Pacote econômico reacende alerta fiscal e pressiona expectativa de juros

O avanço de medidas econômicas voltadas ao estímulo do crédito, ampliação de benefícios e redução de custos para determinados setores entrou no centro do debate econômico brasileiro. No Painel BM&C, especialistas discutiram os impactos de um conjunto de políticas que, segundo estimativas mencionadas no programa, pode alcançar centenas de bilhões de reais em 2026.

O tema ganha relevância em um momento em que o governo tenta conciliar crescimento econômico, manutenção de programas sociais e estabilidade política às vésperas de um novo ciclo eleitoral. Para economistas e estrategistas de mercado, o ponto central deixa de ser apenas o volume das medidas e passa a ser a sustentabilidade fiscal e a forma como investidores passam a interpretar esse movimento.

“Não há menor dúvida que vamos ser nós, seremos nós. Veja, não existe almoço de graça”, diz Roberto Dumas, estrategista-chefe da GCB Investimentos

Pacote de estímulos e custo fiscal

Durante o debate, Dumas afirmou que políticas de expansão de gastos ou estímulos econômicos inevitavelmente geram custos futuros para a sociedade. Mesmo quando o impacto imediato parece positivo, explica o economista, a conta tende a aparecer posteriormente na forma de aumento de impostos, endividamento público ou inflação.

Segundo ele, o governo possui basicamente três caminhos para financiar despesas adicionais: elevar a arrecadação, emitir dívida ou expandir a liquidez no sistema financeiro. Em qualquer uma dessas alternativas, o custo acaba sendo absorvido pelo próprio setor privado.

“Como é que o governo gasta dinheiro? Emite moeda. Bom, de uma certa maneira nós estamos emitindo moeda, não M1. Mas o M2, o M3, o M4”, explica o estrategista.

Estratégia política em ano eleitoral

Para Carlos Honorato, parte dessas iniciativas também precisa ser compreendida dentro do contexto político. Na avaliação do economista, medidas que ampliam crédito ou reduzem custos para determinados grupos podem representar uma tentativa de recuperar fôlego político em um momento de maior pressão sobre a popularidade do governo.

O professor da FIA Business School observa que o pacote busca atingir diferentes segmentos da sociedade simultaneamente, desde famílias de menor renda até setores produtivos. Ainda assim, ele avalia que o efeito dessas ações pode ser limitado diante das restrições fiscais atuais.

“É um último suspiro, né? é a última munição que tem”, avalia Honorato

Endividamento das famílias preocupa economistas

Outro ponto discutido no programa foi o nível de comprometimento da renda das famílias brasileiras. Para Marco Saravalle, esse indicador se tornou um dos principais fatores de fragilidade da economia doméstica, pois limita a capacidade de consumo e reduz o efeito de novos estímulos ao crédito.

O estrategista observa que o problema não está apenas no volume total de dívidas, mas no percentual crescente da renda mensal destinado ao pagamento de juros e amortizações. Esse cenário, afirma, dificulta a recuperação do consumo e aumenta a vulnerabilidade financeira da população.

“A gente tá com mais um recorde, aquele famoso assim, recordes que eu faço uma ironia no sentido assim, recordes que não gostaríamos de ter”, destaca Marco Saravalle, CIO da MSX Investimentos e da Krivo Investimentos.

Juros elevados e percepção de risco

Saravalle também apontou que o mercado financeiro já começa a refletir essas preocupações na precificação dos juros futuros. Na leitura dele, a ausência de sinalizações mais firmes de ajuste fiscal contribui para manter elevado o custo de capital no país.

Segundo o CIO, investidores tendem a reagir menos às medidas pontuais e mais às expectativas sobre a trajetória das contas públicas. Por isso, mesmo diante de tentativas de estímulo econômico, o mercado pode continuar exigindo prêmios mais altos para financiar o governo.

“Então, assim, estão voltando a precificar, o o o Banco Itau colocou em 13%, mas tem gente que já fala em 14%”,
afirma Saravalle.

Autonomia do Banco Central volta ao debate

A discussão também abordou o papel institucional do Banco Central em meio às pressões políticas e fiscais. Roberto Dumas afirmou que países que conseguem manter inflação controlada geralmente contam com bancos centrais independentes ou com alto grau de autonomia decisória.

Na visão do economista, qualquer tentativa de enfraquecer essa autonomia pode afetar diretamente a credibilidade da política monetária. Quando agentes econômicos passam a duvidar da independência da autoridade monetária, explicou ele, as expectativas de inflação tendem a se deteriorar.

“Todo país desenvolvido que consegue controlar a inflação tem um banco central ou independente ou autônomo”, argumenta Dumas.

Confiança institucional no centro do debate

Na reta final da conversa, os participantes destacaram que o principal desafio da economia brasileira hoje envolve a reconstrução da confiança nas instituições e nas regras econômicas. Para Carlos Honorato, previsibilidade institucional é condição essencial para atrair investimentos e reduzir incertezas no ambiente de negócios.

O economista defende que a transparência das políticas públicas e o acompanhamento constante da sociedade são fundamentais para evitar distorções e preservar o equilíbrio institucional, especialmente em períodos de maior disputa política.

“Transparência e a gente tem que acompanhar a sociedade nesse ano de eleição”, conclui Honorato.

 

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