
No Brasil, existem lojas onde chinelo é vendido como “táxi”, roupa é chamada de “brechó” e aparelho de barbear é comercializado como “trator”. Essas gírias são usadas por detentos dentro das penitenciárias do país e, por isso, alguns estabelecimentos especializados adotam esse “dicionário” para facilitar a compra de jumbos pelas famílias.
Jumbo é o nome dado ao pacote de produtos, como alimentos, roupas, itens de higiene e limpeza, que familiares levam ou enviam aos presos, geralmente em sacolas grandes e transparentes, seguindo as regras de cada unidade prisional.

Para garantir que os itens estejam dentro dos padrões exigidos, que podem variar entre presídios, as lojas trabalham apenas com produtos permitidos. Entre eles estão shampoos em frascos transparentes, bolos industrializados sem recheio e roupas nos tamanhos e cores exigidos.
Além das regras relacionadas a alimentos, produtos de higiene pessoal e itens de limpeza, as Secretarias de Administração Penitenciária de cada estado também regulamentam as roupas permitidas tanto para presos quanto para visitantes.
Roupas para as “cunhadas”
Para os visitantes, as exigências costumam incluir camisetas com manga, calça de moletom ou legging e chinelos de dedo. Itens como capuz, botões metálicos, zíperes e estampas geralmente são proibidos. As regras, no entanto, variam de acordo com cada estado.
Em entrevista ao iG, vendedoras de lojas especializadas em vestuário para as chamadas “cunhadas”, termo usado para se referir às mulheres de presos, explicam que, embora algumas exigências não estejam formalizadas pela Secretaria da Administração Penitenciária de São Paulo, elas são amplamente conhecidas entre as visitantes. É o caso da proibição de roupas transparentes e da exigência de camisetas mais longas, que cubram as partes íntimas.
Vitória Mendonça, empresária e dona da “Boutique das Cunhadas”, afirma que essas regras surgiram como forma de evitar conflitos dentro das unidades.
Segundo Thaís Ribeiro, empresária e dona da loja Varietá Modas, o uso inadequado de roupas pode, inclusive, resultar em punições.
A rotina do lado de fora
Ana Cláudia, de 26 anos, é cliente de uma loja especializada na venda de roupas e jumbos para detentos. Há oito meses, ela envia mantimentos para o pai, que está preso.
A primeira compra foi feita em dezembro do ano passado. Segundo ela, o processo foi simples e intuitivo, mas o custo chamou atenção: foram quase R$ 1 mil em produtos.
“Pesquisei a loja pelo Google e, no site, já aparece tudo o que você precisa, inclusive as quantidades permitidas para o presídio. Comprei itens de higiene, alimentos, roupas e papelaria”, conta.
Para Ana, esse tipo de comércio é essencial não apenas pela praticidade, mas também por evitar situações constrangedoras.
“Quem não tem alguém preso não entende o tamanho da humilhação que a gente passa. As pessoas julgam sem saber da nossa realidade”, diz.
Ela explica que, além do preconceito, existe uma rotina exigente para conseguir manter o envio de itens ao familiar.
“É uma correria constante para não deixar faltar nada. Tem vezes que dá para mandar, tem vezes que não dá. A situação não está fácil, mas, quando dá, a gente faz o possível para ajudar”, afirma.
Ela também destaca as dificuldades em lidar com as regras e especificações exigidas pelas unidades prisionais.
“Quem não tem familiar preso não entende como é difícil acertar as cores e os tamanhos das roupas. Às vezes a gente compra errado. Já comprei sete maços de cigarro para o meu pai achando que ele poderia trocar por outras coisas, mas lá onde ele está isso não tem valor. Como ele não fuma, acabou dando de graça”, relata.
Loja dos Preso

Após passar 83 dias detido e enfrentar dificuldades no processo de ressocialização, Péricles Ribeiro, de 46 anos, decidiu criar, em 2018, a “Loja do Preso”.
Na época, sua esposa, Michele de Almeida, trabalhava para uma costureira da região. Em um dia de alta demanda, Péricles foi até o local para ajudá-la com as roupas. Durante a conversa, a chefe perguntou ao casal que tipo de negócio abririam, caso tivessem a oportunidade. A resposta foi imediata: produzir roupas para presos.
Michele então relatou as dificuldades enfrentadas pelas famílias para conseguir entrar nos presídios devido às regras rígidas sobre vestimentas. Diante disso, a chefe se dispôs a comprar os tecidos e ajudar na confecção das peças. As cerca de 250 roupas produzidas foram vendidas em apenas 15 dias, na porta de presídios.
Com o retorno financeiro, o casal tentou devolver o dinheiro investido, mas a chefe recusou. A partir daí, decidiram investir no negócio, que hoje envia entre 500 e 600 kits por mês, via Sedex, para penitenciárias de Minas Gerais, além de manter uma unidade física em Belo Horizonte.
O nome “Loja do Preso” é utilizado apenas nas redes sociais, para facilitar a busca das famílias. No espaço físico, localizado em uma galeria, o estabelecimento adota o nome “Loja do IPL”, sigla para “indivíduo privado de liberdade”, como forma de evitar constrangimento aos clientes.
A loja comercializa produtos dentro dos padrões exigidos pelas unidades prisionais, além de oferecer kits prontos e roupas.
Péricles acredita que o serviço tem um papel importante tanto para os presos quanto para seus familiares.
“O nosso trabalho atende tanto o familiar quanto o recuperando. Para a família, a gente oferece apoio, acolhimento, atenção, muitas vezes, é disso que ela mais precisa naquele momento. Porque é uma situação difícil: a família não cometeu o erro, mas sofre junto com quem está lá dentro. E a gente tenta, de alguma forma, estar presente e ajudar nesse processo”, afirma.
Varietá Modas

Dois meses após a prisão do filho, Thaís Ribeiro de Souza, de 39 anos, decidiu transformar a experiência pessoal em negócio. Em 2025, criou a “Varietá Modas”, voltada ao público do sistema prisional.
A ideia surgiu ao perceber a dificuldade das visitantes em encontrar roupas que atendessem às exigências das unidades prisionais, especialmente opções além das cores mais comuns, como vermelho e rosa.
“O sistema prisional do Brasil é muito grande, então a demanda é alta, principalmente na área masculina. Eu conheci muitas mulheres na porta dos presídios e percebi que muitas não tinham como se deslocar até uma loja. Então comecei a levar as peças até elas, nos dias de entrega de jumbo. Isso acabou criando uma comodidade”, conta Thaís.
Além de roupas para visitantes, a empresária também comercializa peças para os próprios detentos, tanto masculinas quanto femininas. Atualmente, atende entre 50 e 70 clientes por mês e realiza entregas para todo o país.
Segundo Thaís, o atendimento vai além da venda.
“Não é só vender roupa. Muitas vezes, é orientar, ajudar, colocar em contato com guias das unidades, dar suporte emocional. Tem mães que chegam muito fragilizadas, e a gente acaba oferecendo esse apoio também”, explica.
Jumbo CDP

A loja Jumbo CDP foi criada em 2013 por Sebastião Pereira de Albuquerque Júnior. A ideia surgiu após uma amiga, cujo filho estava preso, pedir ajuda para confeccionar uma roupa adequada às exigências da unidade prisional, já que não encontrava peças compatíveis no mercado.
Diante da demanda, Sebastião percebeu que outras famílias enfrentavam a mesma dificuldade e decidiu criar um e-commerce. Com o tempo, além das roupas, passou a vender também jumbos. Atualmente, a empresa atua em todo o estado de São Paulo e comercializa cerca de 1,5 mil kits por mês.
Em entrevista ao iG, Vitor Rebujucarte, de 28 anos, diretor de estratégia da empresa, afirmou que houve mudanças significativas durante a pandemia.
“Com a pandemia, as penitenciárias passaram a padronizar mais as listas de itens permitidos. Antes disso, essas regras mudavam com muita frequência, às vezes até mensalmente”, explica.
Entre os produtos mais procurados está o selo de cartas, utilizado pelos presos para se comunicar com familiares.
Segundo Vitor, o principal diferencial da loja é a praticidade.
“O nosso serviço ajuda a economizar tempo e dinheiro. Em vez de precisar se deslocar para vários lugares, o familiar consegue comprar tudo online, em um único local”, afirma.
Boutique das Cunhadas

Vitória Mendonça, de 29 anos, decidiu abrir a “Boutique das Cunhadas” em 2023, após o marido voltar ao sistema prisional. No entanto, sua experiência com o público começou anos antes: em 2017, ela já vendia roupas e lingeries na porta de um presídio no interior de São Paulo.
Com o tempo, o negócio evoluiu para o ambiente digital. Hoje, a loja vende para todo o Brasil e atua em diferentes marketplaces. Em uma das plataformas, a média chega a 600 pedidos mensais.
Ela também observa que, para muitas clientes, o momento da visita tem um significado especial.
“Tenho clientes que compram roupas toda semana, porque querem ir com looks diferentes. É como se aquele fosse o único momento em que elas se arrumam. Quando você vive essa realidade, de ter um companheiro preso, sua rotina muda completamente. Muitas acabam dedicando os finais de semana a esse momento”, relata.
