contornos bem definidos e uma simetria impressionante. No centro de quase todos, havia um ponto escuro.
Ao todo, havia dezenas dessas formações.
Sem explicação imediata, a equipe registrou a localização e utilizou um veículo submersível para coletar imagens. Mesmo assim, o mistério persistiu.
Anos de dúvidas e teorias
As imagens foram apresentadas em um encontro científico em 2013, mas não trouxeram respostas definitivas. Nem mesmo uma nova expedição com submarino, no ano seguinte, conseguiu esclarecer o fenômeno.

Com o tempo, os pesquisadores contabilizaram mais de 1.300 círculos espalhados por uma área de quase 15 km².
Diversas hipóteses surgiram:
- crateras causadas por atividade geológica submarina;
- marcas deixadas por bombas descartadas durante a Segunda Guerra Mundial;
- ou formações biológicas ainda desconhecidas.
Sem financiamento suficiente, as investigações ficaram paralisadas por anos.
A entrada de um explorador extremo
O mistério ganhou novo fôlego quando chegou ao conhecimento de Laurent Ballesta, fotógrafo, biólogo marinho e explorador da National Geographic.
Conhecido por expedições em ambientes extremos, da Antártida a cavernas subaquáticas na África do Sul, Ballesta decidiu retomar a investigação usando tecnologia avançada de mergulho.
Em 2020, ele e sua equipe desceram até o fundo do mar na região dos círculos. O que encontraram confirmou que as estruturas não eram artificiais.
Um ecossistema raro
Ao se aproximar de um dos círculos, Ballesta observou uma estrutura central formada por algas calcárias avermelhadas, cercada por um anel de pequenos nódulos conhecidos como rodólitos.
Esses organismos, também formados por algas, criavam uma espécie de borda circular quase perfeita.
Apesar da descoberta, ainda não estava claro como essas formações haviam surgido.
Vida em condições extremas
Para aprofundar a investigação, a equipe realizou uma missão mais ambiciosa em 2021. Utilizando câmaras pressurizadas, semelhantes às usadas por mergulhadores de plataformas de petróleo, os cientistas puderam permanecer mais tempo no fundo do mar.
Durante as expedições, encontraram um ecossistema rico:
- corais raros em cânions profundos;
- pequenos peixes coloridos;
- crustáceos pouco conhecidos;
- e até espécies nunca antes fotografadas vivas.
A região revelou-se um ambiente praticamente intocado.
A resposta pode estar na era do gelo
A chave para o mistério veio após análises de datação por carbono conduzidas pelo paleoclimatologista Edouard Bard, do Collège de France.
Os resultados surpreenderam: as partes mais antigas das estruturas têm cerca de 21 mil anos, período conhecido como o auge da última era glacial.
A hipótese mais aceita hoje é a seguinte:
Durante a era do gelo, o nível do mar era mais baixo, permitindo que algas calcárias crescessem em áreas iluminadas.
Com o aquecimento global natural da época, o nível do mar subiu, mergulhando essas formações na escuridão.
As estruturas colapsaram, restando apenas seus núcleos centrais.
Milhares de anos depois, novos organismos começaram a crescer sobre esses restos.
Fragmentos rolaram ao redor das estruturas, formando os anéis circulares por ação da gravidade.
Risco e preservação
Apesar de sua importância científica, o local está ameaçado. Parte das formações fica sob rotas marítimas, onde âncoras de navios podem destruir facilmente os círculos.
Atualmente, apenas uma fração da área está protegida dentro do parque marinho Cap Corse e Agriate, na França. Cientistas agora pressionam por medidas mais amplas de conservação.
Um enigma que pode se repetir
Mesmo após anos de estudo, os pesquisadores admitem que ainda não possuem todas as respostas. No entanto, acreditam que essas formações podem não ser únicas.
O achado não apenas revela um ecossistema desconhecido, mas também funciona como uma cápsula do tempo, registrando transformações profundas do planeta ao longo de milhares de anos.
